A política da amnésia acabou – Por Paula Sousa
Presidente Lula da Silva. Foto Reprodução Blog Notícias R7
Imagine um espetáculo de teatro que esteve em cartaz por décadas. O protagonista, um ator carismático e veterano, acostumou-se a ser ovacionado. O roteiro era simples: ele entrava no palco, prometia mundos e fundos, e o público, hipnotizado pela luz dos refletores, aplaudia.
No entanto, o tempo passou, as luzes da ribalta enfraqueceram e a plateia, munida de novos dispositivos de informação, começou a notar que o ator não apenas esqueceu as falas, mas também inverteu o sentido da própria peça. O problema é que, agora, ninguém mais ri da piada, e o silêncio na plateia tornou-se o som mais ensurdecedor do governo atual.
Estamos testemunhando o que pode ser chamado de "política da amnésia". É uma estratégia curiosa: o governo toma uma decisão, colhe a impopularidade, e, quando o resultado se mostra desastroso, finge que nunca a defendeu. A culpa, claro, é sempre de um terceiro — o Congresso, a conjuntura internacional ou a sorte.
O Estadão descreveu com precisão essa tática ao analisar a famigerada "taxa das blusinhas", as apostas esportivas e as tentativas de regulamentação de aplicativos. O Planalto, acuado pela rejeição, tenta transferir a responsabilidade por projetos que foram gestados dentro de seus próprios gabinetes. É a tentativa desesperada de descolar a imagem do governo dos resultados práticos de suas próprias medidas.
O "Lula da Silva" de hoje parece sofrer de um esquecimento seletivo fascinante. Ele sancionou a taxa sobre compras internacionais, mas logo depois apareceu criticando o custo que ela impõe ao consumidor. Ele regulamentou as apostas esportivas — as chamadas "bets" — e, diante do endividamento das famílias que elas provocaram, agiu como se fosse um espectador surpreso, e não o autor da assinatura na lei. É difícil manter a pose de salvador da pátria quando a sua própria caneta é a responsável por taxar o cidadão que você jurou proteger.
Mas o teatro não para por aí. Existe a segunda perna dessa política: o incentivo ao endividamento. O Correio Braziliense destacou recentemente que programas como o "Desenrola 2.0" dependem apenas de um aval presidencial. A estratégia parece ser baseada na ideia de que, se você não consegue aumentar a renda das pessoas, você deve facilitar o acesso ao crédito para que elas sobrevivam mais um mês. O resultado? Uma população cada vez mais atolada em empréstimos bancários.
Estamos observando o ciclo clássico de expansão artificial de crédito. O governo cria a dívida, infla o consumo de curto prazo, gera a inadimplência e, depois, "salva" o devedor criando um novo programa estatal. É uma profecia autorrealizável de dependência. Em vez de criar um ambiente de prosperidade real, o governo transforma a cidadania em um balancete bancário. Para o trabalhador, o custo desse paternalismo é invisível, mas real: salários achatados e um futuro hipotecado.
Enquanto essa dança de cadeiras econômica acontece em Brasília, o epicentro do poder tradicional, o mapa eleitoral começa a sofrer um tremor. O "bastião" lulista, o Nordeste, que por anos serviu como uma âncora de segurança para o petismo, dá sinais claros de fadiga. Conforme reportado por O Globo, há uma piora notável no histórico de desempenho do Lula na região, acompanhada de divisões na base aliada. A pergunta que intriga os analistas é: por que o Nordeste, historicamente tão fiel, estaria mudando?
A resposta não é mágica, é tecnológica. Por décadas, o Nordeste esteve sob um monopólio de informação. A televisão centralizada e as redes de influência local conseguiam filtrar a realidade, mantendo uma narrativa coesa. Hoje, com a descentralização da informação, esse filtro ruiu. O Brasil é, em sua essência, conservador e religioso, e o Nordeste é um dos lugares onde esses valores são mais profundos. O que antes era ocultado pela narrativa da grande mídia agora é exposto pelo meme, pelo vídeo compartilhado no WhatsApp e pela conversa franca entre vizinhos.
O brasileiro médio, independente da região, começou a perceber a desconexão entre o discurso oficial e a vida real. Quando um líder discursa sobre a contenção de gastos ou a economia de alimentos vestindo acessórios de luxo, o cidadão não precisa de um editorial de jornal para entender a ironia. Ele percebe na hora. A internet nivelou o campo de jogo. O Lula não perde apoio no Nordeste porque a região mudou sua natureza; ele perde apoio porque agora, o nordestino tem acesso ao que o restante do país já sabia há muito tempo.
Essa perda de hegemonia cria um efeito dominó. A dificuldade em fechar coligações no Nordeste não é apenas um problema de logística; é um problema de credibilidade. Políticos regionais são, acima de tudo, pragmáticos. Eles não se apegam a ideologias, se apegam a vencedores. Quando eles olham para as pesquisas e veem o nome de um adversário — como Flávio Bolsonaro — subindo enquanto o governo atual patina, eles se afastam. O "mito" da invencibilidade eleitoral está se dissolvendo, e ninguém quer estar no palco quando o teatro decidir encerrar a temporada mais cedo.
O desespero do governo transparece em ações externas. O Poder 360 noticiou as tentativas do atual mandatário, em viagens à Europa, de "desmascarar" a oposição e buscar apoio internacional para brigar com os Estados Unidos. É uma tentativa clássica de criar um inimigo externo para distrair o público interno. O UOL, por sua vez, registrou o tom de urgência ao classificar a oposição como um "risco à democracia". É o último recurso de quem já não consegue vencer pelo debate: a demonização do adversário.
O mais engraçado é que o governo tenta aplicar manuais dos anos 80 em uma sociedade que vive o presente digital. A tentativa de controle da narrativa através do medo ou da censura encontra uma resistência que eles nunca conheceram: a liberdade de circulação de ideias. A cada tentativa de "desmascarar" a oposição, o governo acaba por desmascarar a si próprio, revelando o quanto está alienado da realidade de um país que clama por menos impostos, menos dívida e, acima de tudo, menos amnésia.
O cenário é claro. O espetáculo do lulismo, com suas promessas de campanha e seus esquecimentos convenientes, está perdendo o seu público. Não é uma mudança de gosto dos eleitores; é uma mudança de percepção. O espectador finalmente percebeu que o protagonista não está apenas esquecendo as falas, ele está jogando o roteiro no lixo.
E, quando a plateia percebe o truque, não adianta culpar o Congresso, a oposição ou a sorte. O show, afinal, precisa acabar. E a política da amnésia, como qualquer encenação que ignora a realidade, já está com os dias contados. O Brasil, de norte a sul, acordou e está pedindo um novo roteiro. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 20/4/2026)

