Bolsa acumula perda de R$ 389 bi com incerteza sobre rumos da economia
BOLSA Imagem Blog Foregon
Queda na capitalização atinge mais as estatais e desestimula novas emissões de papéis e investimentos das empresas
Além dos custos diretos para o Tesouro, como o déficit primário de R$ 231,5 bilhões previsto para 2023 e a estimativa de despesa adicional de até R$ 120 bilhões ao ano com o possível adiamento do corte nos juros pelo Banco Central (BC), o “efeito Lula” na economia atinge também o setor privado.
Desde a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições até 9 de janeiro, o valor de mercado das empresas cotadas na B3 diminuiu em R$ 389,1 bilhões, uma queda de 8,9% em relação ao valor registrado em 28 de outubro, data do último pregão antes do pleito, segundo dados da TradeMap, uma empresa de informações financeiras. Só a Petrobras, cujas ações registraram uma queda de 25,3% no período, teve uma perda de R$ 113,4 bilhões em sua capitalização (veja o quadro).
É certo que, na Bolsa, as cotações oscilam, para cima e para baixo, o tempo todo. A queda no valor de mercado das empresas, por exemplo, chegou a superar os R$ 650 bilhões em meados de dezembro, mas desde então a perda diminuiu bastante. Amanhã ou depois, se os sinais emitidos de Brasília mudarem, é possível que ela seja totalmente revertida – ou não.
Ainda assim, o resultado acumulado até agora revela a apreensão dos investidores com os rumos da política econômica no governo Lula. “Toda vez que a Bolsa cai muito é porque há menos confiança no futuro. Os investidores estão prevendo que a economia vai sofrer mais à frente” afirma Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e chairman da Jive Investments.
“Quando acabou a eleição, a nossa expectativa era de que o índice Bovespa (que reflete a alta média das ações mais negociadas na B3) passasse dos 120 mil pontos, mas o que a gente está vendo é que ele está indo para 100 mil pontos, porque o nível de incerteza, em vez de diminuir, aumentou”, diz Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro e economista-chefe do banco BTG Pactual.
Apesar dos desmentidos oficiais, há dúvidas sobre a adoção de um “revogaço” das medidas de liberalização econômica implementadas nos últimos anos, como as reformas trabalhista e da Previdência e os marcos regulatórios do saneamento e das ferrovias. Afinal, as afirmações feitas neste sentido partiram dos próprios ministros de Lula e refletem, em boa medida, o discurso do presidente na campanha eleitoral e as ideias do PT e de partidos que o apoiam. Há dúvidas também sobre uma maior interferência política nas estatais e o uso dos bancos públicos para expansão excessiva do crédito, com impacto negativo na dívida pública.
O caso Petrobras é emblemático. Embora o senador Jean Paul Prates (PT-RN), indicado para presidir a companhia, tenha afirmado que a Petrobras não vai interferir nos preços dos combustíveis, muitos investidores temem, entre outras questões, o efeito que eventuais mudanças no plano estratégico da empresa, com a suspensão da venda de suas refinarias e a realização de investimentos em áreas que não têm relação direta com a exploração de petróleo, possam ter em seu balanço. Temem, também, uma guinada radical na política de distribuição de dividendos que prejudique os acionistas privados e a própria União, que detém 28,7% do capital votante e 50,3% do capital total da companhia.
“O valor atual das empresas cotadas em Bolsa está incrivelmente baixo. As ações estão sendo negociadas por um valor que representa uma perspectiva quase catastrófica para a economia brasileira. E não é um fenômeno isolado, mas que atinge a grande maioria das empresas de quase todos os setores”, diz o economista Adriano Pitoli, responsável pela gestão do fundo de govtech da gestora de recursos KPTL. “Para mim, não existe nenhum indicador mais evidente do tamanho da incerteza dos investidores em relação ao futuro no momento. Não só os grandes investidores, mas qualquer pessoa com um mínimo de poupança que aplique seu dinheiro na Bolsa.”
Apesar de Lula e muitos de seus aliados usarem o mercado como bode expiatório e minimizarem a reação dos investidores, sugerindo que não passam de um grupo de especuladores inescrupulosos que não se importam com a fome e com o País e só se preocupam com seus ganhos de curto prazo, o que acontece na Bolsa reflete a percepção mais ampla dos agentes econômicos em relação ao impacto das decisões do governo na economia real.
Quando as cotações caem nos pregões, o ímpeto pelo lançamento de novas ações diminui, tanto por parte das empresas que já têm papéis negociados na Bolsa como pelas que ainda planejam abrir o capital.
Isso afeta os investimentos na expansão dos negócios e acaba por abafar também o crescimento da economia, a geração de novos empregos e o consumo.
