17/09/2026

A força de São Paulo começou pelo cooperativismo – Por Rodrigo Simões

A força de São Paulo começou pelo cooperativismo – Por Rodrigo Simões

 

As primeiras páginas do relatório de 1939 revelam um cooperativismo que deixava de ser apenas uma ideia para ganhar legislação, estrutura, comunicação e presença em diferentes regiões paulistas. Nos documentos preservados por Otacílio Tomanik, reaparece uma lição que atravessa o tempo: desenvolvimento não se improvisa – exige organização, conhecimento e capacidade de transformar interesses comuns em ação coletiva.

 

Virar as páginas amareladas do relatório de 1939 do Departamento de Assistência ao Cooperativismo é perceber, logo nas primeiras linhas, que alguma coisa havia mudado. Dois anos separam esse documento daquele conjunto de registros de 1937 que acompanhamos nos capítulos anteriores de MEMÓRIAS DO AGRO. Historicamente, é um intervalo pequeno. Mas, para o cooperativismo paulista, aquelas páginas indicam um movimento importante no amadurecimento.

 

O relatório começa cumprindo uma obrigação formal: sintetizar aquilo que de maior importância ocorrera durante o exercício de 1939. Mas antes de entrar propriamente nas atividades do Departamento, sua Diretoria faz questão de registrar dois acontecimentos anteriores que, segundo o próprio documento, exerceram influência decisiva sobre os trabalhos daquele ano: o Decreto-Lei nº 581, de 1º de agosto de 1938, e o Decreto-Lei estadual nº 9.859, de 23 de dezembro do mesmo ano.

 

Não se tratava de uma simples referência burocrática. Na avaliação registrada naquele documento, a nova legislação havia criado condições para incentivar o progresso do movimento cooperativo e permitir que suas organizações avançassem de maneira compatível com suas finalidades sociais, morais e econômicas.

 

Os efeitos aparecem já na página seguinte.

 

O relatório registra que o cooperativismo ganhou “novos alentos e maiores proporções” em São Paulo. Novas sociedades foram organizadas, outras que se encontravam em situação irregular passaram por reorganização e foram promovidos os registros daquelas que se enquadravam nas determinações legais.

 

Há nessa passagem uma característica que acompanha todo o acervo que estamos resgatando: a preocupação com a organização.

 

Cooperativismo não era compreendido apenas como reunião de pessoas em torno de interesses comuns. Era necessário criar sociedades, regularizar estruturas, observar a legislação, registrar, orientar e acompanhar. Em outras palavras, dar consistência institucional à cooperação.

 

E o documento reconhece outro elemento fundamental: nada disso seria possível sem estrutura pública capaz de executar esse trabalho.

 

O Decreto-Lei estadual nº 9.859 é apontado como responsável por proporcionar ao Departamento uma estrutura mais ampla e melhores condições de funcionamento. É a partir daí que aparece uma das passagens mais significativas dessas páginas. O Departamento define sua missão como a de fazer com que “as forças da economia bandeirante se organizem cooperativamente”.

 

Quase nove décadas depois, é difícil passar por essa frase sem perceber sua atualidade.

 

Mudaram as tecnologias, os mercados, a escala da produção e os instrumentos de gestão. O agro paulista tornou-se uma potência que dialoga com o mundo. Mas permanece absolutamente contemporânea a ideia de que produtores organizados, instituições fortalecidas, informação qualificada e cooperação são instrumentos essenciais para transformar capacidade produtiva em desenvolvimento.

 

Essa visão ganha ainda mais força quando observamos como o Departamento estava estruturado em 1939. O relatório enumera diferentes setores: Propaganda e Orientação; Registro e Fiscalização; Assistência e Estatística; Inspetoria; Seção Administrativa; e os Serviços de Cooperativismo no Vale do Paraíba.

 

Não era uma estrutura criada apenas para registrar cooperativas. Havia preocupação com orientação, fiscalização, assistência, produção de informações e presença regional.

 

É justamente a Seção de Propaganda e Orientação que começa a revelar a dimensão prática desse trabalho.

 

Durante 1939, seus funcionários desenvolveram intensa atividade para atender ao registro das cooperativas existentes no Estado, mas o trabalho não se limitava à formalização. O relatório registra ações voltadas à propaganda e divulgação do sistema cooperativo, à organização de cooperativas e ao cooperativismo escolar.

 

Aqui encontramos novamente uma característica que já aparecia no livro de 1937 e que se torna mais evidente em 1939: o cooperativismo precisava ser explicado para crescer.

