Campanha de Lula corre contra o tempo após dormir no ponto
Flávio se posicionou atrás de Lula para intimidá-lo durante todo o debate da Band/Estadão. Foto: Werther Santana/Estadão. Foto: Werther Santana/Estadao
Por Vera Rosa
Presidente faz de tudo para emparedar adversário, que usa de ironia em resposta sobre quebra de sigilo e diz que petista não tem nem telefone.
A campanha do presidente Lula dormiu no ponto. No primeiro turno da disputa, subestimou Flávio Bolsonaro, subiu no salto alto e agora, nos últimos dias, tenta criar fatos políticos para virar o jogo, lançando cascas de banana na direção do adversário.
A aposta da vez é o desafio para que Flávio abra o seu sigilo bancário, fiscal e telefônico. A cinco dias da eleição, Lula partiu para uma jogada de marketing e de impacto: entregou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um ofício autorizando a quebra de seu sigilo, assim como o de sua mulher, Janja, e de seus filhos, desde que Flávio e a família dele, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro façam o mesmo.
O senador do PL disse a auxiliares que não vai cair no que chamou de “armadilha”, mas tem tratado a questão com desdém, afirmando que Lula “não tem nem celular” para abrir o sigilo telefônico.
A ironia é desnecessária e a discussão não levará a nada. Mas, nesta derradeira semana da campanha, Lula faz de tudo para emparedar o adversário. Além disso, cria uma espécie de “vacina” para aplicar no eleitorado do PT, caso não consiga virar o jogo.
O comitê do presidente vai pedir à Justiça Eleitoral a impugnação da candidatura de Flávio, sob o argumento de que a plataforma Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, faz “manipulação algorítmica” para beneficiar o senador nas redes sociais. Aliada do presidente dos EUA, Donald Trump, a Meta nega que esteja atuando para favorecer o rival de Lula.
Em outra frente, a equipe petista explora nas redes sociais a estratégia usada por Flávio no debate da Band/Estadão, no domingo, 18, para martelar a ideia de que o filho de Bolsonaro é despreparado para governar o País.
Cristovam perdeu eleição de 1998 após humilhar Roriz
Desde que o senador se posicionou atrás de Lula, fazendo caras e bocas – além de gestos de desaprovação para intimidá-lo e gerar cortes nas redes –, uma cena política é lembrada nas rodas de conversa da capital da República.
Em 1998, o então governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, perdeu a disputa para o Palácio do Buriti porque eleitores acharam que ele humilhou Joaquim Roriz (PMDB) no último debate da campanha, promovido pela TV Globo. À época filiado ao PT e tendo chegado à frente de Roriz no primeiro turno, Cristovam disse diante das câmeras que queria ver o adversário, trêmulo, segurar um copo.
Uma semana depois, o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), reeleito naquele ano, ligou para Cristovam. Soube que Lula, derrotado pela terceira vez na corrida ao Planalto, estava em Brasília e queria conversar com ele.
Cristovam e Lula chegaram à residência oficial do Palácio do Alvorada às 22 horas em ponto. “Lula, que bom ter você aqui!”, disse ao petista um sorridente Fernando Henrique. “Venha conhecer o lugar onde um dia você vai morar”.
O papo seguia animado até que, a certa altura, um garçom entrou no recinto. “Diga para o governador Cristovam por que ele perdeu a eleição”, pediu FHC. O homem não titubeou: “O senhor foi muito duro com o Roriz”.

Cristovam afirma que, se pudesse dar um conselho a Lula, diria: "Mais esperança e menos lembrança". Foto Dida Sampaio Estadão
Vinte e oito anos depois, Cristovam afirma que, embora aquele debate tenha muitas diferenças em relação ao show de horrores do domingo – mesmo porque ninguém ali fugia das respostas –, o episódio serve para ilustrar como o clima de “já ganhou” pode levar à ruína.
“Naquele dia da Band, Lula deveria ter dito aos mediadores: ‘Vocês avisaram esse rapaz que estamos aqui em um debate para escolher o presidente da República, e não em uma briga de rua?’”, provocou o ex-governador, que também foi senador e ministro da Educação no primeiro mandato de Lula.
Neste ano, Cristovam concorreu a uma cadeira como deputado federal pelo PSB, mas não se elegeu. “Tenho saudade de disputar com Roriz”, confidenciou o ex-governador, que também foi reitor da Universidade de Brasília (UNB). Roriz morreu em 2018 e Cristovam ainda teve tempo de dizer isso a ele.
“Eram outros tempos: não havia esses extremos nem essa intolerância”, observou. Em 2006, Cristovam chegou a disputar a Presidência da República com Lula e com Geraldo Alckmin, hoje vice.
Se pudesse, o ex-ministro da Educação daria um conselho a Lula para o debate da TV Globo, marcado para a próxima sexta-feira, 23: “Passe mais esperança de futuro e menos lembrança do passado”. Resta saber se essas arenas de combate televisivo ainda servem para discutir programas de governo ou se são apenas para lacração nas redes sociais (Estadão, 20/10/26)