“A Bolsa é uma das formas de captação de poupança para financiar investimento”, diz o economista Samuel Pessôa, chefe de pesquisa econômica do Julius Baer Family Office. “O investimento, que chegou a beirar 20% do PIB (Produto Interno Bruto), dificilmente vai continuar nesse nível. Investimento e consumo, dar passos à frente, pressupõem uma certa segurança em relação ao futuro – e isso diminuiu, em vez de aumentar, com as primeiras ações do novo governo na economia”, afirma Luiz Fernando Figueiredo (O Estado de S.Paulo, 11/1/23)
Bolsa passa a acumular alta em 2023 e dólar cai a R$ 5,20

Dólar apresenta leve alta nesta terça-feira, repetindo a tendência de segunda - Gary Cameron - 14.nov.2014/Reuters
Ibovespa volta aos 110 mil pontos após reação de autoridades a atos golpistas de domingo.
O dólar fechou em queda e a Bolsa em alta nesta terça-feira (10), após o mercado avaliar como positivas as reações de líderes políticos e autoridades aos atos golpistas praticados em Brasília no último domingo (8).
O desempenho dos indicadores resistiu até mesmo aos efeitos dos dados de inflação acima do esperado em dezembro 2022, divulgados nesta terça pelo IBGE.
O dólar comercial à vista fechou em baixa de 1,04%, a R$ 5,2020. O Ibovespa encerrou o dia com avanço de 1,55%, a 110.816 pontos. Assim, a Bolsa passa a acumular alta em 2023, de quase 1%.
Nos juros, somente os contratos com vencimentos mais curtos tiveram leve alta. A taxa para 2024 subiu de 13,58% do fechamento desta segunda-feira (9) para 13,60%. A taxa para 2025 caiu de 12,78% para 12,69%. Para 2027, a taxa recuou de 12,70% para 12,50%.
Essa queda nos juros mais longos tiveram influência nas ações de varejistas, que dominaram a lista de maiores altas do Ibovespa. A ação ordinária do GPA subiu mais de 8%, e as ordinárias de Magazine Luiza e Americanas avançaram mais de 7%.
No caso do GPA, o conselho de administração aprovou uma redução do capital da empresa de R$ 7,1 bilhões, com a transferência de ações da rede colombiana Éxito para seus acionistas.
Na tarde desta terça, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes determinou a prisão de Anderson Torres, ex-secretário de Segurança do Distrito Federal. Moraes decretou também a prisão de Fabio Augusto Vieira, ex-comandante da Polícia Militar do DF.
Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, afirmou que a "minoria golpista" que atacou as sedes dos Três Poderes no domingo conseguiu unir ainda mais as instituições, e classificou como "crimes" os atos praticados por esse grupo. Nesta terça, o Senado também aprovou a intervenção federal no DF, mesmo com voto contrário de bolsonaristas.
Para Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, o posicionamento firme de líderes políticos faz com que os investidores se sintam mais seguros sobre a situação no Brasil.
"Há também uma grande expectativa sobre as declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para que possamos ter uma clareza maior sobre a política econômica a ser adotada pelo governo", acrescenta o analista da Ativa.
Para os analistas da Levante Corp Research, a resposta do governo aos atos de domingo tem sido "enérgica", remediando o ambiente de desorganização institucional deixado pelo grupo antidemocrático que atacou Brasília.
Alexsandro Nishimura, economista e sócio da corretora BRA BS, lembra que o real perdeu, nos últimos dias, mais valor em relação ao dólar que outras moedas globais. "Com o prosseguimento do entendimento de fortalecimento das instituições democráticas, o real corrige com maior intensidade e se ajusta", explica Nishimura.
O começo do pregão desta terça teve mais influência dos dados de inflação e das notícias vindas do exterior. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou alta de 5,79% nos 12 meses de 2022, informou nesta terça-feira (10) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em dezembro, a alta foi de 0,62%, ante 0,41% em novembro.
Segundo Arbetman, a primeira leitura do número foi negativa, mas o desdobramento da alta da inflação em dezembro mostra que ela foi provocada por itens muito pontuais, como Higiene Pessoal, o que também diminuiu a cautela dos investidores em relação aos ativos brasileiros.
No exterior, Jereme Powell, presidente do Federal Reserve, o banco central norte-americano, não deu sinais sobre a tendência para as próximas reuniões que vão decidir a trajetória dos juros nos Estados Unidos, em evento promovido pelo banco central da Suécia.
No primeiro momento, os índices de ações em Nova York subiram, mas rapidamente esse movimento perdeu força, e os indicadores passaram a operar próximos da estabilidade. Perto do fim do pregão, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq 100 registravam altas próximas de 0,50%.
"Esperava-se algum sinal de Powell sobre a aceleração do ritmo de aumento dos juros. Mas não houve. De qualquer forma, já se espera que as taxas superem o patamar de 5%, uma vez que os recentes aumentos não tiveram os impactos esperados no 'esfriamento' da economia", explica Vicente Guimarães, CEO da VG Research.
Para Jamie Damon, CEO do JP Morgan Chase, é possível que o Federal Reserve tenha que aumentar os juros acima do nível que é esperado atualmente pelo mercado.
Em entrevista ao canal Fox Business, segundo a agência Bloomberg, Dimon afirma que há 50% de chance de que o banco central americano eleve os juros para 6%. Mas o executivo também é a favor de uma pausa por parte do Fed para avaliar os efeitos dos juros mais altos na economia (Folha de S.Paulo, 11/1/23

