Brasil pode ganhar com nova geopolítica dos alimentos
Há uma década, produção agrícola era de mais de 186 milhões de toneladas de grãos. Neste ano, pelos cálculos do IBGE, deverá chegar a 360 milhões de toneladas. Foto Dusan Kostic Adobe Stock
pulverização
Por Celso Ming
Mas corre o risco de desperdiçar oportunidade.
A segurança alimentar passa transformações; até o megaprotecionista presidente Trump isentou dos tarifaços uma ampla lista de produtos agrícolas
A história fascinante de José no Egito (Gênesis, capítulo 37 e seguintes) e da reviravolta de sua vida, da prisão à condição de superintendente do abastecimento do reino dos faraós, é a primeira referência na literatura ocidental à solução de um problema de segurança alimentar. Esta sempre foi uma prioridade de Estado.
Mas é uma necessidade política sujeita a mudanças. Neste momento, tão repleto de transformações, a segurança alimentar também passa por metamorfoses de impacto.
Até recentemente, uma política de segurança alimentar estava prioritariamente centrada na necessidade de produzir internamente os recursos alimentares de que a população necessitasse.
Daí, as políticas protecionistas e os incentivos ao produtor local. Na Suíça, os criadores de gado recebem de US$ 3 a US$ 5 diários por cabeça de vaca, com o objetivo de assegurar a produção leiteira.
Do ponto de vista dos Países em desenvolvimento, o fato de se manterem como grandes exportadores de commodities e de matérias-primas levantava discussões sobre a necessidade de incorporar valor aos produtos primários, para aumentar as exportações.
O rápido aquecimento climático global, enormes períodos de seca no Hemisfério Norte, com os alastramentos dos incêndios florestais e, desde fevereiro, a redução do suprimento de fertilizantes em consequência do fechamento do Estreito de Ormuz, estão obrigando os dirigentes de Estado ao redor do mundo a garantir fornecimentos cada vez maiores de alimentos por meio das importações.
Até o megaprotecionista presidente Trump se viu obrigado a isentar dos seus tarifaços listas alentadas de produtos agrícolas. Ou seja, em matéria de segurança alimentar, o mundo passa por relativa liberalização comercial.
Essas novas exigências no campo da segurança alimentar encontram o Brasil numa posição privilegiada. Ainda conta com grande disponibilidade de áreas cultiváveis e de produtores cada vez mais dinâmicos na área da agropecuária.
O Brasil já vai para a condição de grande celeiro do mundo, como a Argentina foi no passado e como os Estados Unidos foram até recentemente.
Há dez anos, a produção agrícola era de mais de 186 milhões de toneladas de grãos. Neste ano, pelos cálculos do IBGE, deverá chegar a 360 milhões de toneladas, avanço de 94% em dez anos. E o potencial de crescimento sem desmatamento é enorme.
O risco é o de que, como no passado, o Brasil não tire o melhor proveito dessa nova temporada de vacas gordas e de espigas rechonchudas, como nos dias de José do Egito (Estadão, 7/8/26)

