04/08/2025

Chantagem de Trump não melhora situação de Lula – Editorial Folha

Chantagem de Trump não melhora situação de Lula – Editorial Folha
  • Datafolha revela que continua ruim a avaliação do petista e acirrada a disputa pelo Planalto em 2026
  • Ao não fazer um governo de conciliação com público centrista que votou nele em 2022, presidente agora tem margem de manobra reduzida

 

A crise desencadeada pela chantagem de Donald Trump contra o Brasil até agora não melhorou, a contrapelo do que alguns previam, a popularidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem as perspectivas de reeleição do presidente no pleito de outubro de 2026.

 

A bateria de perguntas realizadas pelo Datafolha com uma amostra representativa do eleitorado nacional, três semanas após Trump anunciar o tarifaço sobre as exportações brasileiras por razões políticas, revela um quadro complexo da reação à inusitada e gravosa agressão estrangeira.

 

Dos entrevistados, 57% repudiam a tentativa do governante dos EUA de interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado. Mas o que configura certa surpresa é uma parcela volumosa, de 36%, apoiar o chefe da Casa Branca na motivação declarada para a sanção econômica.

 

Outro indício da camada de gelo fino sobre a qual caminha a política brasileira é o fato de 45% concordarem que Bolsonaro é perseguido e injustiçado. Apoiam a medida de impedir a entrada do ministro Alexandre de Moraes nos EUA 47% dos consultados.

 

A manutenção da má avaliação de seu governo —40% continuam tachando-o de ruim ou péssimo— e as simulações de desempenho eleitoral sobre o pleito de outubro de 2026 completam o diagnóstico de que a situação política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não melhorou após o achaque do chefe da Casa Branca.

 

Neste último aspecto, ressalta a elevada rejeição a uma provável candidatura do presidente à reeleição, com 47% dos entrevistados declarando que não votariam no petista de jeito nenhum. Lula lidera com folga nos cenários de primeiro turno, mas nos de segundo turno a sua folga é mínima em algumas hipóteses.

 

Enquanto há tumulto para definir se haverá —e, nesse caso, de quem será— a candidatura única da oposição à direita, isso parece mudar pouco o fato de que o nome que lograr passar para o segundo turno, qualquer que seja ele, tende a ser competitivo.

 

Isso ocorre porque a população parece continuar tão dividida quanto se mostrou nas eleições presidenciais de 2022. Cerca de metade confia no presidente Lula, enquanto a outra metade o rejeita. É a típica situação em que movimentos tênues de eleitores centristas definem o vencedor.

 

Esse cenário já estava claro no início do mandato e recomendava que Lula fizesse um governo de conciliação com algumas pautas dos eleitores não petistas que circunstancialmente votaram nele naquela eleição. Mas temas como a prudência orçamentária e a modernização da economia foram desprezados na sua terceira passagem pela Presidência.

 

Agora a margem de manobra do presidente se estreitou a ponto de não conseguir tirar vantagem de um fato que seria potencialmente benéfico para ele. Fica a lição de que, quanto mais Lula marchar para a esquerda, menor ficará sua chance de reeleição (Folha, 3/8/25)