BC do Brasil reafirma sufoco do arrocho, BC dos EUA dá uma mãozinha
Atual composição do Copom (Comitê de Política Monetária). De frente para trás, à esq., diretora Izabela Correa (Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta); Gabriel Galípolo, presidente do BC; diretores Gilneu Vivan (Regulação) e Rodrigo Alves Teixeira (Administração). À dir., diretores Nilton David (Política Monetária), Paulo Picchetti (Assuntos Internacionais), Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), Ailton Aquino (Fiscalização) e Diogo Guillen (Política Econômica) - Raphael Ribeiro - 29.jan.25/Banco Central
- Copom repete linguagem osso duro de roer e, sem novidades, dá sinal de Selic a 15% até 2026
- Juro cai nos EUA, o que deve atrair mais dinheiro para cá e valorizar o real mais um pouco
Quem esperava corte da Selic ainda em dezembro deste ano pode tirar o cavalinho da chuva, que vai continuar a cair, segundo indicou o Banco Central no comunicado em que anunciou que a taxa básica de juros permanece em 15%.
Sim, o BC pode mudar de ideia se houver queda miraculosa das expectativas de inflação ou se ocorresse um improvável apagão brutal da atividade econômica. Por ora, não parece o caso.
A projeção de inflação do BC para o primeiro trimestre de 2027 não mudou. Ficou em 3,4%. É bem menor do que a mediana das expectativas de "o mercado" para o IPCA no final de 2027 (3,9%). Mas, ressalte-se: a projeção não mudou; a expectativa de "o mercado" para 2027 apenas faz pouco começou a diminuir, mui lentamente.
Assim, o BC quase repetiu o comunicado da reunião anterior: "...seguirá vigilante, avaliando se a manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta". Se não der, "...não hesitará em retomar o ciclo de ajuste...".
O BC cortou a expressão "continuação na interrupção no ciclo de alta de juros", um hieróglifo a menos e um favor para a língua portuguesa. Não muda nada no mundo real. O BC quer dizer que o arrocho continua até que a expectativa de inflação caia para perto de 3% em 2027 (para 3,4%? Quem dá mais?).
A perspectiva de refresco agora vem do BC dos EUA, do Fed. A diferença entre juros de Brasil e EUA vai aumentar. Deve entrar mais dinheiro aqui, pois. O dólar anda pela casa dos R$ 5,30. Desce a R$ 5? Quem dá menos?
Suponha-se que estejam certas as medianas das estimativas do Fed, divulgadas nesta quarta. O PIB cresceria 1,6% neste 2025 e 1,8% em 2026 (cresceu 2,8% em 2024). A taxa de desemprego subiria um pouco, dos 4,3% atuais para 4,5% no final do ano e para 4,4% em 2026.
A inflação para o consumidor que o Fed leva mais em conta subiria um pouquinho mais até 3% em 2025 (a meta é de 2%), caindo para 2,6% no ano que vem.
Uma economia morna, sob controle, ao menos no mundo encantado das projeções. A dúvida maior é sobre cortes de juros em 2026 e algum risco de que, em vez de mais dois cortes em 2025, venha apenas mais um.
O dólar se desvaloriza no mundo quase inteiro, também por causa dos ataques de Trump contra o Fed. Com os cortes de juros nos EUA, o dólar se enfraquece um pouco mais. Com juro menor, cortes de impostos e a euforia da inteligência artificial, a economia mantém o crescimento —em ritmo mais medíocre, mas longe da recessão, o que dá ajuda a atividade econômica no resto do mundo.
"Tudo mais constante", assim o real se fortalece, como outras moedas de "emergentes", com dinheiro entrando no país, dando alguma ajuda extra para a contenção da inflação, derrubando um pouco mais as taxas de juros, animando o preço das ações.
O BC dos EUA cortou a taxa básica de juros da faixa de 4,25% a 4,5% para 4% a 4,25%. Foi por 11 a 1, um voto pelo corte de 0,5% ponto percentual, dado por Stephen Miran, o ideólogo econômico de Trump 2. A maioria da direção do Fed, ora votante ou não, é a favor de mais dois cortes neste 2025, embora muita gente (9 de 19) não queira mais corte algum ou apenas um corte extra.
Afora desastres, o caso brasileiro depende da alta de salários e seu efeito na inflação de serviços, da possível valorização extra do real e do efeito disso em expectativas inflacionárias. O BC do Brasil quer sufoco até "o mercado" jogar a toalha (Folha, 18/9/25)

