Ação dos EUA na Venezuela pressiona diplomacia do Brasil
Governo brasileiro rejeita ação contra Venezuela, mas promove papel negociador.
Itamaraty tem missão de projetar estabilidade regional sem queimar pontes com a Casa Branca. Resposta tímida de China e Rússia coloca governo Lula sob evidência.
A ação militar dos EUA contra Nicolás Maduro deste sábado (3/1) pressiona a diplomacia brasileira num momento definidor da sua reaproximação com o governo do presidente Donald Trump. A intervenção em solo sul‑americano ameaça o plano declarado do Itamaraty de projetar liderança e estabilidade regional, enquanto seus diplomatas cumprem intensa agenda com contrapartes americanas para reverter sanções à economia brasileira.
Por um lado, há o interesse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em preservar a tradicional defesa brasileira do pragmatismo e soberania nacional. Por outro, o Planalto evita queimar pontes com a Casa Branca, da qual obteve vitórias contra o tarifaço no ano passado.
Agora, o Brasil poderá ter que negociar questões de segurança regional, como narcotráfico e migração, caso se confirme uma nova influência dos EUA sobre a política doméstica venezuelana. O dilema desafia a antiga defesa de Lula por uma política externa ancorada na autonomia regional, em contraposição ao alinhamento automático às grandes potências.
Ao abrir seu terceiro mandato, o petista anunciou que o Brasil havia retornado ao centro das negociações internacionais. Mas a campanha de Trump na América Latina tensiona o já limitado espaço de influência brasileiro.
"A posição brasileira fica em uma situação bastante delicada," afirma Vinicius Teixeira, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e Doutor em Geopolítica, Defesa e Geografia Econômica. "A ação dos EUA mostra que o Brasil não conseguiu, a partir do diálogo, exercer a sua posição de negociador, como sempre defende. Não demoveu os Estados Unidos da intenção de ataque à Venezuela."
Sem escalada retórica
Para especialistas ouvidos pela DW, o Brasil repetirá sua postura imediata de condenar a violação da legislação internacional e enfatizar o risco de instabilidade para a região, mas sem promover uma escalada retórica que possa irritar os EUA ou personalizar a defesa de Maduro.
Como líder regional, o objetivo do Brasil será garantir um canal funcional com Washington para gerir efeitos colaterais na região, tema que deve entrar na pauta da eleição presidencial brasileira deste ano. O temor do governo é que os EUA ampliem sua postura intervencionista para outros países.
"A Casa Branca explicitou a intenção de reconstituir uma esfera de influência no hemisfério. Se os EUA partem do pressuposto de que 'podem agir' porque ninguém escalará para contê-los, o custo para o Brasil de um confronto direto com Washington sobe", diz Bruna Santos, diretora do Programa Brasil do think tank Inter-American Dialogue.
"A diplomacia brasileira precisa, portanto, separar com precisão duas camadas: defesa de princípios da Carta da ONU e gestão pragmática do relacionamento com os EUA. O foco deve migrar de 'defesa do governo' para 'defesa de regras' e mitigação de danos regionais", continua Santos.

Narcotráfico e migração podem entrar na pauta de discussão entre Brasil e EUA, dizem especialistas. Foto: Javier Campos/dpa/picture aliance
Brasil cita "precedente perigoso"
Na resposta do governo brasileiro, divulgada pelo perfil de Lula nas redes sociais, o presidente apontou que o ataque dos EUA ultrapassa uma "linha inaceitável", afronta de forma grave a soberania venezuelana e representa "precedente perigoso". Sem citar Trump ou Maduro, argumentou que a ação "ameaça a preservação da região como zona de paz".
Poucas horas após a prisão de Maduro, o texto foi calculado na esteira de uma reunião com representantes do Ministério da Defesa. O tom orientou ainda o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em uma reunião emergencial convocada pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) neste domingo, que terminou sem acordo entre os 33 membros.
No mesmo dia, um comunicado conjunto de Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai rechaçou "qualquer intenção de controle" sobre a Venezuela.
Ao ser ouvido na cúpula, porém, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, exigiu uma postura mais dura. "Calar-se diante dessa agressão equivale a endossá-la. A Celac não pode hesitar. Não pode se dividir entre condenações tímidas e silêncios cúmplices," afirmou.
