A crise entre Brasil e EUA não é sobre Brasil e EUA
Os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva sorridentes durante encontro na Casa Branca -Foto Ricardo Stuckert -PR
Por Fernanda Magnotta
A tensão entre os dois países vai além de Lula e Trump - ela revela como a rivalidade entre grandes potências e a polarização política passaram a redefinir as relações internacionais.
Existe uma tentação natural de ler a atual crise entre Brasil e Estados Unidos como um embate entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. É uma leitura compreensível, mas insuficiente. Personalidades importam, governos fazem escolhas e lideranças imprimem estilos. Ainda assim, reduzir a crise ao fator pessoal é perder de vista o fenômeno mais importante: ela é expressão de uma transformação mais profunda da ordem internacional.
Durante boa parte do pós-Guerra Fria, a política externa norte-americana foi construída sobre a expectativa de que parceiros estratégicos caminhariam, ainda que com diferenças, dentro de um mesmo horizonte político e econômico. Esse consenso hoje não existe mais. A competição entre grandes potências dissolveu muitas das fronteiras entre política externa, economia, tecnologia e política doméstica. O Brasil tornou-se parte dessa disputa. É nesse contexto que se deve compreender o momento atual.
Os Estados Unidos não olham para o Brasil apenas porque se trata da maior economia da América Latina. O país ocupa uma posição singular na arquitetura internacional: é potência agrícola e energética, reúne reservas estratégicas de minerais críticos, integra o G20, participa dos BRICS e mantém capacidade rara de dialogar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas e o Sul Global. Em um mundo organizado pela competição entre Estados Unidos e China, poucos países possuem tamanho grau de autonomia diplomática.
Essa autonomia, entretanto, produz desconforto. Em ambientes de rivalidade estratégica, grandes potências tendem a enxergar neutralidade como imprevisibilidade. O que antes era interpretado como pragmatismo passa a ser percebido como falta de alinhamento. É justamente aí que a crise ganha densidade.
Não se trata apenas de divergências sobre tarifas, sanções, vistos ou nomeações diplomáticas. Esses são sintomas. A questão central é outra: estamos assistindo à crescente politização das relações bilaterais. A política doméstica passou a invadir a política externa de forma maiúscula. O Brasil deixou de ser apenas um parceiro regional para tornar-se também um tema da disputa política norte-americana. Ao mesmo tempo, as reações brasileiras passaram a responder não apenas aos movimentos de Washington, mas também à necessidade de afirmar soberania diante de uma opinião pública altamente sensível à ideia de interferência externa. Esse é um terreno particularmente delicado.
Toda grande potência possui preferências em relação aos governos com os quais negocia. Isso não é novidade na história das relações internacionais. A novidade está na dificuldade crescente de separar preferências estratégicas de percepções de ingerência política. Quando essa fronteira se torna difusa, o custo diplomático aumenta exponencialmente.
Nesse cenário, um eventual telefonema entre Lula e Trump teria menos importância pelos resultados imediatos do que pelo seu significado político. Presidentes raramente resolvem impasses técnicos. O que fazem é autorizar que suas burocracias voltem a negociar. Em diplomacia, restabelecer canais de comunicação muitas vezes já constitui um resultado.
Isso porque a lógica estrutural da relação continua apontando para a cooperação. Os Estados Unidos permanecem entre os maiores investidores no Brasil. O comércio bilateral sustenta milhares de empresas e empregos dos dois lados. Há interesses comuns em defesa, inteligência, combate ao crime organizado, segurança energética, inovação tecnológica e estabilidade regional. Nenhum desses temas desaparece porque governos entram em conflito. É justamente por isso que crises como esta costumam produzir muito mais ruído político do que ruptura estratégica.
O desafio, portanto, não é simplesmente reconstruir a confiança entre dois presidentes. É impedir que uma disputa conjuntural transforme uma relação historicamente estratégica em mais uma vítima da crescente polarização da política internacional.
Talvez essa seja a principal lição do momento atual. A crise não revela apenas um problema entre Brasília e Washington. Ela mostra como o mundo entrou em uma nova fase, na qual rivalidades geopolíticas, disputas tecnológicas e polarização doméstica passaram a operar simultaneamente. Entender essa sobreposição é muito mais importante do que acompanhar cada novo capítulo da crise. Afinal, governos mudam. As transformações estruturais que estamos testemunhando tendem a permanecer (CNN, 8/8/26)

