23/03/2026

Carne: Brasil já exportou à China mais de 30% da cota prevista para 2026

Carne: Brasil já exportou à China mais de 30% da cota prevista para 2026

Exportadores defendem controle estatal para as vendas aos chineses — Foto: Divulgação/TCP

 

Número preocupa o setor, já que muitas cargas saíram dos portos ainda em 2025.

 

O governo chinês divulgou nesta sexta-feira (20/3) os dados oficiais de importação de carne bovina, do Ministério do Comércio e da Administração-Geral de Alfândegas (GACC, na sigla em inglês), referentes aos meses de janeiro e fevereiro de 2026.

 

Segundo os dados, a China importou 372,08 mil toneladas de carne bovina do Brasil neste ano, sendo 211,29 mil toneladas em janeiro e 160,78 mil toneladas em fevereiro. O número representa 33,64% da cota de 1,1 milhão de toneladas imposta aos frigoríficos brasileiros em 2026. Os dados foram compilados e divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

O alto índice de ocupação da cota ainda no início do ano acendeu o alerta no setor exportador brasileiro, que quer controle estatal para as exportações para lá.

 

Os números divergem da contabilização oficial do Brasil, registrada pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O governo brasileiro considera o embarque de 229,85 mil toneladas de carne bovina para a China no primeiro bimestre deste ano, sendo 123,15 mil toneladas em janeiro e 106,70 mil toneladas em fevereiro.

 

Já os chineses monitoram o que entrou no país no período. Muitas cargas saíram dos portos brasileiros ainda em 2025 e só chegaram à China em 2026, depois do anúncio da imposição da cota.

 

Essa era uma das principais preocupações do setor exportador, levada ao governo brasileiro já no início de janeiro. Os frigoríficos pediram aos ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e das Relações Exteriores para negociar com a China a forma de utilização das cotas. O pedido foi para que embarques realizados em 2025 fossem desconsiderados, o que não ocorreu.

 

Em nota, a Abiec disse que os números mostram um ritmo acelerado de utilização da cota, com 33,64% já preenchidos no primeiro bimestre, o que "acende um sinal de alerta para o comportamento das exportações ao longo do ano".

 

A entidade afirmou que avalia o cenário com cautela, mas manifestou preocupação com a "velocidade de consumo, que pode gerar impactos relevantes no médio prazo, especialmente no segundo semestre".

 

A Abiec reforçou o pedido para que o governo brasileiro adote mecanismos de acompanhamento da utilização da cota. Em fevereiro, a entidade solicitou a criação de um sistema oficial de controle da cota. O Ministério da Agricultura encaminhou ofício à Câmara de Comércio Exterior (Camex) em que apoiava o pleito, mas a medida ainda não foi votada.

 

"A Abiec reforça a importância de que mecanismos sejam adotados pelo governo brasileiro para acompanhar de forma mais próxima a evolução desse cenário, diante das salvaguardas estabelecidas pela China. Essas medidas são essenciais para garantir maior previsibilidade, equilíbrio comercial e segurança nas relações entre os países", disse a entidade, em nota.

 

De acordo com os dados do governo chinês, as importações de carne bovina em geral já consumiram 23,36% da cota de 2,68 milhões de toneladas estabelecida para 2026. Além do Brasil, Austrália e Argentina também estão com ritmo acelerado de preenchimento do volume autorizado.

 

As exportações argentinas já somaram 103,2 mil toneladas, o que corresponde a 20,2% da cota anual de 511 mil toneladas. Já os australianos exportaram 71,9 mil toneladas, cerca de 35% do volume total autorizado para este ano, de 205 mil toneladas.

As importações chinesas de carne bovina do Uruguai somaram 35,1 mil toneladas, 10,8% da cota de 205 mil toneladas para o ano inteiro, e 19,3 mil toneladas da Nova Zelândia, o que equivale a 9,3% da cota de 206 mil toneladas.

 

Por outro lado, o comércio com os Estados Unidos está praticamente parado. Foi contabilizada a entrada de apenas 332 toneladas da proteína americana na China nos dois primeiros meses de 2026, cerca de 0,2% da cota de 164 mil toneladas atribuída aos frigoríficos dos EUA (Globo Rural, 20/3/26)