20/08/2025

Bancos caem na Bolsa e perdem R$ 41 bi em valor de mercado

Bancos caem na Bolsa e perdem R$ 41 bi em valor de mercado

Foto Evaristo As-AFP

 

Decisão do ministro causa incerteza sobre atuação do setor e derruba Bolsa.

 

As ações de bancos brasileiros registraram forte queda nesta terça-feira (19) após o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), sinalizar a possibilidade de punir instituições que aplicarem sanções financeiras contra Alexandre de Moraes, seu colega de corte.

 

A desvalorização puxou o desempenho da Bolsa brasileira, que fechou em queda de 2,10%, a 134.432 pontos. A maior queda do setor bancário foi do Banco do Brasil, que despencou 6,02%, seguido de Santander (-4,87%), BTG (-3,48%), Bradesco (-3,42%) e Itaú (-3,04%). No total, os bancos perderam R$ 41,3 bilhões em valor de mercado nesta terça.

 

Com as perdas, o dólar fechou em alta de 1,23%, cotado a R$ 5,500, no pregão desta terça, enquanto a Bolsa caiu 2,10%, a 134.432 pontos.

 

Dino afirmou na última segunda (18), em uma decisão concedida em ação sobre o rompimento da barragem de Mariana (MG), que ordens judiciais e executivas de governos estrangeiros só têm validade no Brasil se confirmadas pelo Supremo.

 

A eventual punição aos bancos passou a ser considerada no STF após ministros terem uma rodada de conversas com banqueiros sobre as ações do governo Donald Trump contra Moraes e considerarem a resposta insatisfatória.

 

Moraes foi sancionado em julho com o uso da Lei Magnitsky, dispositivo da legislação americana usado para impor sanções econômicas contra indivíduos envolvidos em corrupção ou violações de direitos humanos.

 

Por meio da lei, o governo americano determina o congelamento de qualquer bem ou ativo que a pessoa sancionada tenha nos Estados Unidos e também pode proibir entidades financeiras americanas de fazerem operações em dólares com ela.

 

A medida incluiria o uso das bandeiras de cartões de crédito Mastercard e Visa, por exemplo. Os efeitos para as transações de Moraes em reais no Brasil ainda estão sob análise dos bancos.

 

A avaliação dos ministros do Supremo após a conversa com banqueiros foi a de que nenhum deles garantiu que as sanções financeiras não seriam aplicadas contra o ministro no Brasil, apesar de as restrições impostas até o momento se restringirem às transferências para o exterior.

 

A decisão de Dino gerou ainda mais incerteza no mercado sobre possíveis punições contra bancos que operam no Brasil, impactando o desempenho das ações.

 

Segundo Rodrigo Marcatti economista e CEO da Veedha Investimentos, a situação coloca o setor em uma encruzilhada. "Os bancos, por terem operações no exterior, podem enfrentar diferentes riscos, como o de atender uma ordem do Supremo e lidar com multas que comprometam seus negócios [no mercado internacional]".

 

Para Hulisses Dias, sócio da Beginity Capital e especialista em investimentos, a decisão de Dino gerou apreensão entre investidores ao levantar dúvidas sobre conflitos de jurisdição e sobre o cumprimento de normas internacionais.

 

"Como o cenário ainda é incipiente, é difícil antecipar desdobramentos concretos, mas não se descarta questionamentos sobre a integração das instituições brasileiras ao sistema financeiro global", afirma.

 

Donato Souza, advogado especialista em direito bancário, diz que a medida pode expor as instituições financeiras a sanções. "A reação do mercado era previsível, uma vez que a insegurança jurídica nesse contexto afeta contratos, governança e eleva o custo do capital", afirma.

 

Já Pedro Moreira, sócio da One Investimentos, afirma que os bancos brasileiros se encontram em dúvida sobre seguir a Magnitsky ou a decisão de Dino. "O mercado começa a projetar cenários. [...] Uma escalada na tensão poderia representar a perda de participação de bancos brasileiros no mercado internacional".

 

Segundo ele, com este cenário, os investidores buscam proteção e recorrem a ativos como o dólar. "A valorização da moeda americana reflete essa postura de precaução. Os investidores tendem a buscar refúgio em ativos considerados mais seguros, como o dólar e o ouro", afirma Moreira.

