15/04/2026

Brasileiro sofre com dívidas,o que não explica baixa de Lula nas pesquisas

Brasileiro sofre com dívidas,o que não explica baixa de Lula nas pesquisas

Foto Reprodução Gazeta do Povo

 

Por Vinicius Torres Freire

 

  • Conta da avaliação do governo presidente está no vermelho desde o início de 2025
  • Propaganda governista acha que é conveniente atribuir desprestígio a juros altos

 

De repente, passou a parecer que o principal motivo da baixa extra de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o "endividamento" das famílias, palavra que vai entre aspas porque diz algo confuso ou nada, tal como tem sido empregada. A opinião pública convencional comprou a versão oficial.

 

Quem sabe parte do desprestígio extra de Lula se deva mesmo a dificuldades das pessoas com dívidas. A situação financeira de parte das famílias piorou e há indícios de insatisfação em certos levantamentos de opinião, mas não dá para cravar, por falta de pesquisa grande o suficiente.

 

A conta da avaliação de Lula está no vermelho desde o início de 2025; no zero a zero desde meados de 2024. Apenas voltou a piorar um pouco. Trata-se aqui da diferença entre a porcentagem de pessoas que dão a ele nota "ótimo ou bom" e "ruim ou péssimo" no Datafolha.

 

Além de vir de mais longe, o desprestígio parece alimentado por mais insatisfações. Surtos de inflação tornam mais insuportável um nível de preços elevado ("tudo caro") desde a epidemia, em especial o de alimentos. Há queixas sobre impostos ou medo deles (da "taxa das blusinhas" às mentiras da direita sobre o Pix). A fila cruel do INSS mais do que dobrou sob Lula 3. O caderno de reclamações é comprido e variado.

 

A inadimplência das pessoas físicas no crédito bancário cresce desde o final de 2024, mas não sabemos bem quanto, pois o Banco Central mudou no início de 2025 o modo pelo qual bancos registram perdas com calotes e similares. Juros bancários começaram a subir ao longo de 2024; a Selic, em novembro de 2024. Taxas mais altas não apenas dificultam o pagamento de dívidas, mas afetam quem está no azul e quer comprar um bem financiado, que fica mais caro, óbvio.

 

A medida de comprometimento da renda com o pagamento de juros e amortização tem relevância, mas é uma conta de somas de rendas variadas, que dificultam interpretação mais social ou política dos resultados. É fato que o total de dinheiro emprestado a pessoas físicas era de apenas 20% do PIB em 2010 (final de Lula 1, com 3,4% do PIB em crédito imobiliário). Foi a 31% no final da epidemia (2022) e está em 34,8% do PIB (10,3% de imobiliário). Uma alta dos já aberrantes juros brasileiros faz mais estrago. Quanto?

 

Em março, 12,3% das famílias diziam que não teriam condições de pagar dívidas, segundo a pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio. São 2,27 milhões de famílias, o que pode dizer respeito a uns 4 milhões de eleitores. É importante.

 

Mudou muito? Eram 2,14 milhões de pessoas nessa aflição em março de 2025 (12,2%). Em momentos melhores da popularidade de Lula, como em fins de 2023, eram cerca de 2 milhões.

 

Pode ser que muita gente tenha entrado e saído dessa lista de inadimplentes; que o efeito cumulativo do tormento tenha levado mais gente a detestar o governo. Não dá para saber, com esses dados. Mas a variação do número de pessoas à beira da inadimplência não foi tão grande, em termos políticos.

 

Enfatizar que o desprestígio de Lula nas pesquisas se deve a "endividamento" parece conveniente, pois a responsabilidade pelos juros altos não seria do governo, mas do BC, diz o lulismo. Na Terra do Nunca, os juros não sobem por aumento de dívida pública, descrédito fiscal e alta de gastos em economia já aquecida. Sobem por causa do BC. Enfim, iludir-se desta maneira vai causar danos até à estratégia eleitoral do governo, ora em Nárnia (Folha, 15/4/26)