03/02/2026

Código de ética 'alemão' vira prioridade de Fachin no STF

Código de ética 'alemão' vira prioridade de Fachin no STF

Fachin quer marcar sua presidência no STF com implementação de um código de conduta. Modelo é criticado por parte da Corte. Foto: Gustavo Moreno/STF

 

Presidente da Corte indicou Cármen Lúcia como relatora de projeto de conjunto de regras baseado em documento similar do Tribunal Constitucional da Alemanha. Objetivo é orientar conduta dos ministros.

 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin anunciou nesta segunda-feira (02/02), em discurso na sessão de abertura do ano judiciário, que dará prioridade à criação de um código de ética para a Corte durante sua presidência. Ele afirmou que o momento é de "ponderações e autocorreção" no Judiciário e que o projeto terá a relatoria da ministra Cármen Lúcia .

 

"No plano interno, destaca-se a promoção do debate institucional sobre integridade e transparência. Agradeço, de público, a eminente ministra Cármen Lúcia por ter aceitado a relatoria da proposta de um Código de Ética, compromisso de minha gestão para o STF", disse Fachin durante a fala. 

 

Ainda não há uma minuta pronta do conjunto de regras para a instância máxima da Justiça brasileira, cuja primeira reunião para criação de um cronograma está prevista para 12 de fevereiro. No entanto, como mostrou a DW, as bases dele são inspiradas em um documento similar do Bundesverfassungsgericht (BVerfG, na sigla em alemão), o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, publicado em 2018. O objetivo é orientar a conduta dos ministros da Corte.

 

Durante seu discurso, Fachin também ressaltou a atuação do STF na defesa do processo democrático e do sistema eleitoral e ao evitar "erosões constitucionais". O presidente da Corte fez também um apelo ao consenso na política brasileira. 

 

"O momento histórico é também de ponderações e de autocorreção. É hora de um reencontro com o sentido essencial da República, da tripartição real de Poderes e da convivência harmônica e independente, com equilíbrio institucional. Somos todos chamados a essa arena", declarou o presidente do STF. 

 

Ministros sob pressão

 

A fala ocorre em um momento em que o Supremo vem sendo alvo de críticas pelas ligações de ministros com o Banco Master , epicentro de um escândalo bilionário que envolve suposta fraudes em créditos .

 

O principal implicado é Dias Toffoli, que atua como relator do caso . Investigações da Polícia Federal apontaram que um fundo de investimentos ligado ao Master comprou participações no resort Tayayá, cuja propriedade é de familiares do ministro.

 

Ministro Dias Toffoli é alvo de críticas por proximidade com envolvidos no caso do Banco Master, em que ele é o relator na Corte. Foto: Eraldo Peres/AP Photo/picture aliance

 

Além disso, Toffoli viajou para o Peru, em 2025, no mesmo jato em que estava Augusto Arruda Botelho, ex-secretário nacional de Justiça de Lula e advogado de defesa de Luiz Antônio Bull, diretor de compliance do Master.

Em janeiro deste ano, Fachin emitiu uma nota oficial defendendo a atuação do STF e a relatoria de Toffoli à frente do caso Master.

 

Já o ministro Alexandre de Moraes negou ter participado de um encontro com o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa, no primeiro semestre de 2025, na casa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. A suposta reunião foi noticiada pelo portal Metrópoles.

 

Antes da liquidação do Master pelo Banco Central, o escritório de advocacia Barci de Moraes, que pertence à família do ministro, prestou serviços ao banco de Vorcaro .

 

Consenso em meio a resistências

 

A criação do código de ética tem sido discutida desde o ano passado, mas vem enfrentando resistências dentro da Corte.

O ministro Gilmar Mendes afirmou que não ser contrário à iniciativa, mas defende que as regras para a conduta dos ministros já estão definidas na legislação brasileira.

 

Já para Moraes "não há a mínima necessidade" do conjunto de regras. "Os ministros do Supremo já se pautam pela conduta ética que a Constituição determina", disse ele à Folha durante o Fórum Jurídico de Lisboa, evento de palestras promovido por Gilmar Mendes.

Modelo alemão foi criado para blindar a Corte da opinião pública alemã. Foto: Sean Gallup/Getty Images

 

STF visa regras do modelo alemão

 

Na Alemanha, o código de conduta discutido entre os 16 juízes da Corte foi publicado em 2018 como uma forma de blindar da instituição junto à opinião pública alemã e também de ataques de governo estrangeiros.

 

Intitulado "Diretrizes de Conduta para Juízes do Tribunal Constitucional", o código alemão criou uma plataforma própria de transparência em que os juízes do BVerfG divulgam valores recebidos pela publicação de livros e artigos, palestras e participações em eventos independentes.

 

Além disso, o documento alemão proíbe os juízes que deixaram o BVerG de atuar em processos no Tribunal que estavam pendentes durante os seus mandatos ou que estejam diretamente relacionados a eles. 

 

Também há regras para que as declarações a veículos de imprensa "sejam compatíveis com as funções dos entrevistados, com a reputação do tribunal e a dignidade do cargo" (DW, 2/2/26)