Tradição na diplomacia brasileira
Apesar do protesto, é de se esperar que o Brasil mantenha a postura menos incisiva caso se manifeste no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Uma reunião convocada pela Colômbia está prevista para segunda-feira (05/01).
"Desde a primeira manifestação do presidente, se observa uma defesa clara da soberania dos países latino-americanos e sul-americanos. Essa retórica tende a ser fortemente defendida pelo Itamaraty," pontua Priscila Caneparo, doutora em Direito Internacional e professora do Unicuritiba.
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o pronunciamento de Lula é comedido. "Não houve ataque direto aos Estados Unidos, e entendo que Washington espera exatamente isso do Brasil: que não haja uma crítica excessivamente dura", avalia.
"Esse é um pressuposto histórico da diplomacia brasileira, e não seria diferente agora. Os Estados Unidos também têm consciência de que um conflito dessa natureza pode gerar pressão nas fronteiras do Brasil, além de possíveis crises sanitárias e humanitárias."
O Brasil disse no sábado, horas depois da captura de Maduro, que já se preparava para um possível aumento do fluxo de refugiados venezuelanos.
Pressão sobre a região
Enquanto isso, os aliados China e Rússia não se prontificaram a proteger a Venezuela, restringindo-se a reações no âmbito das Nações Unidas. A resposta tímida contrasta com a atualização da Doutrina Monroe sob Trump, que quer retomar a influência na América Latina, num gesto de antagonização com rivais.
"Sem patrocínio efetivo de grandes potências, a dissuasão contra Washington no Caribe é mínima. Isso reduz o espaço de barganha da Venezuela e deixa o Brasil como vizinho relevante, porém sem a alavanca clássica de 'equilíbrio entre polos'", afirma Bruna Santos, do Inter-American Dialogue.
Ao anunciar a prisão de Maduro, Trump não escondeu seu interesse no petróleo venezuelano e sinalizou que voltará a se posicionar sobre Cuba e Colômbia.
Para Priscila Caneparo, a intenção da Casa Branca é gerar um temor generalizado de intervenção na região. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, isso também preocupa Lula, que vê risco de maior instabilidade na fala do republicano.

A vice de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez, se tornou presidente interina da Venezuela após operação dos EUA. Foto: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters
Washington à mesa de negociações?
Trump indicou, sem oferecer detalhes, que os EUA "administrarão" a Venezuela, o que poderia significar que Washington se sentaria à mesa de negociações entre Brasília e Caracas para alinhamento de questões fronteiriças e regionais.
Elas incluem, por exemplo, ameaças não tradicionais, que seriam neste cenário tratadas como um problema militar para os EUA, a exemplo do narcotráfico e da migração.
"Brasília precisa de canais operacionais com Washington para migração na fronteira norte, crime organizado transnacional, energia e comércio. Isso empurra a redação de qualquer nota oficial para um léxico jurídico e procedimental", entende Santos.
Com Rússia e China fora do tabuleiro operacional, o Brasil deverá se ater a iniciativas para coordenação humanitária e de fronteira, propor verificação independente das alegações que embasaram a operação contra Maduro e oferecer sede para conversas entre atores venezuelanos e agentes externos, continua a especialista.
"Tudo isso preserva o princípio de não intervenção e ao mesmo tempo sinaliza a Washington que o Brasil quer evitar uma espiral de instabilidade continental," completa.
Disputa eleitoral
Outra pressão sobre o governo Lula deverá vir também do ambiente doméstico. Opositores já trazem as interações entre o chavismo e o petismo para a disputa eleitoral brasileira de 2026.
O presidente disputará a reeleição com o objetivo de não isolar o Brasil em meio a uma América Latina cada vez mais à direita.
Pré-candidatos não perderam tempo em usar a crise venezuelana para provocar Lula por sua relação passada com Maduro. Em entrevista ao Estadão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, por exemplo, criticou a manifestação brasileira contrária à ação americana. Segundo ele, o Brasil perdeu a oportunidade de ajudar a Venezuela a embarcar numa transição democrática.
"As aproximações ou distanciamentos em relação aos Estados Unidos, bem como o discurso de Trump sobre o governo brasileiro e a oposição, podem ter impactos eleitorais significativos," completa Vinicius Teixeira, da Unemat (DW, 4/1/25)
Quem assume o poder na Venezuela após queda de Maduro?

