A internet não sofre de amnésia eleitoral
Imagem IA
Na política, mudar de opinião é legítimo. Explicar por que mudou é recomendável. O difícil é imaginar que palavras duras ditas ontem simplesmente desaparecerão quando chega a eleição. Ainda mais depois que inventaram a internet.
A recente reunião realizada na sede da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo — FAESP — colocou lado a lado o presidente da entidade, Tirso Meirelles, e o candidato ao Senado Ricardo Salles.
Até aí, absolutamente normal. Entidades representativas recebem lideranças e candidatos, discutem propostas e apresentam as demandas de seus setores.
O detalhe interessante desta história está no passado.
Ou melhor: nos arquivos.
Porque a internet tem uma característica particularmente incômoda para a política: ela lembra.
A INTERNET TEM MEMÓRIA
Fotografias permanecem.
Declarações reaparecem.
Postagens são recuperadas.
E opiniões que pareciam esquecidas podem retornar justamente quando seus autores menos gostariam de reencontrá-las.
Foi o que aconteceu neste episódio.
Para entender a reunião de agora, precisamos voltar apenas alguns anos.
ERA ABRIL DE 2023...
Em 28 de abril de 2023, Ricardo Salles publicou em sua conta no então Twitter, hoje X, uma crítica duríssima à sucessão na direção da FAESP.
As palavras foram dele:
“Isso é um absurdo sem tamanho. A pessoa ser presidente de uma entidade de classe por 48 anos já beira a imoralidade. Querer passar o ‘trono’ para o filho então, é inaceitável.”
Não é necessário interpretar muito.
Salles escolheu expressões suficientemente claras.
“Absurdo.”
“Beira a imoralidade.”
“Trono.”
“Inaceitável.”
Um vocabulário que demonstrava indignação inequívoca com a longevidade de Fábio Meirelles no comando da entidade e com a sucessão envolvendo seu filho, Tirso Meirelles.
Palavras fortes.
Muito fortes.
E palavras fortes costumam exigir memória igualmente forte.
CORTA PARA 2026

Foto Repprodução Instagram e IA
“Excelente reunião de alinhamento de pautas na FAESP, com o Presidente Tirso Meirelles e o nosso futuro Senador Ricardo Salles.
O setor produtivo terá um representante no Senado Federal e será a extensão da Casa do Produtor paulista.
Senador é SALLES 300! fredericodaviloficial Serviço Nacional de Aprendizagem Rural Senar SP”
Três anos depois, eis uma fotografia bastante diferente.
Publicação recente do deputado Frederico d’Avila registra Ricardo Salles ao lado de Tirso Meirelles na própria FAESP.
E a legenda traz uma expressão particularmente interessante:
“Excelente reunião de alinhamento.”
Alinhamento.
Convenhamos: de “inaceitável” para “reunião de alinhamento” existe uma distância política considerável.
E talvez esteja justamente aí a pergunta mais importante desta história:
o que mudou?
DE “TRONO” A MESA DE REUNIÃO
Mudar de opinião é um direito de qualquer cidadão.
Inclusive de políticos.
Pessoas amadurecem, circunstâncias mudam, avaliações podem ser revistas e antigos adversários podem conversar.
Faz parte da vida.
E faz parte da política.
Mas, quanto maior a mudança, maior deveria ser a explicação.
Ricardo Salles mudou sua avaliação sobre Tirso Meirelles?
Mudou de opinião sobre a sucessão na FAESP?
Aquilo que em 2023, segundo suas próprias palavras, “beirava a imoralidade” deixou de incomodá-lo?
Ou o calendário eleitoral proporcionou uma nova interpretação para aquilo que antes parecia tão absolutamente “inaceitável”?
Perguntar não ofende.
Principalmente quando as perguntas foram produzidas pelas palavras do próprio personagem.
SUB JUDICE: É BOM EXPLICAR
Há ainda discussões judiciais envolvendo a direção da entidade, razão pela qual aparece em determinados contextos a expressão latina sub judice.
Traduzindo para o português claro: significa que determinada questão está sob apreciação da Justiça, aguardando definição judicial.
E aqui cabe uma ressalva fundamental.
Estar sub judice não significa condenação, culpa ou irregularidade comprovada.
Significa apenas que existe uma controvérsia submetida ao Poder Judiciário.
Precisão também é obrigação de quem faz crítica.
O AGRO NÃO PODE SER APENAS CENÁRIO
A FAESP representa produtores rurais e sindicatos de um dos setores mais importantes da economia paulista.
Por isso mesmo, qualquer liderança política tem o direito — e até o dever — de dialogar com a entidade e ouvir as demandas do campo.
O problema não está na reunião.
Está na coerência.
O agro não pode servir apenas como cenário conveniente para fotografias em período eleitoral.
Produtores rurais merecem propostas, compromissos claros e, principalmente, respeito à inteligência de quem acompanha a política.
A URNA PRODUZ MILAGRES
Períodos eleitorais possuem fenômenos fascinantes.
Antigas divergências diminuem.
Pontes aparecem.
Fotografias improváveis surgem.
E aquilo que parecia absolutamente inconciliável passa, de repente, a caber confortavelmente ao redor da mesma mesa.
É quase um milagre eleitoral.
Nada disso seria particularmente relevante se não existisse uma publicação antiga esperando pacientemente nos arquivos digitais.
Mas existe.
E ela fala.
CONVICÇÃO OU CONVENIÊNCIA?
Essa é a pergunta inevitável.
O Ricardo Salles de 2023 estava errado?
Ou o Ricardo Salles de 2026 simplesmente mudou de opinião?
Se estava errado, reconhecer seria uma demonstração de grandeza.
Se mudou de pensamento, explicar seria uma demonstração de transparência.
O que não combina com a vida pública é agir como se determinadas declarações nunca tivessem existido.
Principalmente quando foram feitas com tamanha contundência.
A MEMÓRIA DO CAMPO TAMBÉM CONTA
Quem pretende representar São Paulo no Senado terá pela frente um eleitorado atento e um setor produtivo acostumado a trabalhar com fatos, números e resultados.
O produtor rural sabe perfeitamente que discurso é importante.
Mas coerência também é.
Talvez por isso este episódio seja tão emblemático.
Não porque Ricardo Salles tenha se reunido com Tirso Meirelles.
Repetindo: conversar é legítimo.
A questão está na enorme distância entre aquilo que se dizia e aquilo que se faz.
A INTERNET NÃO SOFRE DE AMNÉSIA ELEITORAL
Talvez essa seja a principal lição de toda essa história.
Na política, discursos mudam.
Adversários conversam.
Pontes são reconstruídas.
E até aquilo que ontem era “inaceitável” pode, aparentemente, transformar-se na “excelente reunião de alinhamento” de hoje.
Tudo isso é possível.
Existe apenas um pequeno inconveniente:
a internet não sofre de amnésia eleitoral.
Ela guarda a frase de ontem.
Guarda a fotografia de hoje.
Coloca as duas lado a lado.
E entrega ao cidadão aquilo que nenhuma estratégia política consegue apagar: a possibilidade de comparar.
Ricardo Salles não precisa explicar por que conversou com Tirso Meirelles.
Precisa explicar por que aquilo que provocava tamanha indignação em 2023 parece não impedir o alinhamento de 2026.
No fim, coerência não significa jamais mudar de opinião.
Significa assumir que mudou — e explicar por quê.
Porque palavra empenhada também é patrimônio político.
E quando a memória de alguém eventualmente falha...
os arquivos costumam ajudar (Da Redação, 28/8/26)

