A armadilha da dependência – Por Paula Sousa

Reprodução Revista Veja
Imagine um país onde quase metade da população vive de auxílios estatais. Não é um cenário de um filme distópico, é o Brasil de abril de 2026. Com base em dados levantados em setembro de 2025, aproximadamente 94 milhões de brasileiros dependem de algum tipo de auxílio financeiro ou programa social do Governo Federal para sobreviver, conforme apontado pela Gazeta do Povo. Isso representa cerca de 44% da população, segundo o ID Previdenciário. A conta, meus amigos, não fecha, e a realidade é que estamos criando uma sociedade refém de uma estrutura que deveria ser o degrau, mas se tornou a prisão.
Não estamos falando apenas do Bolsa Família, embora ele seja o gigante da sala. Em abril de 2026, ele atende mais de 18,7 milhões de famílias, o que impacta entre 48 a 50 milhões de pessoas. Somado ao CadÚnico, que abriga mais de 41,6 a 42,2 milhões de famílias, e aos 6 milhões de beneficiários do BPC (Benefício de Prestação Continuada), temos um exército de dependentes.
E o mais curioso? Em abril de 2026, 151 mil novas famílias entraram na chamada "Regra de Proteção", mantendo metade do benefício após uma leve melhora de renda. É o sistema admitindo que, se a pessoa melhora um pouquinho, ela ainda precisa da muleta estatal para não cair de volta na miséria.
O paradoxal "fetiche do pobre"
O governo Lula opera sob uma ótica que o Estadão definiu como um "fetiche" com o pobre. Mas precisamos ser justos: a direita não é contra programas sociais. A direita é contra o uso populista desses programas para manter pessoas eternamente reféns do Estado. O que vemos hoje é a manutenção da pobreza e da ignorância como estratégia de poder.
Thomas Trauman, em suas reflexões sobre o "paradoxo da mobilidade", já apontava para algo fascinante: o filho da faxineira que ganha o diploma, mas não encontra emprego, sente-se frustrado. E com razão. A esquerda intelectualizada, aquela que se diverte chamando o pobre de direita de "fascista" ou "vítima da escala F" (um conceito de um pesquisador americano que a esquerda adora usar para justificar sua superioridade moral), não entende que o povo percebeu o jogo.
A pesquisa da Quaest mostra exatamente isso: as pessoas que ascenderam — aquelas que têm curso superior enquanto as mães não tiveram — percebem a situação econômica do governo Lula como pior do que quem não teve essa mobilidade. Por quê? Porque quem subiu um degrau percebeu que o diploma, sem um mercado de trabalho dinâmico, não vale nada. É a "inflação de diplomas". O governo vendeu a ilusão de que dar papelzinho resolve, enquanto na prática, vendeu um "asteroide de ouro" que, na verdade, só desvalorizou a própria moeda.
A estratégia da fome
Se você acha que estou sendo dura demais, vamos ouvir o próprio "pai dos pobres". Em um vídeo que circula nas redes, Lula foi cirúrgico sobre a sua própria lógica de dominação. Preste atenção:
“Lamentavelmente as pessoas não votam partidariamente. Você tem uma parte da sociedade que pelo alto grau de empobrecimento ela é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica, é por isso que se distribui tanto ticket de leite, porque isso na verdade é uma peça de troca em época de eleição e assim despolitiza o processo eleitoral. Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, né? Tentando distribuir bijuterias e espelho para ganhar os índios, ele distribuiu alimentos. Você tem como lógica manter a política de dominação que é secular no Brasil".
Ele admitiu. O projeto é despolitizar o processo através da barriga cheia — ou da barriga menos vazia. E, como ele mesmo já deixou escapar em outras ocasiões: "se o povo ganhar mais e estudar mais, não vota mais na gente". A conta é simples: se acabar o pobre, Lula será o pai de quem?
A ciência da dependência
A ideia de que o auxílio estatal ajuda o indivíduo a "ter tempo para estudar e melhorar de vida" é uma falácia, e não sou eu quem digo, é a ciência econômica. Um estudo profundo, detalhado, realizado nos Estados Unidos (nos estados do Texas e Illinois) e citado pela Gazeta do Povo, desmontou essa tese.