Protesto em Nova York contra intervenção dos EUA na Venezuela. Foto Neil Constantine-NurPhoto-picture alliance
Vice-presidente assume como interina, e alto escalão do governo mantém funções. Enquanto EUA ignoram oposição, venezuelanos tentam entender quem de fato comanda em meio ao caos.
As forças militares da Venezuela reconheceram neste domingo (4/1) Delcy Rodríguez, a vice-presidente de Nicolás Maduro, como presidente interina, depois que a Suprema Corte do país sul-americano ordenou que ela assumisse o cargo. Mesmo assim, os venezuelanos ainda não sabem com certeza quem de fato comanda o país, na esteira da captura de Maduro e da sua esposa, Cilia Flores, pelas Forças Armadas dos Estados Unidos.
Tampouco se sabe qual será o novo formato de engajamento dos EUA na política doméstica. A Casa Branca, por ora, não ofereceu clareza nem consistência sobre os seus planos.
A investida americana na Venezuela destituiu no sábado Maduro da presidência, levando-o algemado para Nova York. Ao longo de quase 13 anos no poder, ele sobrevivera a uma tentativa de golpe fracassada, vários motins no Exército, protestos em massa e sanções econômicas.
Algumas horas após a ação militar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que seu país assumiria o controle da Venezuela. No dia seguinte, entretanto, o seu secretário de Estado, Marco Rubio, acenou a uma versão mais branda, afirmando em entrevista que o controle americano se daria pela manutenção de sanções já existentes, na expectativa de ver mudanças na indústria do petróleo.
Em Caracas, a sensação de insegurança esvaziou rapidamente as ruas, exceto pelas longas filas que se formavam em supermercados e postos de gasolina. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, orientou a população a retomar as "atividades de todos os tipos", afirmando que o Exército está mobilizado ao redor do país.
Eleições são "discussão prematura"
Delcy Rodríguez, a primeira na linha de sucessão, atuou como vice-presidente de Maduro desde 2018, supervisionando grande parte da economia venezuelana dependente do petróleo, bem como seu temido serviço de inteligência.
No primeiro governo Trump, ela enfrentou sanções dos EUA por seu papel em minar a democracia venezuelana.
"Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", Trump disse à The Atlantic, numa breve entrevista por telefone deste domingo.

Supremo Tribunal da Venezuela ordenou que Delcy Rodríguez, vice de Maduro, assumisse como presidente interina. Foto Pedro Mattey-AFP
O presidente relatou que Rodríguez teve uma longa conversa com Rubio, na qual ela disse que faria "o que for preciso" pelo país.
O secretário de Estado chamaria de "prematura" a discussão sobre novas eleições na Venezuela. Segundo ele, o foco agora está nos "problemas que tínhamos quando Maduro estava lá".
"A realidade imediata é que, lamentavelmente, a grande maioria da oposição já não está presente na Venezuela. Temos assuntos de curto prazo que devem ser abordados de imediato", disse o secretário de Estado à NBC News.
A Constituição venezuelana prevê que uma nova eleição deve ser convocada dentro de um mês em caso de ausência do presidente. Mas especialistas têm debatido se o cenário de sucessão se aplicaria nesse caso, dada a falta de legitimidade popular do governo e a excepcionalidade da intervenção militar dos EUA.
Altos funcionários mantidos
Os funcionários do alto escalão do governo venezuelano aparentemente sobreviveram à operação militar americana e mantiveram seus cargos, pelo menos por ora. Não há ainda sinal de que os EUA governem a Venezuela.
Delcy Rodríguez tentou projetar força e unidade entre as muitas facções do partido governista, minimizando qualquer indício de traição ao regime chavista.
Em declarações na televisão estatal antes da decisão judicial que a levou à Presidência interina, ela exigiu a libertação imediata de Maduro e da primeira-dama, denunciando a operação dos EUA como uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas.
"Só existe um presidente neste país, e seu nome é Nicolás Maduro", disse Rodríguez, cercada por altos funcionários civis e comandantes militares. "A história e a justiça farão com que os extremistas que promoveram essa agressão armada paguem (por seus atos)."