 

E, para explicar, era necessário ir até as pessoas.

 

Os técnicos realizavam palestras em diferentes localidades paulistas. A imprensa era utilizada como instrumento de divulgação. Publicações procuravam traduzir questões relacionadas ao cooperativismo em linguagem acessível.

 

O alcance dessa estratégia impressiona.

 

Somente naquele ano, segundo o relatório, foram distribuídos 70 comunicados e notícias para cerca de 250 jornais, alcançando veículos da Capital, da então Capital da República e do interior paulista. O documento registra ainda que esse material encontrava boa receptividade na imprensa e era publicado regularmente.

 

Em uma época sem internet, redes sociais ou comunicação instantânea, havia uma verdadeira rede de disseminação de conhecimento sendo construída por meio de jornais.

 

Também foram produzidas publicações técnicas. As páginas preservadas relacionam materiais dedicados à contabilidade das cooperativas, em diferentes partes, além de conteúdos sobre o cooperativismo no exterior e aspectos de sua doutrina. Era informação destinada não somente a divulgar uma ideia, mas a oferecer instrumentos para que ela pudesse funcionar.

 

Essa talvez seja uma das grandes mensagens deste primeiro mergulho no relatório de 1939.

 

Comunicar era importante. Capacitar era indispensável. Organizar era o objetivo.

 

Ao lado das publicações, as páginas seguintes começam a revelar a diversidade das organizações alcançadas pelo trabalho do Departamento. Surgem cooperativas agrícolas e vinícolas, cooperativas de fruticultores, bancos agrícolas, cooperativas de crédito rural e outras organizações espalhadas por diferentes municípios paulistas. Entre os nomes registrados aparecem localidades como Lins, Socorro, Jundiaí, São Roque, Campinas, Casa Branca e Monte Mór.

 

É um retrato de um movimento que começava a se espalhar pelo território e assumir diferentes formas de acordo com as necessidades econômicas de cada região.

 

E é exatamente nesse ponto que a figura de Otacílio Tomanik volta a ocupar lugar especial em nossa série.

 

Ao longo deste projeto, Tomanik não aparece apenas associado a documentos administrativos de uma repartição pública. Seu verdadeiro legado está também na preservação de uma memória que permite reconstruir, página após página, como o cooperativismo paulista foi pensado, organizado e acompanhado naquele período.

 

Os relatórios, ofícios, registros e publicações guardados nesse acervo não contam apenas aquilo que aconteceu. Revelam como pensavam aqueles que estavam ajudando a construir essa história.

 

Esse talvez seja o maior valor dessas páginas datilografadas, hoje marcadas pelo tempo.

 

Ao iniciarmos o livro de 1939, percebemos que muitos dos fundamentos considerados modernos no desenvolvimento do agro já estavam presentes, ainda que sob outras formas, naquela estrutura: organização econômica, assistência técnica, informação, capacitação, comunicação, regularidade institucional e presença regional.

 

Naturalmente, o cooperativismo de hoje é incomparavelmente maior, mais profissionalizado e tecnologicamente avançado. Mas alguns princípios permanecem.

 

Uma cooperativa forte continua dependendo de gestão. Um produtor organizado continua tendo melhores condições de enfrentar mercados complexos. Informação continua sendo instrumento de competitividade. E nenhuma política consistente para o setor produtivo se sustenta sem continuidade, estrutura e conhecimento da realidade de quem está na ponta.

 

O relatório de 1939 começa, portanto, fazendo mais do que prestar contas de um exercício administrativo.

 

Ele registra um momento em que São Paulo buscava transformar a cooperação em instrumento de organização econômica.

 

E talvez seja justamente essa a primeira grande mensagem que o novo livro deixa para MEMÓRIAS DO AGRO: antes de se tornar grande, foi preciso aprender a se organizar.

 

Quase nove décadas depois, aquelas folhas envelhecidas permanecem preservadas. As marcas do tempo estão no papel, na datilografia, nas bordas e na tonalidade amarelada. Mas as ideias que carregam continuam surpreendentemente vivas.

 

É por isso que preservar documentos como os reunidos por Otacílio Tomanik significa muito mais do que guardar o passado.

 

Significa permitir que novas gerações compreendam que uma parte importante da força do agro paulista nasceu de algo aparentemente simples, mas decisivo: gente que percebeu, muito cedo, que cooperar também era uma maneira de construir o futuro (Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 17/9/26)