Eles fizeram uma pesquisa com 2.000 pessoas e deram 1.000 dólares por mês (o que, guardadas as proporções, seria um salário razoável aqui no Brasil) durante 3 anos para um grupo, enquanto o grupo de controle recebia uma mixaria. Resultado? Ao final de 3 anos, o grupo que recebeu a renda básica estava “mais pobre” do que o grupo que teve que se virar por conta própria. Eles não usaram o tempo para empreender ou estudar; eles ficaram mais seletivos, menos dispostos a trabalhar em empregos "comuns" e acabaram acomodados.
A FGV (Fundação Getúlio Vargas), em seu levantamento de janeiro de 2024, já tinha alertado: as famílias que recebem Bolsa Família tendem a não procurar emprego. É o óbvio ululante. Se você remove o incentivo (a necessidade de sobrevivência), a busca ativa por trabalho cai.
E quando o governo mantém essa política de "ajuda" como algo permanente, ele cria uma geração inteira que nunca precisou correr atrás, como bem pontuou o senador Eduardo Suplicy, que ainda insiste nesse modelo, ignorando que o socialismo, historicamente, só distribuiu a miséria, enquanto a economia de mercado gera a prosperidade.
O projeto do fim da escala 6x1
E agora, entra em cena o projeto de fim da escala 6x1. Parece nobre, certo? Quem não quer trabalhar menos? Mas olhe com atenção. Eles estão tornando o ambiente de negócios brasileiro um campo minado. Ao dificultar ainda mais a contratação com leis rígidas e inflexíveis, o empresário, que já sofre para encontrar mão de obra — como relata aquela empresária com 130 mil visualizações que não acha ninguém para trabalhar —, simplesmente desiste de contratar no regime CLT.
E qual é a consequência? O desemprego estrutural. E quem sobra para socorrer esse trabalhador que não consegue mais entrar no mercado formal? O Estado, com seu Bolsa Família, seu CadÚnico, seu BPC. É um ciclo perfeito de dependência. Eles fecham a porta do mercado de trabalho para o jovem (que prefere a Gig Economy, o Uber, o YouTube, pois sabe que CLT é apenas imposto e trava) e, ao mesmo tempo, mantêm o assistencialismo como única alternativa de sobrevivência.
A mudança de mentalidade da Geração Z é clara: eles preferem ser prestadores de serviço com múltiplos clientes do que ser “escravos” de um único "patrão" que, ao primeiro sinal de crise econômica ou desavença, vai demitir o funcionário sem dó. A CLT é o passado. A liberdade de trabalhar para várias pessoas é o futuro. Mas o governo quer o controle, quer o "fetiche" da proteção, quer que você precise dele.
Conclusão: O traidor da classe
Sabe por que, quando um pobre prospera, ele é taxado de traidor ou "fascista" pelos defensores desse sistema? Porque ele quebrou a corrente. Ele provou que, se você tirar o peso do Estado das costas de quem quer produzir, as pessoas prosperam.
O país está sendo drenado por uma política que visa a manutenção de um curral eleitoral. O Brasil tem recursos, tem gente trabalhadora e tem um potencial imenso, mas está sendo mantido na coleira pela "política de dominação secular" que o próprio Lula descreveu tão bem.
A solução não é mais auxílio. A solução não é o fim da escala 6x1 por decreto. A solução é liberdade econômica. É desburocratizar, é permitir que o jovem comece a trabalhar, é incentivar o pequeno negócio e, acima de tudo, entender que o papel de um governo não é ser o provedor eterno, mas sim o facilitador de um ambiente onde as pessoas não precisem mais do governo para ter uma vida digna.
Enquanto mantivermos 94 milhões de brasileiros com os olhos fixos na mesa de jantar provida pelo Estado, estaremos, infelizmente, condenados a um país que não cresce, não evolui e, pior, não pensa. Pensa pelo estômago, não pela cabeça. E é exatamente isso que eles querem. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 24/4/2026)

