A falência de um banco brasileiro envolve políticos e juízes
As consequências da liquidação do Banco Master estão se tornando graves.
Daniel Vorcaro começou a ostentar após assumir a presidência do Banco Master, um banco brasileiro de médio porte, em 2019. Nos anos seguintes, gastou generosamente com imóveis, jatos particulares, um hotel de luxo e um time de futebol. Gastou mais de US$ 3 milhões na festa de 15 anos da filha. Enquanto o champanhe corria solto e os jatos acumulavam milhas, alguns questionavam como o Banco Master estava crescendo tão rápido.
O modelo de negócios do banco era baseado na venda de certificados de depósito bancário, um produto de renda fixa popular no Brasil, com taxas de juros excepcionalmente altas.
As rachaduras começaram a aparecer quando Vorcaro tentou vender a empresa repentinamente. Ele encontrou um comprador disposto no Banco de Brasília (BRB), uma instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal.
No entanto, quando o Banco Central investigou os detalhes da fusão, descobriu que o Banco Master não tinha liquidez. Investigadores descobriram que a empresa havia vendido carteiras de crédito sem valor para o BRB por mais de US$ 2 bilhões.

'O único vencedor incontestável dessa saga sórdida é Galípolo, presidente do Banco Central, que se manteve firme contra as pressões para salvar o Banco Master'. Foto: Werther Santana/Estadão
Logo depois, Vorcaro foi preso ao tentar embarcar em um jato particular para Dubai. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) desembolsará entre US$ 7,5 bilhões e US$ 10 bilhões para reembolsar os depositantes, a maior indenização desse tipo na história do Brasil.
A saga poderia ter terminado aí. Mas os efeitos do colapso do Banco Master vão além do setor bancário. Isso porque Vorcaro passou anos cultivando laços com a elite brasileira. O caso expôs ligações entre políticos, figurões do mercado financeiro e o Judiciário em Brasília, a capital, prejudicando a reputação do Supremo Tribunal Federal e do Congresso.
A trama começou a se complicar logo após o Banco Central ordenar a liquidação do Banco Master em novembro. Jhonatan de Jesus, membro do Tribunal de Contas da União (TCU), órgão de auditoria cujos membros são nomeados pelo Congresso, alegou que o Banco Central agiu com muita pressa.
Ele ordenou uma investigação para apurar se o banco poderia ter escolhido alternativas à liquidação. “Esse tipo de interferência na autoridade do Banco Central é incomum e preocupante”, afirma um procurador sênior que trabalha no caso.
Conexão com o Centrão
Jesus tem fortes ligações com o Centrão, grupo de partidos ideologicamente voláteis que controlam o Congresso e possuem um longo histórico de corrupção.
Políticos do Centrão tentaram proteger o Banco Master antes de sua falência. O senador Ciro Nogueira, ex-chefe de gabinete de Jair Bolsonaro, populista de direita e ex-presidente, tentou bloquear uma investigação parlamentar sobre as transações do Banco Master e pressionou pela aprovação de um projeto de lei que daria ao Congresso o poder de demitir o presidente do Banco Central.
Enquanto isso, Ibaneis Rocha, governador bolsonarista de Brasília, defendeu veementemente a aquisição do Banco Master pelo Banco Central, apesar das fortes advertências de muitos analistas. (Um juiz já afastou o presidente do Banco Central devido a uma possível interferência política)
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também sob investigação, foi o maior doador individual para a campanha de Bolsonaro em 2022 e para a campanha de Tarcísio de Freitas, governador de direita de São Paulo.
Quando os investigadores abriram o telefone de Vorcaro, encontraram ainda mais ligações ao poder. O banco havia assinado um contrato de US$ 24 milhões, com duração de três anos, com um escritório de advocacia dirigido pela mulher de Alexandre de Moraes, um influente juiz do Supremo Tribunal Federal.
A vagueza do contrato e as grandes somas envolvidas “não são normais” para os padrões brasileiros, afirma um especialista jurídico. Logo depois, um jornal revelou que Moraes havia telefonado ou se encontrado com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, diversas vezes antes da liquidação do Banco Master.
Moraes e sua mulher negaram qualquer irregularidade. A Procuradoria-Geral da República arquivou uma investigação contra o casal, alegando insuficiência de provas de má conduta.
Moraes afirma que ele e Galípolo se encontraram para discutir assuntos não relacionados ao Banco Master. Mesmo assim, seu comportamento autoritário levantou suspeitas. Em 14 de janeiro, ele abriu uma investigação contra a Unidade de Inteligência Financeira (UIF) e a Receita Federal para apurar se haviam vazado informações sobre o contrato.
A situação não é melhor para o colega e Moraes, José Antonio Dias Toffoli, um juiz que já arquivou outras investigações anticorrupção envolvendo a elite de Brasília. Toffoli viajou em um jato particular com um advogado do Banco Master na mesma época em que o sistema de sorteio do Supremo Tribunal Federal o designou para liderar o caso contra a empresa.
Posteriormente, descobriu-se que Zettel havia investido mais de US$ 1 milhão em um resort que pertencia aos irmãos de Toffoli. Não há provas de que Toffoli soubesse do assunto, e ele não se pronunciou publicamente sobre o tema. No entanto, esses laços reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que o Supremo Tribunal Federal carece de imparcialidade.
Para combater tais suspeitas, o novo presidente do tribunal, Edson Fachin, um juiz sóbrio que evita os holofotes, propôs que a Corte adotasse um código de ética nos moldes do da Corte Constitucional da Alemanha. Os colegas de Fachin desdenharam da proposta.
O único vencedor incontestável dessa saga sórdida é Galípolo, presidente do Banco Central, que se manteve firme contra as pressões para salvar o Banco Master. Jesus foi forçado a retirar sua investigação.
Desde então, Galípolo tem solicitado aos legisladores que concedam ao banco autonomia administrativa, orçamentária e financeira, além da autonomia operacional que ele já possui. Isso daria ao banco poderes mais robustos de supervisão sobre as instituições financeiras e um alívio das duvidosas maquinações de Brasília (The Economist, 22/1/26)

