05/02/2025

Café se prepara para sequência de maior alta de preços em 45 anos

Café se prepara para sequência de maior alta de preços em 45 anos

LAVOURA DE CAFÉ FREEPIK

Por David Lucena

 

Produção reduzida por questões climáticas e consumo em alta explicam volatilidade dos preços

 

O preço do café, que registra altas históricas, deve continuar pressionado no mínimo até o fim do primeiro semestre, em decorrência de adversidades climáticas que afetaram as últimas safras e dos baixos estoques da indústria.

 

Na última quarta-feira (29), o preço da commodity alcançou o maior valor nominal desde 1977, ao fechar o dia cotado a US$ 3,6655 por libra-peso na ICE, referência global para os preços do café arábica. É mais do que o dobro do valor de pouco mais de um ano atrás —ao fim de outubro de 2023, o grão era cotado a US$ 1,6935.

 

Enquanto isso, no mercado interno, o preço para o consumidor final subiu quase 40% ao longo de 2024. Em janeiro, o quilo do café torrado e moído no varejo custava R$ 29,62. Em dezembro, era necessário pagar R$ 42,65 pela mesma quantidade, segundo dados da própria indústria.

 

Para entender essa disparada e por que o produto continuará pesando no bolso do brasileiro em 2025, é preciso retroceder um pouco.

 

O Brasil, que é o maior produtor mundial, sofreu com uma severa geada no inverno de 2021, que atingiu algumas das principais regiões produtoras de café. Isso comprometeu fortemente a safra.

 

Desde então, outros fenômenos climáticos continuaram atingindo as colheitas, tanto no Brasil quanto em outros grandes produtores, como Vietnã, Colômbia e Indonésia –que, juntos, são responsáveis por mais de dois terços do fornecimento de café do mundo. Às vezes falta de chuva, às vezes excesso.

 

Em paralelo a isso, o consumo mundial continua crescendo, ainda que em patamares moderados. A alta mais expressiva se dá na China, mas outras nações, como Filipinas, Malásia, Índia e Vietnã, também começam a consumir mais.

 

Com isso, os estoques mundiais caem, e, a partir de outubro de 2023, o preço do café no mercado global dispara. Há, afinal, um descompasso entre a produção e o consumo.

 

Nesse cenário, o Brasil exporta mais, incentivado pela alta dos preços no mercado internacional e pelas dificuldades climáticas enfrentadas pelas demais nações produtoras. Em 2024, o país bateu recorde anual de exportação. Foram embarcadas 50,443 milhões de sacas –número 28,5% maior que em 2023.

 

Em 2025, a tendência é que o produto continue caro. Isto porque o preço do café verde subiu mais de 100%, e, no varejo, a alta foi de 40%. Ou seja, o mercado está repassando a alta aos poucos ao consumidor final.

 

Por isso, a expectativa é que o café continue pressionando a inflação nos próximos meses, segundo Pavel Cardoso, presidente da entidade que representa os industriais, a Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café).

 

"A indústria segue repassando alguma coisa agora ainda em fevereiro e março, de maneira muito responsável", diz Cardoso.

 

No campo, também não há sinal de alívio no curto prazo. A estiagem que atingiu importantes regiões brasileiras produtoras em 2024 comprometeu até a colheita deste ano.

 

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estimou a produção de café do Brasil no ciclo de 2024 em 54,2 milhões de sacas, uma queda de 2% em relação à safra anterior. Para 2025, o órgão projeta uma colheita ainda menor –51,8 milhões de sacas, um recuo de 4,4%.

 

A chefia da OIC (Organização Internacional do Café), braço das Nações Unidas baseado em Londres que reúne países produtores e consumidores, diz à Folha que Vietnã e Colômbia –segundo e terceiro maiores produtores do mundo, respectivamente– também sinalizaram ao órgão que há perspectiva de melhora nas suas colheitas.

 

"Mas a gente ainda está na expectativa sobre o quanto eles vão conseguir produzir a mais e se isso vai suprir o que o Brasil ainda vai estar frustrando", diz Vanusia Nogueira, diretora-executiva da OIC.

 

A situação para o consumidor pode ficar menos difícil apenas no fim do ano, caso 2025 transcorra sem grandes adversidades climáticas nas regiões produtoras.

 

"No segundo semestre, quando o mercado já tiver precificado a questão das chuvas, da colheita da safra de 2025 e estiver com um olhar para 2026, com essa florada e a granação de 2026, possivelmente aí sim a gente tenha um arrefecimento e uma tranquilidade maior nessa volatilidade que hoje é vivenciada", diz Cardoso.

 

Vanusia, da OIC, explica, contudo, que, ainda que as safras deem sinal de melhora e haja um alívio nas cotações mundiais, os preços não devem voltar ao patamar de 2023, quando a saca chegava a ser vendida por cerca de R$ 800,00, o que comprometia a subsistência do agricultor –diferentemente de outras culturas, como a soja, a cafeicultura é muito dependente de pequenos proprietários de terra.

 

"Os preços para os produtores estavam muito baixos e não estavam dando para o produtor uma renda mínima necessária para eles viverem, para suas famílias viverem e principalmente para que atraísse as novas gerações para continuar produzindo café", diz Vanusia (Folha, 5/2/25)