22/01/2026

Cassino, lancha e STF:O tombo bilionário de Dias Toffoli – Por Paula Sousa

Cassino, lancha e STF:O tombo bilionário de Dias Toffoli – Por Paula Sousa

Imagem Reprodução NPDiário

 

O Brasil de 2026 substituiu o humilde pedalinho de Atibaia por algo muito mais potente: uma lancha de 44 pés cortando as águas de uma represa no interior paulista. Enquanto o cidadão comum se preocupa com o preço do arroz, nos bastidores de Brasília o que move a engrenagem é o "exotismo jurídico". O epicentro dessa nova era atende pelo nome de Banco Master, capitaneado por Daniel Vorcaro, e tem como seu principal protetor — e agora prisioneiro de suas próprias decisões — o ministro Dias Toffoli.

 

O crime bilionário: Vento, papel e carbono

 

A base de toda essa opulência é um esquema que movimenta R$ 11,5 bilhões. Segundo investigações que circulam nos bastidores da capital, o Banco Master operava uma espécie de fábrica de ilusões financeiras: empréstimos fictícios que geravam títulos sem qualquer lastro real, vendidos entre bancos para inflar patrimônios.

 

Mas a cereja do bolo é a "economia verde". Conforme amplamente noticiado pela mídia, o grupo mergulhou no mercado de créditos de carbono, transformando a preservação ambiental em um balcão de negócios escusos. O fundo Hans 95, administrado pela Reag, chegou a apresentar uma rentabilidade surreal de 7 milhões por cento.

 

Para se ter uma ideia, isso é o equivalente a plantar uma semente e acordar dono de uma floresta inteira de ouro. Na prática, o que existia era grilagem de terras e tokens gerados ilegalmente em áreas indígenas no Amazonas por empresas como Global Carbon e Golden Green, todas sob o guarda-chuva da família Vorcaro.

 

Provas físicas: Entre lanchas e máquinas de tigrinho

 

Se o dinheiro parece abstrato, o luxo é bem sólido. Os repórteres Sam. Pancher, Valentina Moreira, Andresa Mata e André Shalders, do portal Metrópoles, fizeram o que a imprensa tradicional parece ter esquecido: foram a campo. No Taiayá Resort, funcionários que não sabiam estar diante de jornalistas foram enfáticos: o "dono" é Toffoli. O ministro passou a virada de ano no local com uma comitiva de 180 convidados.

 

Lá, os repórteres encontraram a evolução do símbolo da corrupção: uma lancha de luxo que, segundo o pessoal do resort, pertence ao ministro. Mas o toque de mestre é o entretenimento interno. Enquanto o governo persegue influenciadores pelo "jogo do tigrinho", o resort ligado ao magistrado abriga um cassino clandestino com máquinas de apostas. É a conveniência máxima: quem ousaria fazer uma batida policial no quintal de quem assina as ordens de prisão do país?

 

A teia familiar e os "amigos do amigo"

 

O esquema do Master não é um ato solitário. Ele é um ecossistema que irriga famílias inteiras. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zetel, tornou-se famoso por uma generosidade ímpar, presenteando uma nutricionista com um apartamento de R$ 2,6 milhões. O próprio Vorcaro, segundo o Metrópoles, teria garantido imóveis luxuosos para influenciadoras, as chamadas "sugar babies", como Carolina Trainot, que recebeu um mimo de R$ 4,3 milhões.

 

Mas o sangue azul do Judiciário também corre nessas veias financeiras. A conexão entre o resort e a teia de fundos fraudulentos de Vorcaro foi revelada pela Folha de S. Paulo e pelo O Estado de S. Paulo. Há ainda a sombra de outros ministros. Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes aparecem citados como partes dessa "trindade" de proteção mútua.

 

Afinal, Toffoli foi quem abriu o inquérito das fake news em 2019 para blindar a si mesmo quando o apelido "amigo do amigo do meu pai" surgiu nas planilhas da Odebrecht. Hoje, o favor parece ser retribuído em torno do Banco Master, cujos contratos alcançam até escritórios de advocacia de esposas de ministros.

 

A saída estratégica: O rato que abandona o navio

 

O castelo começou a balançar quando o influente advogado Valfrido Warde — que já teve a esposa de Toffoli como sócia — anunciou que deixaria a defesa de Daniel Vorcaro. O motivo? O medo de que o banqueiro decida abrir a boca em uma delação premiada. Quando o advogado que funciona como a "ponte" entre o réu e o tribunal sai de cena, é porque o solo não é mais firme.

 

Vorcaro está encurralado. A Polícia Federal avançou sobre seu pai e seu cunhado. Em Brasília, sabe-se que uma delação de Vorcaro não seria apenas um depoimento, mas um terremoto capaz de engolir o STF. Ele guarda os segredos das offshores nas Ilhas Virgens Britânicas, para onde teriam sido transferidos R$ 30 milhões de uma empresa ligada à família Toffoli logo após a mesma encerrar atividades.

 

O isolamento: A doença da conveniência

 

O jornalista Lauro Jardim levantou uma hipótese que parece mesmo ser o caminho que irão traçar: Toffoli está isolado. No Supremo, não há mais quem queira carregar o peso de suas "decisões heterodoxas" e exóticas que tentaram, nos últimos 50 dias, travar o trabalho da perícia técnica da PF nos celulares de Vorcaro.

 

A pressão é tamanha que a renúncia à relatoria do caso Master tornou-se inevitável. E como Brasília adora uma saída discreta, o motivo alegado deve ser um conveniente "problema de saúde". Sem o escudo de Toffoli, o Jornal da Cidade Online prevê que "coisas escabrosas" virão à tona. Sem o guardião do osso, o Banco Master vira carne exposta para os investigadores.

 

O que vemos não é apenas um escândalo bancário. É o retrato de um Brasil onde a lei é um elástico puxado ao máximo para proteger lanchas, resorts e cassinos privados, enquanto a "democracia" é usada como desculpa para manter o banquete aceso. Toffoli tenta resistir, mas até o cristal mais caro quebra quando a verdade bate forte na mesa. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 22/1/2026)