12/03/2026

Até gente do governo americano acha que preço do petróleo ainda vai longe

Até gente do governo americano acha que preço do petróleo ainda vai longe

Miniatura de barris à frente de uma de uma bomba de extração de petróleo. Imagem Dado Ruvic Reuters

 

Por Vinicius Torres Freire

 

  • Agência de estatísticas e estudos de energia dos EUA prevê petróleo em US$ 95 até maio
  • Antes da guerra, barril custava US$ 72; juros sobem, receio de inflação também

 

O preço do barril do petróleo do tipo Brent deve ficar em US$ 95 mais ou menos até maio. É a previsão da agência de estatísticas e estudos de energia do governo dos Estados Unidos, a EIA ("Energy Information Administration"). Estimativas de preço de petróleo e gás são tão ruins quanto os chutes informados sobre taxa de câmbio. Em tempos de guerra, pior ainda. Mas o cheiro de queimado fica mais forte com as estimativas da EIA, embora o mercado de petróleo esteja mais otimista nas projeções.

 

No começo da noite desta quarta (10), o Brent estava perto de US$ 93. Não bastou a notícia de liberação de até 400 milhões de barris das reservas estratégicas dos 32 países associados da Agência Internacional de Energia. No início da guerra, 28 de fevereiro, o Brent estava na casa dos US$ 72.

 

Para a EIA, o Brent cairia para a média de US$ 80 no terceiro trimestre e para US$ 70 no final do ano. Antes da guerra, a agência previa que o preço médio neste ano ficaria em US$ 58. Agora, prevê US$ 79, alta de 37%.

 

As taxas de juros dos títulos das dívidas de governos europeus aumentam, por temor de inflação ou tumulto econômico. As dos Estados Unidos, aumentaram também, mas menos. Essas taxas são uma referência fundamental para as demais taxas dos mercados de crédito e de capitais.

 

O preço da gasolina comum americana aumentou 20% em média, nas bombas, desde o início da guerra. E o Brasil? O preço dos combustíveis vai depender, claro, da Petrobras e da taxa de câmbio, do preço do dólar. A Petrobras pode esperar para ver como é que fica, por motivos internos da empresa, embora um represamento da alta de custos possa prejudicar a importação de diesel, no caso extremo.

 

Fica a dúvida a respeito do tamanho da pressão política sobre a petroleira quase estatal. Por quanto tempo vai esperar? Vai fazer o reajuste de modo paulatino e cauteloso? Vai usar seu balanço e dinheiro de acionistas (governo inclusive) para subsidiar e distorcer preços? Qual o tamanho do impacto da política da empresa em expectativas de inflação, de projeções de inflação do Banco Central e, pois, no ritmo da queda da Selic?

 

Quanto ao aspecto meramente econômico dessa barbárie toda, a alta do petróleo não é inteiramente ruim para o Brasil. Somos um país petroleiro, tanto que vemos variações relevantes na receita do governo a depender do preço do barril, fora um choro de melhora nas contas externas. Mas tem gente que vai perder, tem gente que vai ganhar mais.

 

A liberação de parte das reservas estratégicas não bastou para conter o preço do barril. Na hora do anúncio oficial da medida, o Brent estava em torno de US$ 87. Então subiu. Seria paliativo provisório, de qualquer modo, a valer não se sabe a partir de quando nem em que ritmo. De qualquer modo, 400 milhões de barris equivalem a uns 20 dias de escoamento médio de petróleo pelo estreito de Hormuz, quase travado pela guerra (embora tenha aumentado o número de navios que passa por ali, em especial com óleo iraniano).

 

A conversa de Donald Trump a respeito do fim da guerra está colando menos. Não há data à vista, não há critério que permita estimativa. Para piorar, mais três navios mercantes foram atacados no Golfo Persa —agora são 14. Há receio de que o Irã consiga lançar minas no mar. Trump disse que destruiu barcos que fariam esse serviço, mas o país dos aiatolás ainda tem barquinhos para lançar explosivos suficientes para fazer um estrago ou disseminar medo. Medo há e se espalha (Folha, 12/3/26)