09/02/2026

Açúcar pune distraídos – Por Arnaldo Luiz Corrêa

Açúcar pune distraídos – Por Arnaldo Luiz Corrêa

Este é o primeiro comentário do ano e confesso que a sensação é de déjà-vu: janeiro passou e, no mercado de açúcar, a grande novidade foi… a ausência de novidades. Desde o último comentário, em 19 de dezembro, até esta sexta-feira, Nova Iorque recuou de 14.82 para 14.41 centavos de dólar por libra-peso — algo como US$ 9 por tonelada. No caminho, porém, o mercado fez questão de nos lembrar que continua vivo, oscilando entre a mínima de 14.13 e a máxima de 15.34 centavos.

 

Coço a cabeça (já com certa insistência) tentando entender o que leva os fundos a carregarem uma posição vendida da ordem de 180 mil lotes faltando apenas uma semana para a expiração das opções, em um mercado que opera em leve carrego. É mais um daqueles episódios que vêm se acumulando nos últimos meses e que desafiam a lógica tradicional. E não é o único.

 

Outro exemplo curioso: nunca, neste século, o menor preço médio mensal do açúcar em Nova Iorque havia ocorrido em novembro. Mais curioso ainda é que, em toda a série histórica, isso só aconteceu três vezes no último trimestre do ano. Coincidência? Talvez. Mas, no mínimo, é algo fora do padrão.

 

Enquanto isso, a safra 25/26 segue crescendo — literalmente. As estimativas que giravam em torno de 595 milhões de toneladas já ultrapassaram 605 milhões e começam a flertar com 610 milhões. Parte desse movimento escapou do radar do mercado: expansão de área e ganhos de produtividade agrícola que surpreenderam até os mais otimistas. No fim das contas, o mercado apenas nos relembra uma velha lição: cada safra é uma safra — e, aparentemente, cada ano também.

 

2026 começou cercado de incógnitas — e, como de costume, quem toma decisão é quem menos dorme. Com um custo caixa de produção ao redor de R$ 1,748 por tonelada PVU (posto veículo usina), o que equivale, em Nova Iorque, a aproximadamente 17.25 centavos de dólar por libra-peso, a matemática simplesmente se recusa a colaborar. Não há malabarismo que feche essa conta.

 

Um executivo de uma usina da região de Ribeirão Preto, visivelmente pouco entusiasmado, foi direto ao ponto: não acredita que o mercado internacional consiga sustentar preços próximos de 16 centavos de dólar por libra-peso. É um desabafo que ecoa em boa parte do setor.

 

E aí vem a pergunta inevitável: qual mix utilizar? Objetivamente, tudo aponta para um mix mais alcooleiro, algo em torno de 51%. Ainda é cedo para cravar números definitivos para a safra do Centro-Sul, mas o consenso gira em torno de 620 milhões de toneladas de cana — número que, nesta altura do campeonato, muda pouco o humor do mercado. A combinação de petróleo em queda com o real valorizado frente ao dólar pressiona o preço de importação da gasolina, atinge o etanol e, por tabela, ricocheteia no açúcar. O efeito dominó está montado.

 

Se o executivo macambúzio estiver correto — isto é, se os preços em Nova Iorque permanecerem abaixo de 16 centavos de dólar por libra-peso ao longo de 2026 — podem escrever na pedra: a safra 2027/28 será problemática, para dizer o mínimo. O roteiro guarda uma semelhança desconfortável com o que vimos em 3 de maio de 1999, quando o açúcar atingiu os impensáveis 4.36 centavos de dólar por libra-peso.

 

Naquela época, as usinas cortaram renovação de canaviais e gastos em fertilizantes, apenas para assistir à produção do Centro-Sul encolher 22,2% na safra 2000/01 — enquanto os preços disparavam 162% em apenas 18 meses.

 

A história não se repete, mas insiste em rimar. E o mercado de açúcar, como sempre, adora uma rima amarga.

À época daquele episódio, a participação brasileira no trading flow mundial era aproximadamente metade do que é hoje. Isso torna o cenário atual ainda mais sensível: uma eventual redução da safra 2027/28, provocada por preços deprimidos do açúcar ao longo de 2026, tende a enxugar a oferta global de forma relevante. A reação dos preços, nesse caso, pode ser tudo — menos discreta.

 

Pelo modelo da Archer Consulting, a estimativa de fixação dos açúcares de exportação para a safra 2026/27, com base em 31 de janeiro, alcança 13 milhões de toneladas. Considerando uma exportação total estimada em 34 milhões de toneladas, isso equivale a 38.24% da safra. Um número expressivamente inferior aos 72.50% observados em janeiro do ano passado, quando falávamos da safra 2025/26. A pergunta, naturalmente, é: o que explica essa queda tão acentuada?

 

A resposta passa, em boa medida, pela memória recente. O início da safra passada foi marcado por uma forte queda da ATR, que despencou na primeira quinzena de julho até 9.61 quilos por tonelada. Isso levou muitos — inclusive este escriba — a acreditar que a produção dificilmente ultrapassaria 590 milhões de toneladas. Diante dessa leitura, as usinas postergaram fixações na expectativa de preços melhores, sustentados por uma eventual quebra de safra. O problema é que essa quebra não veio.

 

Além disso, parte relevante das usinas optou por rolar fixações para vencimentos mais longos, criando um volume em aberto bem maior do que o mercado supunha. O episódio de três semanas atrás ilustra bem esse ponto: quando os fundos recompraram cerca de 21 mil lotes, o mercado avançou apenas 11 pontos. Um movimento tímido, que sugere que usinas atrasadas acabaram “jogando a toalha”, fixando suas vendas, oferecendo liquidez aos fundos e, de quebra, limitando qualquer tentativa mais ousada de alta.

 

O fato é que ainda paira sobre o setor uma coleção respeitável de indefinições. Aos poucos, elas tendem a se dissipar, trazendo mais clareza sobre os próximos passos. Até lá, seguimos em um compasso de espera — daqueles que não machucam, mas cansam.

 

Nosso colaborador Marcelo Moreira observa que “desde o dia 29 de dez-25 o vencimento março-26 caiu -7,5% saindo dos 15.29 centavos de dólar por libra-peso para 14.14 centavos de dólar por libra-peso. No mesmo período o R$ valorizou praticamente 7% saindo dos 5,6000 para 5,2000. No curto prazo o vencimento março-26 precisa superar os 14.30/14.81 centavos de dólar por libra-peso.

 

E, para retomar eventual tendência de alta, a média-móvel dos 100 dias @ 15.32 centavos de dólar por libra-peso. O vencimento outubro-26 praticamente acompanhou o movimento do março-26 no mesmo período, saindo dos 15.20 centavos de dólar por libra-peso para 14.07 centavos de dólar por libra-peso. Para retomar tendencia de alta precisa superar as resistências 14.24/14.72/14.90 centavos de dólar por libra-peso!

 

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