04/03/2026

Alcolumbre, Lulinha e o “ops!” do destino – Por Paula Sousa

Alcolumbre, Lulinha e o “ops!” do destino – Por Paula Sousa

Imagem Reprodução Blog Correio Braziliense

Quem diria que a política brasileira, essa grande produtora de entretenimento de baixo orçamento, nos daria um capítulo tão delicioso? A notícia que fez o dia de muita gente é que o senador Davi Alcolumbre (União/AP), num momento de rara (ou talvez estratégica) coerência, decidiu manter a quebra de sigilo do ilustre Lulinha na CPMI do INSS.

 

Para quem perdeu o fio da meada: a base do governo, distraída como quem esquece o arroz no fogo, deixou a oposição aprovar a quebra de sigilo em bloco. Enquanto o Planalto tentava contar quantos dedos tinha na mão (eram apenas 14 governistas contra 31 votantes), a porteira abriu. O resultado? O sigilo do filho do presidente — e de uma turma que orbita o poder — foi para o espaço.

 

Todo mundo sabia que existia um pacto de cavalheiros. O Alcolumbre e o Lula tinham um "acordo de proteção": o irmão do Lula, o Frei Chico, já tinha sido blindado, e a intenção era manter o Lulinha na redoma de vidro. Mas, na política, acordos duram tanto quanto picolé no calor do deserto.

 

Por que o Alcolumbre decidiu chutar o balde? Há quem diga que é o troco pelo imbróglio envolvendo o STF, onde o Lula prometeu uma vaga para o Pacheco e, na hora H, a coisa desandou para o lado do Jorge Messias, que, coitado, sumiu do mapa. Seja por vingança, seja por desentendimento, o fato é que o Alcolumbre, que não joga para perder, decidiu que o "protegido" não estava mais protegido.

 

O Lulinha, sentindo o calor do momento, já está preparando o roteiro de defesa. O discurso? O de sempre: "Usaram meu nome indevidamente". Segundo ele, a lobista Roberta Luchsinger e seus sócios estariam brincando de ser ele, fazendo negociatas com o tal "Careca do INSS" sem que ele soubesse de nada.

 

Pense comigo: é incrível como essas pessoas importantes nunca sabem de nada, né? O nome delas é usado, o dinheiro gira, as portas se abrem, mas elas são as únicas que não estavam sabendo. Deve ser um fenômeno físico, uma espécie de "biolocalização" onde o CPF do Lulinha opera em um plano astral diferente do seu corpo físico.

 

A estratégia do filho do presidente de jogar a batata quente na Roberta Luchsinger e nos sócios é uma aposta, no mínimo, arriscada. Afinal, se a conta chegou, por que não escolher quem vai pagar o pato, não é mesmo? Só que, ao tentar se salvar, ele acaba empurrando os aliados direto para o precipício. E, quando um comparsa percebe que vai sobrar sozinho para proteger o 'príncipe', a delação premiada começa a parecer muito mais atraente do que o silêncio.

 

Estamos falando de uma devassa nas contas. Não é só ver o saldo; é entender cada centavo que entrou e saiu. Se o dinheiro não estava na conta dele — o que é bem possível, afinal, esposa e laranja existem para isso, né? — os investigadores vão começar a olhar para o lado. E, convenhamos, o STF e esse cenário político atual estão tão previsíveis quanto uma novela das oito.

 

O pessoal do governo, claro, ainda pode tentar recorrer ao STF. Se cair na mão do André Mendonça, a tendência é manter. Mas, como aprendemos com o "estilo Gilmar Mendes" de resolver as coisas — aquele truque de puxar processos arquivados para si —, não podemos descartar manobras dignas de mágica.

 

No final das contas, o que vemos é um espetáculo de podridão onde a lei é um acessório opcional. Mas, hoje, pelo menos, Alcolumbre nos deu um presente: a oportunidade de ver se o Lulinha consegue explicar o inexplicável. A CPMI do INSS prometeu ser um circo, mas, de vez em quando, o espetáculo fica bom demais para ignorar. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 4/3/2026)