Agropecuária compensa desaceleração de componente cíclica do PIB
Imagem Reprodução Blog Comex do Brasil
Por Fernando Dantas
Diante do arrefecimento do consumo e do investimento doméstico, o crescimento do PIB em 2025 tornou-se profundamente dependente de componentes exógenos, como agro e petróleo.
O desempenho da economia brasileira em 2025 foi marcado por forte desaceleração da componente cíclica do PIB - aquela que reage mais diretamente à política monetária. Esse segmento, que havia registrado uma expansão de 4,5% em 2024, viu seu ritmo cair para apenas 1,5% em 2025. O movimento sinaliza que o aperto monetário conduzido pelo Banco Central cumpriu seu papel de desaquecer a demanda interna, somando-se a uma postura fiscal que variou entre a neutralidade e uma leve contração, dependendo da métrica utilizada.
Diante do arrefecimento do consumo e do investimento doméstico, o crescimento do PIB em 2025 tornou-se profundamente dependente de componentes exógenos. Trata-se de setores cujas dinâmicas dependem menos das taxas de juros locais e mais de fatores climáticos e da demanda externa, como a agropecuária e a indústria extrativa mineral (impulsionada pelo petróleo).
A agropecuária, isoladamente, saltou expressivos 11,7% em 2025. Contudo, olhar apenas para a porteira da fazenda pode ser redutor. Como destaca Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, o peso direto do setor no PIB (7,1%) não traduz sua real influência. Ao considerar o agronegócio como um todo - englobando a indústria alimentícia, o comércio de insumos e a vasta rede de serviços e logística voltada à exportação -, o complexo responde por aproximadamente 25% da economia nacional.
Mesmo que o agronegócio expandido não tenha acompanhado o ritmo frenético da produção primária, ele foi o pilar que sustentou o crescimento de 2,3% do PIB total no ano passado.
Apesar do crescimento de 2,3% do PIB em 2025, a expansão na margem está quase parada há três trimestres. Os dados mostram um PIB "andando de lado" nesse período, com variações dessazonalizadas ante o trimestre anterior de 0,3%, 0,0% e 0,1% no segundo, terceiro e quarto trimestres do ano passado, respectivamente.
Essa estagnação, entretanto, criou um efeito de base deprimida que pode facilitar uma surpresa estatística no início de 2026. Segundo Rocha, se o primeiro trimestre apresentar um crescimento de 1,8% em relação ao mesmo período de 2025, a variação dessazonalizada contra o trimestre imediatamente anterior poderá se aproximar de 1%, interrompendo a sequência de inércia.
As perspectivas para o novo ano estão ancoradas na reanimação econômica típica de anos eleitorais. O gestor da JGP vê uma política fiscal mais expansionista, menos por uma questão de volumes e mais pela composição. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil (e redução até R$ 7 mil) deve injetar algo entre20 bilhões e R$ 25 bilhões na economia. Por ser direcionado a faixas de renda com maior propensão marginal a consumir, esse recurso tende a retornar quase integralmente ao comércio e serviços, estimulando o PIB de forma mais eficaz.
Complementando o estímulo fiscal, o cenário aponta para uma aceleração do crédito direcionado e do consignado privado. Para maximizar o impacto político e econômico, o governo pode antecipar o cronograma de pagamentos de emendas e precatórios, concentrando a injeção de recursos no primeiro semestre para contornar as restrições da legislação eleitoral. O desafio, portanto, será converter essa injeção de curto prazo em crescimento sustentável sem pressionar a inflação (Estadão, 6/3/26)

