20/08/2026

Das laranjas de Limeira aos mercados do mundo – Por Rodrigo Simões

Das laranjas de Limeira aos mercados do mundo – Por Rodrigo Simões

Os registros preservados por Otacílio Tomanik revelam que, em 1937, o cooperativismo paulista já enfrentava desafios que permanecem familiares ao agro moderno: acesso aos mercados, logística, transporte, concorrência internacional e organização coletiva para transformar produção em oportunidades.

 

Há documentos que registram acontecimentos. Outros, quando revisitados muitas décadas depois, ajudam a compreender como determinados caminhos começam a ser construídos. Entre as páginas datilografadas e cuidadosamente preservadas nos antigos volumes do Departamento de Assistência ao Cooperativismo da Secretaria de Agricultura de São Paulo, Otacílio Tomanik deixou um dos seus relatos. O título, escrito com objetividade própria dos documentos da época, já anunciava a dimensão do problema: “A questão de praça para as laranjas de cooperativas paulistas – Missão Econômica Holandeza”.

 

Era 1937. A citricultura paulista avançava, as cooperativas buscavam novos mercados e a exportação começava a exigir algo que permanece essencial quase nove décadas depois: não bastava produzir. Era preciso conseguir fazer a produção chegar ao comprador.

 

Tomanik tomou como exemplo o que ocorrera com a Cooperativa dos Citricultores de Limeira. No final de fevereiro daquele ano, um integrante de seu Conselho de Administração procurou diretamente o Departamento de Assistência ao Cooperativismo para solicitar providências. A preocupação era concreta: garantir que as companhias de navegação reservassem espaço para as laranjas da cooperativa na exportação da safra seguinte.

 

O problema chegou ao Departamento e, conforme o próprio relatório registra, foi tratado de maneira exaustiva.

 

Um funcionário, acompanhado pelo despachante da cooperativa, procurou representantes de uma companhia de navegação par compreender por que havia dificuldade na concessão das chamadas “praças” – os espaços necessários nos navios para o embarque das frutas. A explicação recebida indicava que, no ano anterior, carregadores teriam feito pedidos antecipados de espaço em quantidade superior à efetivamente utilizada, causando prejuízos às companhias.

 

O episódio poderia parecer apenas uma questão operacional. Nas páginas de Tomanik, entretanto, ganha outra dimensão.

 

O Departamento procurou estudar detalhadamente o problema, rever pedidos, verificar garantias e buscar uma solução que atendesse aos produtores. O relato deixa evidente uma característica importante daquele cooperativismo ainda em consolidação: diante de uma dificuldade individual, procurava-se construir uma resposta coletiva e institucional.

 

Tomanik percebeu também que havia um risco maior. Se não existisse um sistema capaz de garantir espaço para o escoamento dos produtos das cooperativas, o problema poderia se repetir a cada safra. Por isso, registrou a conveniência da criação de uma organização mais estruturada, capaz de negociar as praças necessárias e exportar os produtos das filiadas, obedecendo às exigências de previsão e organização do comércio.

 

É difícil ler esse trecho hoje sem estabelecer um paralelo com o agro contemporâneo.

 

Mudaram os navios, os portos, as tecnologias, os sistemas de armazenamento e rastreamento e a velocidade das negociações. Mas a logística continua sendo parte decisiva da competitividade. Produzir com qualidade é apenas uma etapa. Armazenar, transportar, encontrar compradores e acessar mercados em condições competitivas continuam sendo desafios fundamentais para que produz.

 

Tomanik registra o que considerava um “resultado magnífico”. A partir das tratativas realizadas, vislumbrava-se a possibilidade de o capital holandês atuar no Brasil por intermédio das próprias cooperativas de fruticultores. Segundo o documento, havia na Holanda recursos considerados suficientes e interesse na procura, colocação e compra de produtos brasileiros, além de linhas regulares de vapores frigoríficos capazes de transportar grande parte da produção frutícola nacional.

 

O registro revela uma visão supreendentemente ampla para aquele momento.

 

Não se discutia apenas o espaço de algumas caixas de laranjas em um navio. Estavam sobre a mesa temas como cooperativismo, financiamento, logística, comércio exterior, abertura de mercados e competitividade internacional.

 

Tomanik foi ainda mais longe. Entendia que os resultados poderiam estimular a concorrência entre holandeses e compradores britânicos e que essa movimentação também poderia contribuir para solucionar a própria dificuldade de obtenção de espaço nos vapores destinados aos portos brasileiros.

 

Vista quase 90 anos depois, aquela discussão parece extraordinariamente contemporânea. Hoje falamos em corredores logísticos, infraestrutura portuária, novos destinos para as exportações, agregação de valor, diversificação de mercados e redução dos custos de transporte. Em 1937, com outras palavras e diante de uma realidade tecnológica completamente diferente, muitos desses elementos já ocupavam a atenção de quem trabalhava pelo fortalecimento do cooperativismo paulista.

 

Mas talvez o aspecto mais valioso dessas páginas não esteja apenas nas soluções propostas.

 

Está na forma como Otacílio Tomanik decidiu registrar tudo isso.

 

Em uma época muito anterior aos computadores, bancos de dados e arquivos digitais, acontecimentos como aquele foram datilografados, organizados e reunidos em volumes cuidadosamente encadernados. Preservados ao longo das décadas na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, esses documentos permitem hoje reconstruir não somente fatos, mas também o pensamento de uma geração que enxergava no cooperativismo uma ferramenta de organização econômica e desenvolvimento.

 

Tomanik aparece, assim, como muito mais do que o responsável por relatórios administrativos. Seu cuidado em registrar problemas, negociações, propostas e resultados acabou transformando aquelas páginas em testemunhos de uma época. Um verdadeiro guardião da memória do cooperativismo paulista.

 

A história das laranjas de Limeira é um exemplo perfeito.

 

O que começou como a dificuldade de uma cooperativa em conseguir espaço para embarcar sua produção tornou-se uma discussão sobre organização, comércio internacional, financiamento e logística. E aquilo que poderia ter desaparecido com o passar das décadas permaneceu preservado porque alguém compreendeu a importância de registrar.

 

É essa talvez uma das grandes lições deixadas pelas páginas de Otacílio Tomanik: a história do agro não é feita somente por aquilo que se produz no campo, mas também pelas ideias, instituições e pessoas que ajudam essa produção a encontrar caminhos.

 

Em 1937, o desafio era conseguir praça nos vapores para que as laranjas paulistas atravessassem o oceano.

 

Quase nove décadas depois, os meios mudaram e o agro paulista alcançou dimensões que aqueles pioneiros dificilmente poderiam imaginar. Mas permanece a mesma necessidade de planejar, organizar, cooperar e abrir mercados.

 

E é justamente por isso que aqueles antigos livros continuam tão atuais.

 

Preservar suas páginas é preservar a memória de um tempo em que São Paulo já começava a descobrir que produzir era fundamental – mas encontrar caminhos para levar sua produção ao mundo era igualmente decisivo (Rodrigo Simões, Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 20/8/26)