El Niño pode atrasar plantio de grãos,reduzir safras e dificultar pecuária
- Fenômeno climático altera distribuição das chuvas e gera impactos diferentes nas regiões do Brasil
- Culturas diversas, como soja, milho, café, trigo e hortaliças, podem ser afetadas
A chegada do El Niño traz uma série de ameaças para o agronegócio brasileiro a partir do segundo semestre deste ano.
Conforme analistas, o fenômeno climático pode gerar impactos como o atraso no plantio de grãos como soja e milho, redução ou perda de qualidade de safras e dificuldades para a pecuária.
O evento é considerado um desafio adicional para o agronegócio, que já lida com o contexto de juros elevados no Brasil e a pressão de custos de produção devido à guerra no Irã –o conflito gerou choque no mercado de fertilizantes e de diesel.
"A produção agropecuária brasileira está espalhada em diversas porções do território, então não há um único impacto do El Niño. Cada região deve sentir [o fenômeno] de um jeito", afirma o pesquisador Felippe Serigati, do centro de estudos FGV Agro.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico na região da linha do Equador, o que altera a distribuição das chuvas e as temperaturas.
Há quem fale em um super El Niño a caminho. A palavra "super" não é um termo técnico, mas é incluída para destacar a possível intensidade do novo fenômeno na comparação com episódios anteriores.
A chance de um evento muito forte no final do ano subiu para 81%, conforme informação divulgada nesta quinta-feira (9) pela Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), dos Estados Unidos.
"A gente sabe que vai ter um El Niño, mas ainda não tem a dimensão das possíveis perdas caso os eventos sejam extremos", afirma o pesquisador Leandro Gilio, do centro de estudos Insper Agro Global.
Ele cita ameaças à produção de grãos, cana-de-açúcar e hortaliças. Os preços dos itens de hortifruti, que têm um ciclo de produção mais curto, costumam responder de maneira mais rápida a choques de oferta.
Economistas aumentaram as previsões para a inflação dos alimentos devido aos efeitos da guerra no Irã e ao evento climático extremo.
COMO AS REGIÕES SÃO AFETADAS PELO EL NIÑO?
Tradicionalmente, o El Niño traz a ameaça de chuvas abaixo da média e de períodos de seca em áreas do Norte e do Nordeste do Brasil, segundo relatório do Itaú BBA que trata dos eventuais reflexos para o agronegócio.
Em paralelo, o evento gera chance de precipitações irregulares e ondas de calor em partes do Centro-Oeste e do Sudeste. Para o Sul, há risco de chuvas e temperatura acima da média, com possibilidade de inundações, acrescenta a publicação.
O relatório classifica os riscos do El Niño para cada região em três níveis: alto, médio-alto e médio. Cada grau indica a probabilidade de os efeitos projetados se concretizarem, considerando o histórico do fenômeno e a consistência dos padrões climáticos em episódios anteriores.
Lugares classificados com risco alto têm chance maior de enfrentar os impactos. São os casos de regiões como o Matopiba (áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), com possibilidade de seca severa, e o Sul, com eventual excesso de chuvas.
"Se houver problemas de produção, haverá um aperto na oferta, o que deve levar à alta dos preços, principalmente dos grãos", afirma o analista Francisco Queiroz, da consultoria Agro do Itaú BBA.
POSSÍVEL ATRASO NA SAFRA
Segundo o consultor Gabriel Viana, da Safras & Mercado, o período de plantio da soja, carro-chefe da produção de grãos, costuma se estender de setembro a dezembro no país, variando entre as regiões.
Em locais como o Centro-Oeste, destaque nacional na atividade, a irregularidade das chuvas pode atrasar o cultivo da oleaginosa. Caso se confirme, o cenário também reduziria a janela para o plantio do milho safrinha, que vem na sequência da soja, aponta o consultor.
"Não podemos quebrar a safra antes da hora, mas tudo está se encaminhando para problemas com o El Niño. Os mapas [climáticos] estão feios", diz.
No Sul, além da soja, outro produto ameaçado é o trigo, que pode perder qualidade, diz Viana. No caso do Sudeste, o analista cita riscos a culturas como o café.
Danyella Bonfim, assessora técnica da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), afirma que um dos principais alertas vem da previsão de chuvas irregulares em áreas do Centro-Oeste e do Sudeste.
