24/04/2026

Calor extremo ameaça agricultura global, alertam agências da ONU

Calor extremo ameaça agricultura global, alertam agências da ONU

Trabalhadores iraquianos colhem plantações de batata, danificadas por onda de calor, em Mosul - Khalid Al-Mousily/Reuters

 

  • Aquecimento global coloca em risco meios de subsistência e saúde de mais de 1 bilhão de pessoas, diz relatório
  • Levantamento afirma que temperaturas mais altas diminuem margem de segurança da qual dependem plantas, animais e humanos

 

O calor extremo está levando os sistemas agroalimentares globais ao limite, ameaçando os meios de subsistência e a saúde de mais de 1 bilhão de pessoas. As informações são de um novo relatório das agências de alimentação e de meteorologia da ONU (Organização das Nações Unidas), publicado nesta quarta-feira (22), data em que é comemorado o Dia da Terra.

 

A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e a OMM (Organização Meteorológica Mundial) afirmaram que as ondas de calor estão se tornando mais frequentes, intensas e prolongadas, prejudicando as colheitas, a pecuária, a pesca e as florestas. O aumento deste fenômeno é um dos efeitos mais evidentes da mudança climática provocada pelas atividades humanas.

 

"O calor extremo está reescrevendo o roteiro sobre o que agricultores, pescadores e silvicultores podem cultivar e quando podem cultivar. Em alguns casos, está até mesmo determinando se eles ainda podem trabalhar", disse Kaveh Zahedi, chefe do escritório de mudanças climáticas da FAO.

 

"Em sua essência, esse relatório está nos dizendo que enfrentamos um futuro muito incerto", disse ele à Reuters.

 

Conjuntos de dados climáticos recentes mostram que o aquecimento global está acelerandoOs últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados —com 2025 ocupando o terceiro lugar no ranking histórico.

 

Um planeta mais quente provoca extremos climáticos mais frequentes e severos. Atuando como um multiplicador de riscos, o calor extremo intensifica as secas, os incêndios florestais e os surtos de pragas e reduz drasticamente a produtividade das colheitas quando os limites críticos de temperatura são ultrapassados. Além disso, oceanos mais quentes do que o normal provocam mais tempestades, desregulando a previsibilidade climática da qual as lavouras dependem.

 

Queda na produtividade com mais aquecimento

 

O relatório afirma que as temperaturas mais altas estão diminuindo a margem de segurança da qual as plantas, os animais e os seres humanos dependem para funcionar, com queda na produtividade da maioria das principais culturas quando as temperaturas ultrapassam cerca de 30°C.

 

Zahedi citou o Marrocos, onde seis anos de seca foram seguidos por ondas de calor recordes. "Isso levou a uma queda na produção de cereais em mais de 40%. Isso dizimou a colheita de azeitonas e frutas cítricas. Basicamente, essas colheitas fracassaram", disse.

 

As ondas de calor marinhas também estão se tornando mais frequentes, reduzindo os níveis de oxigênio na água e ameaçando os estoques de peixes. Em 2024, 91% dos oceanos do mundo sofreram pelo menos uma onda de calor marinha, segundo o levantamento.

 

Os riscos aumentam acentuadamente à medida que o aquecimento se acelera. Espera-se que a intensidade dos eventos extremos de calor dobre se for atingida a marca de 2°C de aquecimento e quadruplique a 3°C, em comparação com 1,5°C.

Zahedi disse que cada um grau de aumento na temperatura média global reduz a produção das quatro principais culturas do mundo —milho, arroz, soja e trigo— em cerca de 6%.

 

A FAO e a OMM disseram que respostas fragmentadas são inadequadas e pediram uma melhor governança dos riscos e sistemas meteorológicos de alerta antecipado para ajudar os agricultores e pescadores a tomar medidas preventivas.

"Se você conseguir colocar os dados nas mãos dos agricultores, eles poderão ajustar quando plantam, o que plantam e quando colhem", disse Zahedi.

 

Mas o relatório ressalta que a adaptação por si só não é suficiente: a única solução duradoura para a crescente ameaça do calor extremo é uma ação ambiciosa e coordenada para cortar a emissão de gases de efeito estufa e conter a mudança climática (Reuters, 23/4/26)