Bolsonarismo unifica a direita – Editorial O Estado de S.Paulo
Resultado das eleições no Congresso indica que o bolsonarismo é incontornável para a direita. Para evitar que seu radicalismo se torne igualmente majoritário, o País depende do Centrão
O resultado das eleições de domingo deu uma dimensão nova ao bolsonarismo. O que em 2018 ainda parecia um movimento reunido sobretudo em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro e em 2022 começava a ganhar alguma estrutura, hoje se apresenta como a força dominante da direita brasileira. Para evitar que esse radicalismo se torne igualmente majoritário, o País depende, ora vejam, do Centrão.
O PL, partido dominado pelos Bolsonaros, elegeu 121 deputados e terá 28 senadores. Seus aliados avançaram também nos Estados. Há ainda uma nova geração de políticos com votos próprios, sinal de que essa força deverá continuar a marcar a política brasileira por muitos anos. Tamanho poder já não admite a confortável atitude de quem vive apenas da contestação.
A mudança é particularmente importante no Congresso. Com mais de um quinto das cadeiras da Câmara, segundo dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o PL terá a maior bancada da Casa. É um resultado histórico. Nenhuma legenda elegia tantos deputados desde os 109 conquistados pelo então PMDB em 1990. No Senado, os 28 parlamentares do partido representarão mais de um terço da Casa.
O resultado dá ao bolsonarismo poder suficiente para influir decisivamente no que o Congresso fará a partir de fevereiro, mas está longe de lhe assegurar maioria para fazer o que bem entender. O Centrão, portanto, não perdeu sua conhecida condição de fiel da balança.
O PL precisará dos partidos de centro para construir maiorias e, sobretudo, para alcançar os três quintos necessários à aprovação de emendas constitucionais. São 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada Casa. A força conquistada nas urnas é enorme, mas não dispensa aliados. E aliados, em Brasília, raramente trabalham de graça.
Partidos como PSD, MDB, União Brasil, PP e Republicanos passarão a negociar diante de uma direita muito mais organizada e eleitoralmente poderosa. É uma posição confortável para o Centrão.
O mesmo vale para quem vier a comandar Câmara e Senado. Os presidentes das duas Casas, a serem escolhidos em fevereiro do ano que vem pelos seus pares, terão de conduzir um Congresso mais conservador, sem esquecer que o Parlamento não existe para servir a uma facção. Terão de dialogar com os demais Poderes e construir acordos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se reeleito, terá pela frente um Legislativo ainda mais distante de seu governo. Flávio Bolsonaro, por outro lado, encontraria, naturalmente, um ambiente político mais próximo de suas posições, mas nem por isso poderá dispensar a negociação. A política continuará sendo necessária.
E trabalho não falta. A PEC da Segurança Pública, por exemplo, ainda está em tramitação no Senado A proposta está longe de ser perfeita e merece aperfeiçoamentos, mas existe para enfrentar problemas que não podem mais esperar, como a necessidade de coordenar melhor União e Estados contra organizações criminosas. O combate ao crime foi uma das principais bandeiras da direita nesta eleição. Se é prioridade, que seja tratada como tal.
A responsabilidade fiscal será uma prova ainda mais incômoda. Uma eventual reeleição de Lula exigirá do Congresso algum freio à conhecida disposição lulopetista de aumentar despesas. Se o vencedor for Flávio Bolsonaro, não haverá sequer essa desculpa: depois de anos denunciando a irresponsabilidade fiscal do adversário, a direita terá de resistir à tentação de praticá-la quando o dinheiro estiver sob seu comando. Deputados e senadores, de resto, terão pouca autoridade para cobrar contenção de gastos do Executivo enquanto preservarem para si uma parcela cada vez maior do Orçamento por meio das emendas parlamentares.
Os vencedores têm todo o direito de levar ao Congresso as pautas que receberam o apoio dos eleitores. Mas tamanho capital político não pode ser desperdiçado em guerras culturais e disputas destinadas sobretudo a manter a militância mobilizada. Os problemas reais do País talvez rendam menos aplausos nas redes. Paciência.
O bolsonarismo já mostrou que sabe conquistar poder. A partir de fevereiro, terá de mostrar o que sabe fazer com ele (Estadão, 6/10/26)