"Qualquer atraso nas chuvas pode comprometer a janela de plantio. Há muita preocupação com esse efeito dominó", diz a analista, que também cita os riscos de escassez hídrica em áreas do Norte e do Nordeste, como o Matopiba, e de chuvas em excesso no Sul.
PECUÁRIA TAMBÉM FICA SOB RISCO
Especialistas acrescentam que o fenômeno pode comprometer a qualidade das pastagens, com reflexos na pecuária, presente em diferentes regiões do país.
Menos pasto tende a exigir mais ração para a alimentação do gado. A questão é que os custos de insumos da ração, como soja e milho, podem ser pressionados em caso de perdas nas lavouras.
Segundo Francisco Queiroz, do Itaú BBA, problemas no milho ainda levariam à alta no preço de proteínas como a carne de frango. "O aumento de custos de produção acaba sendo repassado para o consumidor final", diz.
Além de mencionar os eventuais impactos na pecuária e os atrasos no plantio de soja e milho, Felippe Serigati, do FGV Agro, cita o caso do arroz.
Cerca de 70% da produção nacional desse alimento é concentrada no Rio Grande do Sul. Em caso de volumes excessivos de chuva no estado, o cereal pode perder qualidade, conforme Serigati.
O agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, sócio da consultoria Rural Clima, diz que o El Niño "preocupa muito", mas considera "muito prematuro" falar em uma catástrofe para a safra de grãos.
Ele afirma que pode "chover cedo" no Brasil neste ano, o que ajudaria o plantio de soja nos meses de setembro e outubro.
Há, contudo, risco de escassez hídrica em regiões como a do cerrado em novembro e dezembro, o que pode atrapalhar o desenvolvimento dos grãos, segundo Santos.
"O clima sempre é uma preocupação. A única coisa é que, neste ano, o alarmismo começou cedo. Já teve outros anos em que se falava em aumento de chuva, outros em diminuição, e às vezes isso muda", afirma Lucas Costa Beber, presidente interino da Aprosoja Brasil (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) e presidente da Aprosoja Mato Grosso.
"O produtor tem que ter boas práticas independentemente do clima, fazer primeiro a parte que ele pode fazer." Ele também fala em preocupação com o eventual atraso na janela de plantio (Folha, 12/7/27)
El Niño pode ser o mais forte desde 1950; entenda efeitos no agro

Efeitos do El Niño não serão uniformes no país, e também devem ser acompanhados no mercado global
A perspectiva de um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados adiciona uma nova camada de risco à produção agropecuária no Brasil e no mundo. Se as projeções se confirmarem, o fenômeno pode alterar o regime de chuvas em diversas regiões do país, afetando desde o plantio da soja até a formação da próxima safra de café, além de trazer impactos para a pecuária, o leite e até para os preços de algumas commodities.
Segundo a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), este pode ser o El Niño mais intenso desde 1950, quando começaram as medições do fenômeno.
No Brasil, o padrão climático associado ao El Niño costuma aumentar as chuvas no Centro-Sul e reduzir as precipitações no Norte e no Nordeste. Na prática, isso significa que algumas regiões podem enfrentar excesso de água, enquanto outras convivem com seca e temperaturas acima da média.
Embora ainda seja cedo para estimar perdas de produção, o avanço das previsões climáticas faz com que produtores, tradings e analistas passem a monitorar com mais atenção a evolução do fenômeno nos próximos meses, período considerado decisivo para o início da safra 2026/27 no Brasil.
Soja e milho
As duas principais culturas do país aparecem entre as mais vulneráveis às alterações climáticas provocadas pelo El Niño.
O período entre julho e setembro é considerado decisivo porque antecede o início do plantio da soja. Caso as chuvas atrasem ou ocorram de forma irregular, produtores podem ser obrigados a replantar áreas e adiar a semeadura.
O efeito vai além da soja. Um plantio mais tardio reduz a janela ideal para o milho de segunda safra, aumentando a exposição da cultura à falta de chuvas no fim do ciclo. O mesmo pode acontecer para a cultura do algodão.
Em 2024, último ano de El Niño, aproximadamente 2,9 milhões de hectares de soja precisaram ser replantados no Brasil em razão de problemas climáticos.
