Caso Master exige melhora de normas republicanas – Editorial Folha
- Autoridades não deveriam manter encontros fora da agenda, como fez Lula com Vorcaro
- É preciso rever quarentenas, regular contratações de advogados parentes, dar transparência ao lobby e instituir código de ética no STF
Impressiona no caso Master a extensão da rede de pessoas importantes que o banco influenciou ou tentou influenciar. Os tentáculos da empresa de Daniel Vorcaro se espalham pelos Três Poderes e não conhecem barreiras geográficas.
O banqueiro mineiro buscava aproximar-se de autoridades dos mais diversos calibres. Revelou-se agora que Vorcaro foi recebido pelo próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), numa audiência sem registro oficial em fins de 2024.
Outra nova descoberta é que o Master pagou generosos honorários ao escritório de advocacia da família de Ricardo Lewandowski, que há apenas três semanas pediu demissão do posto de titular do Ministério da Justiça.
A isso se somam as histórias já bem divulgadas envolvendo os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, governadores, parlamentares de diversos partidos, o Tribunal de Contas da União e até gestores de fundos de pensão de cidades modestas.
A alcance das conexões de Vorcaro é espantoso, mas ao menos o fato de o Master ter sido liquidado pelo BC e as fraudes estarem sendo investigadas mostra que os esforços de cooptação do banqueiro não se mostraram infalíveis. É preciso agora manter a vigilância para que as devidas responsabilizações se materializem.
É imperativo também aprimorar regras e costumes republicanos a fim de evitar a repetição de situações vexatórias, para dizer o mínimo, como a atual. A primeira providência que Lula ou qualquer outra autoridade deveria adotar com urgência é não mais receber ninguém sem registro em agenda divulgada com transparência.
Decerto um presidente se encontra com pessoas de todos os tipos, sem ter como saber quem no futuro estará metido numa fraude ou algum outro crime. Mesmo nessas situações, é muito pior para o mandatário ter concedido uma audiência secreta do que teria sido receber uma figura sobre a qual não pairavam suspeitas graves com registro público.
Cumpre também revisar as regras de quarentena para os profissionais que saem da administração ou de carreiras de Estado, além de encontrar uma fórmula para lidar com o problema da contratação de advogados parentes de autoridades, que se tornou praga de difícil contenção.
Como tem defendido este jornal, é absolutamente necessário que o STF adote —já, não no próximo ano ou em um futuro indefinido— um código de conduta.
O filhotismo é só um dos fantasmas que assombram a corte. Outros são caronas em jatinhos, viagens suntuosas e palestras remuneradas por valores que só podem ser intuídos, já que permanecem secretos. Outra medida relevante seria uma regulamentação do lobby que confira alguma transparência a essa atividade.
O Estado democrático só é possível se há confiança dos cidadãos nas instituições. É justamente essa confiança que más condutas individuais põem em risco (Folha, 29/1/26)

