27/04/2026

Antagonizar Trump convém a Lula – Editorial Folha de S.Paulo

Antagonizar Trump convém a Lula – Editorial Folha de S.Paulo

Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante encontro bilateral em Kuala Lumpur (Malásia) - Andrew Caballero-Reynolds - 26.out.25/AFP

 

  • Petista, que já se beneficiou da oposição ao tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã
  • Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do americano

 

O antiamericanismo, amparado em momentos da história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.

 

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um aliado próximo.

 

Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.

 

A iminência da condenação do ex-presidente em 2025 motivou uma operação do seu clã que logrou sucesso inicial em fazer Trump dirigir as baterias de sua guerra tarifária para o Brasil, além de punir adversários como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

 

Lula aproveitou a oportunidade para colar nos rivais a pecha de traidores —e viu sua avaliação melhorar. Obteve ainda uma aproximação com Trump que deu resultados, livrando Moraes da temida Lei Magnitsky e reduzindo o escopo do tarifaço.

 

Mas, desde março, com a campanha pela reeleição na rua, o discurso mudou. Lula acumula pronunciamentos e entrevistas em que critica Trump, além de incidentes como a negativa ao visto de um emissário da Casa Branca que visitaria Bolsonaro na prisão, ingerência indevida.

 

Nesta semana, um delegado brasileiro foi expulso dos EUA, o que levou a retaliação correspondente. Washington ainda sinalizou medidas para compensar danos pouco claros a empresas americanas devido ao Pix.

 

Ironicamente, o meio de pagamento instantâneo foi lançado sob Bolsonaro, mas isso importa pouco. Lula não perdeu a chance de prometer que estrangeiro nenhum mexerá no instrumento. Ademais, não passa semana sem criticar a captura do antigo aliado venezuelano Nicolás Maduro e a guerra contra o Irã.

 

O petista se baseia em números: segundo o Datafolha, 70% dos eleitores são contrários ao conflito, 92% acham que ele eleva o preço dos alimentos, e 75%, que afetará a eleição. Os índices são menores entre os bolsonaristas, como seria esperado, mas igualmente altos entre eleitores neutros a serem conquistados.

 

Há algum risco na estratégia de Lula —apesar de focado no Irã, o instável líder americano pode achar que é hora de punir o Brasil; embora a Justiça dos EUA tenha travado seus canhões tarifários, há outras sanções possíveis, e desta vez não será possível jogar a culpa nos adversários. É incerto, ademais, se haverá ganho direto de popularidade desta vez.

 

De todo modo, há lógica em demarcar a diferença em relação ao principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), frequentador de eventos trumpistas. O senador fluminense, que faz tentativa inglória de se apresentar como moderado, dificilmente se dissociará das trapalhadas do americano (Folha, 25/4/26)