18/05/2026

A inflação da guerra e a de Lula – Edtorial O Estado de S.Paulo

A inflação da guerra e a de Lula – Edtorial O Estado de S.Paulo

A guerra no Irã pesa sobre os preços no mundo todo, inclusive no Brasil. Mas a manutenção da alta inflacionária por aqui tem menos a ver com a guerra e mais com a farra eleitoreira de Lula.

 

Em outubro de 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva vaticinou que o tsunami da crise financeira global deflagrada naquele ano chegaria ao Brasil na forma de uma “marolinha”. Em certa medida, foi o que aconteceu, sobretudo porque o Brasil era periférico no sistema mais afetado pela turbulência.

 

Agora, porém, é pouco provável que o Brasil, malgrado ter uma economia fechadíssima, saia ileso do terremoto econômico causado pela guerra no Irã – o que pode ter impacto inclusive nas eleições.

 

Os sinais mais evidentes do alcance dos tremores secundários por aqui vieram com a inflação de abril medida pelo IPCA, o índice oficial, que subiu 0,67%, o resultado mais alto para o mês desde 2022, segundo o IBGE. Em 12 meses, a inflação acumulada é de 4,39%, quase no limite de tolerância de 4,5% perseguido pelo Banco Central (BC) e bem distante da meta anual de 3%.

 

Não à toa, instituições financeiras têm revisado para cima suas previsões para a inflação em 2026. Já há, inclusive, quem vislumbre IPCA acima de 5% no final do ano. Consequentemente, o espaço para que o BC siga reduzindo a taxa básica de juros fica cada vez mais restrito.

 

No início de 2026, bem antes da eclosão da guerra no Irã, a expectativa era de que em dezembro deste ano a taxa básica de juros caísse para algo em torno de 12%, patamar ainda bastante elevado, mas consideravelmente melhor que os juros de 15% com os quais inaugurou o ano.

 

A guerra reconhecidamente pesa sobre os preços. Uma vez que parte relevante da produção global de petróleo está interditada devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde escoa parte significativa da produção, o custo dos combustíveis aumentou. Mas não só. O conflito no Oriente Médio também tende a pressionar os preços dos alimentos, porque afeta a entrega de fertilizantes.

 

Embora a guerra provoque inflação no mundo todo – nos EUA, o índice de abril, de 3,8%, é quase o dobro da meta de 2% definida pelo Fed –, no caso brasileiro a questão inflacionária tem camadas extras de complexidade.

 

Mundo afora, as autoridades monetárias têm enfrentado o desafio de calibrar suas taxas de juros em meio a um choque de oferta de energia. Por aqui, no entanto, a Selic já era bastante elevada bem antes da guerra.

 

Juros reais sufocantes, de 8% ao ano, têm cobrado seu preço. A população ressente-se do baixo poder de consumo. O endividamento e a inadimplência estão mais presentes na vida do cidadão e das empresas. Em um cenário tão pouco alvissareiro, tornar a elevar juros causaria transtornos ainda maiores.

 

O governo, porém, age de modo incansável para atrapalhar ainda mais a queda dos juros. O presidente Lula, cuja gestão é mal avaliada pelos eleitores, vem lançando uma série de medidas populistas e fiscalmente irresponsáveis. A guerra é usada como pretexto para o uso desbragado de subvenções do Tesouro, isenções fiscais e subsídios.

 

O exemplo mais recente é a medida provisória que estabelece subsídio federal de R$ 0,89 por litro de gasolina e de R$ 0,35 por litro de diesel. Bastou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmar que a companhia anunciaria “já, já” um aumento do preço da gasolina, defasado em cerca de 70% em relação ao mercado internacional, para a caneta de Lula ser acionada.

 

Não haveria problema na adoção de medidas que buscam mitigar os efeitos da guerra (prolongados, mas temporários) sobre a população, sobretudo a mais pobre, se o governo não tivesse passado a gestão inteira gastando como se o País vivesse em permanente estado de emergência.

 

Quando a emergência realmente ocorre, como agora, o governo imprevidente gasta ainda mais aquilo que já não tem. Supostamente preocupado com o povo, Lula vai empilhando medidas que, em vez de solucionar, agravam os problemas de fundo do País.

 

Ao despejar dinheiro no mercado, o governo joga ainda mais gasolina na fogueira inflacionária, impedindo que a Selic caia. Se prosseguir nesse ritmo, Lula corre o sério risco de contratar juros altos por mais tempo – encarecendo dívidas, sufocando o setor produtivo e limitando o crescimento. Ou seja, o terremoto provocado pela guerra no Irã causa prejuízos em todo o mundo, mas as nossas dificuldades são criadas por aqui mesmo (Estadão, 17/5/26)