08/01/2026

Cárcere político e saque aos cofres:O balanço da tirania – Por Paula Sousa

Cárcere político e saque aos cofres:O balanço da tirania – Por Paula Sousa

Orestes Perseguido pelas Fúrias, de William Adolphe Bouguereau. Foto Estadão

O Brasil de 2026 não é mais o País das leis, mas o território do arbítrio. Sob a justificativa de proteger instituições que eles mesmos corroem, uma aliança espúria entre o Executivo e de membros do Judiciário ergueu um sistema de exceção que ignora a Constituição, aniquila opositores e blinda uma cleptocracia renascida das cinzas. O que assistimos hoje não é o exercício da justiça, mas uma engenharia de vingança e saque que empurra a nação para um abismo moral e financeiro sem precedentes.

O "golpe da Disney" e o rastro de sangue inocente

Tudo começou com a narrativa do 8 de janeiro, o chamado "golpe" que a história registrará como o maior delírio jurídico da República. Como um presidente poderia chefiar uma insurreição estando a milhares de quilômetros de distância, sem armas, sem apoio militar e sem qualquer decreto assinado? A resposta é simples: não houve golpe; houve uma oportunidade política meticulosamente aproveitada para justificar a barbárie institucional.

As consequências foram reais e trágicas. Enquanto pichadores de estátuas e idosos com bíblias na mão eram condenados a décadas de prisão — penas superiores às de estupradores e latrocidas —, o sistema lavava as mãos para o sangue de Cleriston da Cunha. A morte de "Clesão" no cárcere, ignorada pelo ministro Alexandre de Moraes apesar de laudos médicos desesperadores, foi o marco zero da tortura institucionalizada. O Estado brasileiro deixou de ser o protetor do cidadão para se tornar seu carrasco.

A tortura como método: O alvo é Bolsonaro

O ápice dessa crueldade recai sobre Jair Bolsonaro. O ex-presidente enfrenta hoje um tratamento que nem os piores ditadores do século XX impuseram a seus rivais. Mantido sob uma custódia que atropela qualquer garantia fundamental, Bolsonaro é vítima de um isolamento calculado para o exaurimento psicológico. Recentemente, o mundo assistiu horrorizado à negação de atendimento médico adequado após uma queda sofrida pelo ex-presidente.

A diferença de tratamento é escandalosa. Em 2018, o atual mandatário, preso após condenações ratificadas por colegiados em esquemas de corrupção bilionários, usufruía de visitas constantes, prazos elásticos e ampla exposição midiática. Hoje, Bolsonaro é mantido em um limbo jurídico, onde cada visita dos filhos ou cada consulta médica precisa do carimbo pessoal de um ministro que atua como acusador, juiz e carcereiro. É o assassinato da reputação e da saúde em doses diárias, executado à luz do dia.

Filipe Martins: A prisão baseada na ficção

A perversidade do sistema não poupa sequer os assessores. O caso de Filipe Martins é o exemplo definitivo da falência do devido processo. Martins foi encarcerado sob a alegação de ter fugido do país, uma mentira sustentada por um log de acesso ao LinkedIn que a própria plataforma provou ser inexistente nas datas citadas. Mesmo com o erro material escancarado, a justiça se recusa a recuar. No Brasil atual, a verdade é um detalhe irrelevante diante da necessidade política de manter opositores atrás das grades.

O roubo dos invisíveis: O escândalo do INSS

Enquanto o STF se ocupa em perseguir quem contesta o sistema, o governo Lula opera nas entranhas do Estado para restaurar a velha prática do saque aos cofres públicos. O escândalo do INSS é de uma vileza sem par: um desvio bilionário que atinge diretamente os aposentados e pensionistas. Estima-se que mais de R$ 6 bilhões tenham sido drenados através de descontos ilegais, beneficiando sindicatos e figuras ligadas ao Partido dos Trabalhadores.