"Não nos derrotarão"
No intuito de acalmar a população, autoridades militares venezuelanas divulgaram mensagens de vídeo em tons desafiadores, com duras críticas a Trump e promessas de resistir à pressão dos EUA.
"Eles nos atacaram, mas não nos derrotarão", disse Padrino López, em uniforme militar.
Já o ministro do Interior, Diosdado Cabello, braço-direito de Maduro, instou os venezuelanos a "saírem às ruas" para defender a soberania do país. "Esses ratos atacaram e vão se arrepender do que fizeram", afirmou.

Ministro do Interior, Diosdado Cabello, procurados nos EUA por tráfico de drogas e violações dos direitos humanos. Foto Jesus Vargas dpa-picture aliance
Alguns atenderam ao apelo e compareceram a manifestações em apoio ao governo dispersas por Caracas neste sábado. No entanto, a maioria das pessoas permaneceu em casa.
Fortes laços com Wall Street
Advogada formada no Reino Unido e na França, Rodríguez tem uma longa trajetória representando internacionalmente a revolução iniciada pelo falecido líder Hugo Chávez.
Fluente em inglês, Rodríguez é às vezes retratada como uma moderada bem-educada e favorável ao mercado, em contraste com os militares linha-dura que pegaram em armas ao lado de Chávez contra o presidente democraticamente eleito da Venezuela na década de 1990.
Ela e seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional controlada por Maduro, possuem credenciais de esquerda cujas origens remetem a uma tragédia. Seu pai foi um líder socialista que morreu sob custódia da polícia na década de 1970, crime que abalou ativistas da época, incluindo o jovem Maduro.
Ao contrário de muitos no círculo íntimo de Maduro, os irmãos Rodríguez não foram alvos de acusações criminais nos EUA.
Delcy Rodríguez desenvolveu fortes laços com membros do Partido Republicano de Trump na indústria petrolífera e em Wall Street que se opunham à ideia de uma mudança de regime liderada pelos EUA.
Entre seus interlocutores anteriores estavam Erik Prince, fundador da empresa militar privada Blackwater, e, mais recentemente, Richard Grenell, o enviado especial de Trump que tentou negociar um acordo com Maduro para aumentar a influência dos EUA na Venezuela.
Tensões internas podem explodir
Muitos militares próximos a Maduro, especialmente Cabello, são procurados nos EUA por acusações de tráfico de drogas e de graves violações dos direitos humanos. Eles, no entanto, continuam a exercer influência sobre as Forças Armadas, o tradicional árbitro das disputas políticas na Venezuela.
Esse quadro impõe grandes desafios para que Rodríguez possa afirmar sua autoridade. Alguns analistas, porém, disseram esperar que os líderes políticos da Venezuela se unam, como já fizeram antes.

María Corina Machado diz que oposição está pronta para assumir, mas Trump discorda Foto Odd Andersen-AFP
"Os líderes já perceberam o valor de permanecerem unidos. Cabello sempre ocupou um segundo ou terceiro lugar, sabendo que seu destino está ligado ao de Maduro, e agora ele pode muito bem fazer isso novamente", disse David Smilde, professor de sociologia da Universidade de Tulane, que há três décadas estuda a dinâmica política da Venezuela.
Muito dependerá do estado das Forças Armadas da Venezuela após o bombardeio americano, acrescentou Smilde. "Se elas não tiverem mais tanto poder de fogo, ficarão mais vulneráveis e enfraquecidas."
EUA ignoram oposição
Segundo afirmou Trump, a líder da oposição, María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz no ano passado, não tem apoio suficiente para governar o país. A declaração foi vista por muitos como um gesto de desprezo à oposicionista.
Machado defendeu que Edmundo González Urrutia, o candidato da oposição considerado o vencedor das contestadas eleições de 2024, "assuma imediatamente seu mandato constitucional e seja reconhecido como comandante-em-chefe".
Em declaração divulgada nas redes sociais, ela prometeu que seu movimento "restabeleceria a ordem, libertaria os presos políticos, construiria um país excepcional e traria nossos filhos de volta para casa". "Hoje estamos preparados para exercer nosso mandato e tomar o poder", acrescentou.
