Com Vorcaro no foco, pior para Flávio; com Moraes, Lula que se cuide
Investigação sobre Daniel Vorcaro respingou em Alexandre de Moraes e no STF. Foto Reprodução/Banco Master e Wilton Junior/Estadão
Por Eliane Cantanhêde
Se há ainda estrago a ser feito é contra o presidente, que não é suspeito de envolvimento direto e grave com Vorcaro, como Flávio, mas embolou-se irresponsavelmente com Moraes, como se fossem aliados políticos
A crise sem precedentes no Supremo, devastadora para o humor nacional e a já frágil confiança nas instituições, afeta as eleições. Sem programas de governo que tenham propostas reais e factíveis, a base de eleitores e eleitoras para votar é o mar de lama e a nociva sensação de que “são todos iguais, ninguém presta, não temos para onde correr”. Daí os dois dígitos do outsider Augusto Cury.
O escândalo bilionário do onipresente Daniel Vorcaro atinge direita, esquerda e principalmente Flávio Bolsonaro, que se jogou na rede ao pedir a bagatela de R$ 134 milhões para o banqueiro, a quem chamou de “irmão”. Mas, ao destroçar a reputação do ministro Alexandre de Moraes e rachar de vez o STF, o caso respinga no presidente Lula.
O estrago contra Flávio já foi feito e, até surgirem novas revelações, atingiu o teto. Se há ainda estrago a ser feito é contra Lula, que não é suspeito de envolvimento direto e grave com Vorcaro, como Flávio, mas embolou-se irresponsavelmente com Moraes, como se fossem aliados políticos, do mesmo time.
Lula não só tomou partido e se meteu onde não devia durante o julgamento da trama do golpe, reforçando o discurso bolsonarista de que havia motivação político-partidário na decisão, como foi imprudente ao fazer negociações políticas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na casa de Moraes, em plena campanha eleitoral. Desde quando ministro do STF participa de campanha?
Impacto do escândalo do Judiciário nas eleições é tema de comentários de Marcelo de Moraes.
O time de Moraes na crise do Supremo inclui Gilmar Mendes, Dias Toffoli, e o próprio Alcolumbre, que está mergulhado em tudo. Como dizer que Lula não faz parte desse time? Logo, o fator Xandão pode enfraquecer Lula, exatamente quando sua vantagem sobre Flávio no segundo turno vai se esvaindo, evolui para empate e já não é impossível que as duas linhas se cruzem, com Flávio à frente.
Arrogante e voluntarioso, Moraes não explica, nem tem como explicar, o contrato de R$ 131 milhões com Vorcaro, jato Legacy, helicóptero e cartão de crédito com limite de R$ 300 mil para os filhos. Muito menos, as 51 mensagens que recebeu do então banqueiro em 21 dias, em que fica óbvio que passava informações sigilosas e agia para tentar salvá-lo, tanto da prisão quanto da liquidação do Master.
Sem defesa, Moraes ataca o relator do caso Master, André Mendonça, até com rascunho sem timbre, assinatura ou qualquer valor, o que só revela seu desespero e foi descartado pelo presidente do STF, Edson Fachin. O antes todo-poderoso Xandão está nos estertores e se permite arrastar o Supremo e as instituições com ele, transformando-se, de defensor, em ameaça à democracia.
O efeito eleitoral, a ser conferido nas novas pesquisas, parece claro. Com o foco do escândalo Master em Vorcaro, o principal prejudicado na campanha era seu “irmão” Flávio. Quando esse foco desvia para Moraes, que se debate em movimentos primários e descoordenados, quem tende a pagar o pato é Lula.
Conclusão: Xandão e Lulinha são o maior risco a um quarto mandato de Lula e, portanto, os maiores cabos eleitorais de Flávio, no bordão da campanha petista, “o pior dos Bolsonaro” (Estadão,6/9/26)