O envolvimento da família presidencial e de assessores diretos de Lula no lobby para favorecer empresas dentro do Ministério da Saúde e da Previdência mostra que o Ronaldinho Gaúcho dos negócios está de volta. A digital do clã Silva está impressa na dor do idoso que vê sua aposentadoria minguar para financiar o luxo de laranjas e lobistas instalados em Brasília.

Banco Master e a "fábrica de ilusões" financeiras

Mas o buraco é ainda mais profundo e ameaça implodir a economia brasileira. O caso do Banco Master revela uma simbiose doentia entre o setor financeiro e os tribunais superiores. Enquanto o Banco Central tentava exercer sua função de regulador, o STF e o TCU intervieram de forma brusca para proteger uma instituição mergulhada em suspeitas de fraudes contábeis.

A denúncia de influenciadores sendo comprados com cifras milionárias para defender o banco e atacar o Banco Central expõe o modus operandi de Daniel Vorcaro e seus aliados: se o sistema não te protege, compre o sistema. A "fábrica de créditos falsos" — títulos sem lastro criados em empresas de prateleira no nome de atendentes de lanchonete — não é apenas um crime financeiro; é uma bomba-relógio que pode levar ao colapso de todo o mercado de crédito no Brasil, destruindo o que resta da confiança dos investidores.

Correios: Do lucro ao loteamento do prejuízo

A destruição das estatais completa o cenário de devastação. Os Correios, que haviam sido saneados e geravam lucro, voltaram a ser o quintal de militantes e apadrinhados políticos. Sob a gestão lulista, a empresa acumulou um prejuízo de R$ 6.3 bilhões. A auditoria do TCU, prevista para ser concluída apenas após o estrago ser irreversível, aponta para uma manipulação de contas onde o lucro do passado foi "jogado" no lixo para justificar a incompetência presente. Enquanto os altos escalões em Brasília brindam com verbas exorbitantes, os carteiros perdem seus benefícios básicos. É o socialismo de gabinete: riqueza para os amigos do rei, escassez para quem carrega o piano.

O fim da justiça e o silêncio dos cúmplices

Onde estão as vozes que bradavam pela democracia em 2022? Onde estão os economistas e intelectuais que venderam a ideia de que o "centrismo" de Lula seria o freio aos supostos excessos de Bolsonaro? Estão calados ou, pior, estão lucrando com a desordem. Figuras da elite econômica brasileira agora assistem com "preocupação" ao monstro que ajudaram a alimentar, enquanto o STF anula processos de corrupção e interfere em decisões técnicas para blindar bancos amigos.

A verdade é que a corrupção deixou de ser um risco no Brasil; ela tornou-se a norma regulamentadora. O fim da Lava-Jato não foi um erro de percurso, mas um projeto de poder. O sistema aprendeu que não precisa mais esconder o roubo; basta prender quem o denuncia.

Conclusão

O que está em jogo hoje no Brasil não é uma disputa entre esquerda e direita. É uma luta entre a civilização e a barbárie institucional. Não é possível aceitar um País onde um idoso morre na prisão por uma pichação, enquanto um banco movimenta bilhões em papéis falsos sob a proteção de ministros de tribunais superiores. Não é aceitável que um ex-presidente seja submetido à tortura médica enquanto o filho do atual mandatário circula livremente por ministérios operando esquemas com o dinheiro dos aposentados.

O aparelhamento do Estado brasileiro chegou ao seu estágio terminal. O governo Lula e a cúpula do STF agem como um corpo único, uma hidra que se alimenta da liberdade e da riqueza do povo brasileiro. Se a lei não vale para todos, ela não vale para ninguém. Se o juiz se torna o carrasco da oposição e o escudo do corrupto, a justiça morreu.

O Brasil está sendo empurrado para o abismo. A economia definha sob o peso da incerteza jurídica e da fraude sistêmica, e a moral nacional é estraçalhada a cada decisão que privilegia o crime. Resta saber se o povo brasileiro continuará assistindo em silêncio à sua própria condenação ou se haverá uma reação à altura contra aqueles que decidiram transformar a pátria em um imenso e lucrativo cárcere privado. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 8/1/2026)