22/09/2026

A relação de Moraes com Vorcaro diz algo sobre a trama golpista?

A relação de Moraes com Vorcaro diz algo sobre a trama golpista?

Foto Reprodução Blog UOL

 

 

Por Joel Pinheiro da Fonseca

 

  • Ministro acusado de irregularidades insiste em confundir as duas coisas em tentativa de se defender
  • Se o STF protelar investigação contra Moraes, ele será presidente da corte no ano que vem

 

As novidades sobre Kassio Nunes Marques (sobre a "turma do KN", conforme revelado pelo Metrópoles) o colocam no mesmo patamar de suspeita que Alexandre de Moraes. Deve ser igualmente investigado. Mas dificilmente encontrará defensores tão aguerridos quanto Moraes.

 

Pela centralidade de Moraes no combate judiciário a quem queria derrubar a democracia brasileira, e pelos métodos para lá de heterodoxos —para alguns, ditatoriais— empregados por ele, é inevitável que, com os indícios de corrupção, todo o passado recente do Brasil seja colocado em julgamento.

 

A princípio, são duas coisas perfeitamente independentes: o papel de Moraes no combate ao golpismo e seu envolvimento com Daniel Vorcaro. A relação não tinha sequer começado em 2022. Um policial ser pego num escândalo de corrupção não significa que os bandidos que ele prendeu ao longo dos anos eram inocentes. Seria uma situação muito diferente, por exemplo, se descobríssemos que Moraes recebeu dinheiro para condenar Jair Bolsonaro (PL).

 

É o próprio Moraes, contudo, que tem feito questão de ligar as duas coisas. Primeiro ao usar o inquérito das fake news em causa própria, como arma de ataque contra seu colega André Mendonça. Foi apenas a gota d’água, o ápice de um uso crescentemente autointeressado desse inquérito que tanto mal fez à legitimidade do Supremo.

 

A segunda ligação que Moraes faz entre a proteção da democracia e a corrupção de Vorcaro é para se defender. No documento protocolado no STF, ele diz: "A tentativa de Golpe não se encerrou em 8/1/2023, simplesmente mudou seu modus operandi". É tudo uma vingança dos bolsonaristas. Para se salvar, o ministro faz pastiche da própria conduta que o notabilizou.

 

As duas coisas se tocam ainda de uma terceira maneira: os expedientes usados agora para proteger Moraes são as mesmas críticas processuais utilizadas pela defesa dos acusados de atentar contra a democracia. A acusação de Mendonça como juiz investigador, ou juiz acusador. O problema é que essas objeções feitas nos últimos anos sempre foram descartadas.

 

Os esclarecimentos pedidos por Mendonça sobre a identidade de um interlocutor de Vorcaro parecem insignificantes quando lembramos que, num dado momento, Moraes era ministro do Supremo, relator num inquérito agindo de ofício e Presidente do TSE, aprovando com um chapéu providências que ele próprio pedira com outro, prendendo suspeitos e devassando vidas sem a menor cerimônia. E sempre, é claro, em total sintonia e comunicação com a Polícia Federal.

 

O poder absoluto corrompe absolutamente. Moraes foi longe demais no uso de seus poderes. O inquérito das fake news foi finalmente tirado das de suas mãos e provavelmente será enterrado. Caso Moraes e seus partidários no Supremo consigam protelar e anular a investigação, contudo, ele será presidente do Supremo no ano que vem. Estará na posição, inclusive, de criar novos inquéritos de ofício para investigar graves ameaças à democracia, como a revelação de fotos suas em jatinhos. Como ele próprio diz, o 8 de janeiro não se encerrou…

 

A discussão sobre os erros e acertos dos julgamentos da trama golpista seguirá dividindo o país. Não há nada no caso Moraes-Vorcaro que inocente os envolvidos. Isso não impedirá o Supremo Futebol Clube de misturar tudo (Folha, 22/9/26)