Ainda assim, especialistas avaliam que um evento forte não significa necessariamente uma quebra generalizada da produção nacional.
"Após quatro anos de margens comprimidas, com oferta abundante e desafios persistentes do lado dos custos, o setor agora se depara com um El Niño que se desenha forte, trazendo riscos relevantes para a produtividade, ainda que de forma heterogênea entre regiões", afirma Cesar de Castro Alves, gerente da consultoria agro do Itaú BBA, em relatório.
Segundo ele, historicamente os maiores impactos recaem sobre a soja produzida no Cerrado e, principalmente, sobre o milho de segunda safra. "No Sul do país, bem como na Argentina e no Paraguai, o principal risco é o excesso hídrico", afirma.
Na avaliação do Itaú BBA, o mercado global também está mais sensível a possíveis perdas de produção. Isso porque, após a safra 2025/26, a produção mundial de soja praticamente igualou o consumo, interrompendo o processo de recomposição dos estoques.
No caso do milho, embora a boa safrinha de 2025/26 mantenha o abastecimento doméstico confortável no curto prazo, o banco destaca que a demanda continua aquecida, puxada pela produção de proteínas animais e pelo etanol, o que mantém o risco climático no radar para a safra 2026/27.
Café
O café também está entre as culturas que exigem maior atenção. As chuvas fora de época já vêm interferindo na colheita em algumas regiões produtoras, como Minas Gerais.
Agora, o foco do setor se volta para a florada, etapa fundamental para a formação da safra seguinte. Caso o clima atrapalhe esse processo, a recuperação dos estoques pode voltar a ficar comprometida depois da forte valorização dos preços observada nos últimos anos.
Segundo o Itaú BBA, a expectativa ainda é de uma safra recorde de café em 2026/27, impulsionada pela recuperação da produção de arábica. Mesmo assim, o banco ressalta que o cenário para 2027/28 permanece incerto por causa dos possíveis efeitos do El Niño sobre as floradas.
Pecuária
Os impactos não ficam restritos às lavouras. Ondas de calor previstas para estados como Mato Grosso podem afetar diretamente o desempenho dos animais.
Além disso, caso soja e milho sofram perdas e os preços dos grãos subam, o custo da alimentação de aves, suínos e bovinos tende a aumentar.
No mercado de leite, o Rabobank avalia que o excesso de chuvas no Sul pode reduzir a produção em importantes estados produtores, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ao mesmo tempo, condições mais secas no Sudeste e no Nordeste também podem limitar a oferta nessas regiões.
Efeitos heterogêneos
Os efeitos do El Niño não serão uniformes no país. Na região Norte, por exemplo, a expectativa de chuvas muito abaixo da média aumenta o risco de seca, queimadas e perdas em culturas como cacau, mandioca, açaí e soja. Além disso, a baixa do nível de rios pode prejudicar o escoamento de produtos pela região do Arco Norte.
No Matopiba, importante fronteira agrícola formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a previsão de pouca chuva e temperaturas elevadas amplia o risco de seca e quebra de safra.
Em Mato Grosso, a preocupação está na irregularidade das chuvas e nas temperaturas elevadas, que podem reduzir a produtividade de soja, milho e algodão.
Em Mato Grosso do Sul e Goiás, o principal desafio tende a ser o calor durante o período de plantio da safra de grãos.
Na região Sudeste, café, laranja, cana-de-açúcar, soja e milho podem enfrentar um cenário de chuvas irregulares e calor acima da média.
Já no Sul do país a combinação de calor e chuvas acima da média aumenta o risco de enchentes e da incidência de doenças fúngicas em culturas como soja, milho, trigo, arroz e tabaco.
Impactos podem chegar ao mercado global
Os efeitos do fenômeno também devem ser acompanhados fora do Brasil.
O Rabobank avalia que um El Niño intenso pode reduzir a produção de açúcar na Ásia, o que tende a influenciar o mercado internacional da commodity.
Para o cacau, o fenômeno provoca temperaturas mais elevadas e redução das chuvas em partes da África Ocidental, diminuindo a umidade do solo. As condições podem provocar estresse hídrico, especialmente para a cultura do cacau, que tem até 70% da produção global concentrada na região (CNN, 12/7/26)

