A guerra tornou os biocombustíveis estratégicos – Por Pedro Côrtes
Coluna de fumaça sobre Teerã-Foto Atta Kenare-AFP
A crise em Ormuz mostra que etanol e biodiesel deixaram de ser apenas instrumentos climáticos para se tornarem proteção contra choques no petróleo.
A guerra não tornou os biocombustíveis mais sustentáveis. Tornou-os mais estratégicos. Essa é uma das consequências menos evidentes do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã e das restrições à navegação no Estreito de Ormuz. A crise não mudou a química do etanol nem melhorou o desempenho ambiental do biodiesel. O que mudou foi o valor econômico
atribuído a combustíveis capazes de substituir parte do petróleo importado.
Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA, cerca de 20,9 milhões de barris diários atravessaram Ormuz no primeiro semestre de 2025, volume próximo de 20% do consumo mundial de petróleo e derivados líquidos. Quando esse fluxo é ameaçado, não sobe apenas o barril. Fretes, seguros marítimos e custos de importação também aumentam.
É nesse ambiente que os biocombustíveis deixam de ser apenas instrumentos de redução de emissões e passam a ser avaliados pela capacidade de preservar divisas, reduzir importações e proteger o abastecimento.
A Indonésia oferece o exemplo mais claro. O país já havia elevado a mistura obrigatória de biodiesel de palma no diesel de 35% (B35) para 40% (B40) e pretendia chegar a 50% (B50). A guerra não criou essa política, mas antecipou sua implantação para 1º de julho.
Segundo o governo indonésio, a mistura de 50% de biodiesel de palma pode reduzir a conta anual de importações em cerca de 157 trilhões de rúpias, quase US$ 9 bilhões. No início de julho, o diesel convencional custava 21.150 rúpias por litro, mais de três vezes o preço do biodiesel subsidiado, de 6.800 rúpias.
A Reuters registrou aumento na procura por adaptações de veículos, incluindo separadores de água, ajustes eletrônicos e trocas mais frequentes de filtros. O que antes era uma política industrial passou a influenciar diretamente a escolha dos consumidores.
A Índia segue lógica semelhante. O país antecipou de 2030 para 2025 a adoção nacional do E20, gasolina com 20% de etanol, e começou a introduzir o E85 para veículos flex.eua ir, embora persistam discussões sobre autonomia, compatibilidade da frota e informação ao consumidor.
O Brasil entra nesse debate em posição privilegiada. Desde 1º de agosto de 2025, a gasolina contém 30% de etanol anidro e o diesel, 15% de biodiesel. A discussão atual, portanto, já não é sobre iniciar uma ampliação, mas sobre avançar além do E30 e do B15, com propostas que incluem E32, B16 e, posteriormente, B17. O país possui quase meio século de experiência com etanol, ampla frota flex, produção crescente de etanol de milho e uma indústria de biodiesel em escala nacional. Essa estrutura permite reduzir parcialmente a exposição ao Brent, ao câmbio e às importações de derivados.
Mas essa vantagem não significa imunidade. Mesmo com E30, a gasolina continua contendo 70% de combustível fóssil. No B15, 85% do produto permanece sendo diesel mineral. As misturas reduzem a vulnerabilidade, mas não eliminam a dependência do petróleo.
Também existem limites econômicos. Cerca de 70% do biodiesel brasileiro é produzido com óleo de soja. Ao ampliar o uso doméstico de óleo de palma, a Indonésia pode reduzir sua oferta exportável e contribuir para sustentar os preços internacionais de outros óleos vegetais.
Esse efeito não é automático. Depende de safras, estoques, demanda por alimentos, câmbio e política comercial. Ainda assim, o Brasil pode substituir parte do diesel importado e, ao mesmo tempo, enfrentar matéria-prima mais cara para produzir biodiesel.
Impacto tecnológico
A dimensão tecnológica também exige cautela. Misturas elevadas demandam qualidade rigorosa do combustível, controle de umidade, armazenamento adequado e compatibilidade de filtros e sistemas de injeção. A transição não exige necessariamente reconstruir motores, mas tampouco é tecnicamente neutra. Por isso, aumentos de mistura precisam ser acompanhados de testes, fiscalização, homologação dos fabricantes e comunicação clara ao consumidor.
A guerra colocou esses programas sob uma nova perspectiva. Etanol e biodiesel continuam pertencendo à política climática, mas passaram a ocupar também o espaço da defesa econômica. O conflito não os tornou mais limpos, baratos ou tecnicamente simples. Tornou mais evidente o custo de permanecer excessivamente dependente do petróleo (CNN, 12/07/26)