Trump, porém, pareceu jogar um balde de água fria nesses planos. "Acho que seria muito difícil para [Machado] ser a líder", afirmou, surpreendendo muitos venezuelanos que esperavam que ele anunciasse uma rápida transição democrática (DW, 4/1/25)
Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026

Presidente americano confirmou bombardeios e prisão de Maduro em sua rede social; ditadura chavista decreta estado de emergência por ‘ofensiva imperialista’. Foto APVideoHub
Por Eliane Catanhêde
Presidente dos EUA invadiu a Venezuela pelo petróleo e agirá nas eleições brasileiras por terras raras.
O ataque à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro soterram a era chavista no País e abrem uma nova fase de Donald Trump contra o multilateralismo e suas instituições mundo afora. Depois de detonar o sistema internacional de comércio com o tarifaço, ele agora quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras.
Hugo Chávez evoluiu do oficial golpista de 1992 para o líder populista que assumiu o poder na Venezuela em 1999, embolando nacionalismo, militarismo, antiamericanismo e pitadas de messianismo, numa síntese de “Como as Democracias Morrem”, na imprescindível obra de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
Em vez de balas e canhões, Chávez deu um golpe branco unindo a esquerda aos militares e manipulando a massa em torno de um nacionalismo histérico. Dominou o Congresso, o Judiciário, a mídia e queria se eternizar, não fosse o câncer que o matou em 2013. Como todo autocrata populista, não preparou sucessor. Veio Maduro, um tosco que reúne todos os defeitos e nenhuma das qualidades de Chávez. A inteligência, por exemplo.

Donald Trump quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras Foto: Carolyn Van Houten/The Washington Post
A Trump, porém, não interessam democracia e direitos humanos, nem mesmo narcotráfico. A invasão teve um único motivo: petróleo. A Venezuela tem quase 20% das reservas conhecidas no mundo, mais de 300 bilhões de barris, em meio a uma crise política, econômica e social sem fim. Foi fácil para Trump planejar, anunciar e executar o ataque.
Enquanto isso, se arvorava de mediador nas guerras da Ucrânia e de Gaza. Aliás, Trump agiu na Venezuela como Putin na Ucrânia, fora da regra internacional que só permite invasões em duas circunstâncias: autodefesa ou autorização do Conselho de Segurança da ONU – já ignoradas pelos EUA no Iraque.
O presidente Lula classificou os ataques como “inaceitáveis”, mas são também preocupantes para toda a América Latina, particularmente a do Sul. Se Trump invadiu a Venezuela e depôs seu presidente, o que poderá fazer no resto do continente?
Trump já tem aliados, como Argentina e Paraguai, e a direita comanda seis dos 12 países neste ano. E qual é o maior, mais rico e... dono da segunda maior reserva de terras raras do mundo? O Brasil. Trump invadiu a Venezuela pelo petróleo e recuou no tarifaço do Brasil de olho nos minerais críticos, com Jair Bolsonaro virando passado. Mas em 2026 tem eleição, com Lula favorito.
Não se espere uma invasão, porque o Brasil não é uma Venezuela falida, mas quem faz intervenção militar num país não terá pruridos para fazer ingerência política nos demais, em especial nesses tempos de internet e deepfakes. Tio Sam está de volta! (Estadão, 4/1/26)
Intervenção americana na Venezuela está mais parecida com desastre do Iraque
- Invasão do Panamá em 1989, com a prisão do presidente Manuel Noriega, foi sucesso
- Trump capturou Maduro e anunciou que EUA governarão Venezuela até a formação de um novo governo
Por Elio Gaspari
Donald Trump bombardeou Caracas, capturou Nicolás Maduro e anunciou que os Estados Unidos governarão a Venezuela até a formação de um novo governo. Ou seja, meterão a mão no petróleo do país.
Nos últimos 50 anos, os Estados Unidos controlaram o governo do Vietnã do Sul, invadiram o Iraque, enforcaram Saddam Hussein e nomearam um vice-rei americano. Deu tudo errado. O mesmo aconteceu no Afeganistão.
Contudo nem tudo foram derrotas. A invasão do Panamá em 1989, com a prisão do presidente Manuel Noriega. Ele passou por prisões americanas, francesas e panamenhas até sua morte, em 2013.
A intervenção americana na Venezuela está mais parecida com o desastre do Iraque do que com o sucesso do Panamá (Folha, 4/1/26)