 

Em nota, o Banco do Brasil, responsável por pagar os salários dos ministros do STF —entre eles, de Alexandre de Moraes—, disse "atuar em conformidade à legislação brasileira, às normas dos mais de 20 países onde está presente e aos padrões internacionais que regem o sistema financeiro".

 

A instituição também afirmou estar preparada para lidar com temas complexos e sensíveis que envolvem regulamentações globais.

 

O Bradesco, a Caixa e o BTG disseram que não irão comentar o tema.

 

Investidores também continuam acompanhando os movimentos do Fed (Federal Reserve, o banco central americano). O simpósio de Jackson Hole, que será realizado a partir de quinta-feira (21) e terá um aguardado discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, promete sinalizar as próximas ações do banco central americano.

 

Operadores dizem ser provável um corte na próxima reunião da instituição em setembro, com boa parte das apostas apontando para uma redução de 0,25 ponto percentual e uma pequena porcentagem para 0,5 ponto.

 

A perspectiva de cortes de juros pelo Fed pode favorecer o real devido à percepção de que, com a taxa Selic em patamar alto por tempo prolongado, o diferencial de juros entre Brasil e EUA permanecerá favorável para o lado brasileiro (Folha, 20/8/25)



Ministros do STF recusam proposta de bancos para se livrarem da Lei Magnitsky

Foto Reprodução TV Senado

 

Por Mônica Bergamo

 

Dirigentes de instituições públicas e privadas sugeriram aos magistrados que transferissem recursos para cooperativas de crédito que estão fora do alcance das sanções dos EUA.

 

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foram aconselhados por dirigentes de bancos públicos e privados a abrirem contas em cooperativas de crédito como forma de se proteger de eventuais efeitos da Lei Magnitsky.

 

A sanção norte-americana impede cidadãos atingidos por ela de ter contas bancárias e bloqueia seus bens nos EUA. Pune ainda com multas bilionárias empresas ou instituições financeiras estrangeiras que tenham negócios nos EUA e se relacionem com os sancionados.

 

O único brasileiro atingido pela Magnitsky até agora foi o ministro do STF Alexandre de Moraes. Mas o governo norte-americano tem repetidamente ameaçado estender a punição para outros magistrados que "apoiem" o ministro.

 

Diante da escalada, autoridades do governo brasileiro ligadas à área econômica passaram a se preocupar com punições que o Banco do Brasil (BB) eventualmente possa sofrer por manter abertas contas de Alexandre de Moraes e de demais ministros que venham a ser sancionados.

 

Os magistrados recebem seus salários pelo BB.

 

Por isso, surgiu a ideia de que ministros pudessem transferir seus recursos para contas em cooperativas de crédito que não se relacionam com o sistema financeiro internacional. E que, portanto, não estão expostas a punições por parte de Donald Trump.

 

A ideia foi levada a magistrados por autoridades do governo Lula ligadas à área econômica.

 

Representantes de bancos privados fizeram a mesma sugestão para alguns ministros. A quase totalidade das instituições financeiras privadas brasileiras têm filiais ou negócios nos EUA, captam recursos em dólares e estão conectadas com sistemas internacionais.

 

Os ministros procurados, no entanto, não gostaram da ideia.

 

Apesar de efetivamente resolver o problema particular de cada um deles, magistrados consideraram que seria uma capitulação do STF e do Brasil. Um deles disse à coluna que os bancos precisam ser tirados da zona de conforto e entender que o país não pode se curvar aos EUA.

 

Eles entendem como absurda a possibilidade de um juiz que atua num sistema democrático pleno não poder ter conta em um banco estatal de seu próprio país.

 

decisão do ministro Flávio Dino na segunda (18) afirmando que leis estrangeiras não são válidas no Brasil foi um recado claro para os bancos de que o STF não deve aceitar caminhos alternativos aos que considera legais e soberanos.

 

A Lei Magnitsky, na visão desses ministros, não poderia resultar no fechamento da conta bancária de nenhum cidadão brasileiro que não sofre penalizações ou restrições determinadas pela própria Justiça brasileira.

 

As sanções ao Brasil têm sido defendidas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro que está nos EUA atuando em conexão com autoridades do governo de Donald Trump para pressionar o STF a arquivar o processo contra o ex-presidente (Folha, 20/8/25)