Corrupção no Brasil não é 'conversa de boteco'– Editorial Folha de S.Paulo
- País fica no 107º lugar em ranking inernacional e, desde 2012, não supera nota 43 numa escala de 0 a 100
- Com 35 pontos, fomos superados por Uruguai (73) e Chile (63); em vez de recorrer a subterfúgios, autoridades devem combater o problema
O Brasil ainda vai mal no Índice de Percepção da Corrupção, cuja edição de 2025 foi divulgada na terça (10). Numa escala de 0 a 100 (quanto mais alta a pontuação, maior a sensação de integridade), o país obteve vexatórios 35 pontos e ficou em 107º lugar entre as 182 nações avaliadas pela ONG Transparência Internacional.
Ficamos abaixo da média mundial (42 pontos) e de vizinhos como Uruguai, o mais bem colocado da América do Sul com 73 pontos (17ª posição), e Chile (63). No topo da lista, estão Dinamarca (89 pontos), Finlândia (88) e Cingapura (84); no fim, Venezuela (10), Somália e Sudão do Sul (9).
Na edição de 2024, o Brasil marcou apenas um ponto a menos, o que em termos estatísticos indica mais estagnação do que melhora. Na série histórica, iniciada em 2012, a nota mais alta foi alcançada em 2012 e 2014 (43), e a pior foi a do ano passado (34).
Autoridades não recebem bem o IPC. Em 2024, o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Vinícius Marques de Carvalho, qualificou o ranking como "conversa de boteco" e, neste ano, a mesma CGU afirma que o índice não mede a corrupção real.
Deve-se ressaltar, contudo, que essa não é a pretensão do indicados. Afinal, tanto corruptos como corruptores têm interesse em manter suas transações longe do escrutínio público, o que faz do crime um fenômeno quase impossível de medir.
Ciente da dificuldade, o índice verifica a percepção da corrupção por especialistas e empresários.
Para isso, a metodologia articula dados relativos a sinais de desvios e de integridade institucional coletados por 13 organizações —como a Freedom House, o V-Dem, o Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial (FMI) e a Unidade de Inteligência da revista The Economist.
Os comportamentos inadequados incluem suborno, desvio de dinheiro público, uso de cargo público para ganho privado e nepotismo. Não é um indicador perfeito, porém é um exercício que permite fazer comparações razoavelmente padronizadas entre os vários países analisados e num mesmo país ao longo do tempo. Trata-se da estimativa possível para um problema tão difícil de mensurar objetivamente.
Assim, em vez de usar metodologia como subterfúgio, autoridades deveriam ao menos admitir a gravidade dos dados e participar do debate sobre as ações necessárias para conter esse flagelo da administração pública brasileira.
Se há algo surpreendente no IPC de 2025 é a estabilidade do indicador, em vez da sua queda. Há muito tempo o país não mostra avanços significativos em transparência e combate à corrupção.
Ademais, foi um ano de más notícias para a integridade institucional, como venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ), avanço nefasto de emendas parlamentares, escândalos do INSS e do Banco Master Master e relações promíscuas entre alguns membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e empresários com interesses na corte (Folha, 12/2/26)

