01/09/2026

Empresa que usou lobby de amiga de Lulinha fechou contratos de R$ 81 mi

Empresa que usou lobby de amiga de Lulinha fechou contratos de R$ 81 mi

Da esq. para a dir.: Cleber Ribas, da 3Structure; Lorena Macedo, subsecretária do MA; Fábio Macedo, deputado federal e marido de Lorena; Roberta Luchsinger, lobista; Lulinha, filho do presidente. Foto Reprodução

3Structure, de Cleber Ribas, atua em 6 órgãos federais desde novembro de 2022; empresa diz que participou de licitações e todos os contratos são lícitos.

A empresa de tecnologia para a qual a lobista Roberta Luchsinger atuava fechou mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O valor global dos negócios da 3Structure, firma de Florianópolis (SC), de Cleber Ribas, na esfera federal é ainda maior. A Telebras não divulga o valor do contrato de cinco anos celebrado com a firma em 2024.

Em nota, a empresa afirmou que ganhou licitações “em estrito cumprimento das normas aplicáveis às contratações públicas” e que “todos os contratos foram firmados com a mais absoluta transparência e sem o favorecimento de quem quer que seja”.

A defesa de Roberta Luchsinger não se manifestou.

As investigações da Polícia Federal apontam que Roberta foi contratada por Ribas para intermediar interesses dele com órgãos públicos. Ainda segundo a PF, a suspeita é de que a lobista atuava em sociedade oculta com Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho de Lula.

Como revelou o Estadão, a PF diz que Lulinha é citado em diálogo de Roberta com Cleber Ribas como “destinatário de pagamentos e de benefícios” do empresário. Valores ainda não foram detalhados.

Os R$ 81 milhões são referentes a seis contratos firmados pela 3Structure, de Cleber Ribas, com órgãos federais. Todos fechados via pregão eletrônico ou ata de registro de preços. Cinco deles foram assinados a partir de 2023, na gestão Lula. O outro foi em novembro de 2022, quando o petista já estava eleito.

O empresário Cleber Ribas de Oliveira. Foto @3structure_it via Instagram

Os serviços estão relacionados a serviços de tecnologia, como soluções para backup, softwares e expansão de serviços de armazenamento. Todos estão em vigor.

O contrato do fim de 2022 foi com o Exército, por R$ 21,8 milhões. No mês passado, foi assinado um termo de aditivo de R$ 3,6 milhões.

Os contratos mais robustos da empresa com o governo são com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). São dois, ambos obtidos via pregão eletrônico, um tipo de licitação.

Amiga de Lulinha, a empresária Roberta Luchsinger entrega livro autografado por Paulo Coelho ao ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias. Foto Ministério do Desenvolvimento Social Divulgação

Em dezembro de 2023, a pasta contratou a empresa de Cleber Ribas por R$ 31,2 milhões. Em novembro de 2025, houve um aditivo de R$ 2,7 milhões. E em abril deste ano o ministério celebrou um novo contrato com a empresa, de R$ 19,2 milhões. Ao todo, a companhia deve receber R$ 53,1 milhões da pasta até 2031.

Como mostrou o Estadão, 17 das mais de 40 visitas feitas por Roberta Luchsinger a órgãos do governo desde janeiro de 2023 foram no gabinete do ministro Wellington Dias.

Em nota, a pasta afirmou que nenhuma reunião do ministro com a lobista resultou em qualquer ato administrativo e destacou que o chefe da pasta mantém com ela “relação de amizade de longa data”.

Há ainda contrato de R$ 2,4 milhões com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), vinculada ao Ministério da Saúde, firmado em abril deste ano. E outro, de 2024, com o Instituto Nacional de Surdos, ligado ao Ministério da Educação, de R$ 177 mil.

A Telebras publicou o extrato de uma contratação da 3Strucuture, em abril de 2024, para prestação de serviços de armazenamento e gerenciamento de dados em nuvem. A vigência, segundo a publicação, é até outubro de 2029. O valor do contrato não foi discriminado no extrato e não consta na lista de prestadores de serviço da Telebras.

A companhia não retornou os pedidos de explicação da reportagem neste domingo, 30.

A PF aponta que Ribas pagou ao menos R$ 2,5 milhões a Roberta Luchsinger entre março de 2024 e dezembro de 2025. Nos diálogos revelados pelo Estadão, Roberta cita por diversas vezes a Ribas que valores seriam usados para bancar passagens aéreas de Lulinha.

Empresa também tem contratos no Maranhão

Além dos R$ 81 milhões em contratos federais, a empresa de Cleber Ribas assinou R$ 5,8 milhões em contratos com o governo do Maranhão, em especial com o Porto de Itaqui.

Como revelou o Estadão, diálogo de Roberta com Lulinha encontrado pela PF no celular dela mostra que ambos teriam atuado em favor do governador maranhense Carlos Brandão (MDB).

Em uma mensagem de áudio de 22 de maio de 2024 encontrada pela PF, a lobista Roberta diz que Lulinha marcou reunião de Brandão no Palácio do Planalto e que Lula liberaria obra no Maranhão. Um mês depois, o presidente foi a São Luís (MA) anunciar um pacote de R$ 59 bilhões de obras e investimentos do PAC no Estado.

“Ó, só pro cê saber. Brandão hoje vai lá no palácio, que seu pai falou que vai prosseguir com aquela liberação da obra dele. Aí o Marcola [ex-chefe de gabinete de Lula] vai receber ele 16 horas. Eu já avisei o Brandão que você conseguiu a agenda, então se quiser falar com o governador, tá confirmado às 16h, fazer uma moral, tá?”, disse ela a Lulinha, conforme transcrição da PF.

Em seguida, ela afirmou a Lulinha: “E eu vou me encontrar com ele pra mim (sic) falar os outros assuntos”. O filho do presidente sugeriu que seria melhor se concentrar nos “outros assuntos” durante as tratativas com Carlos Brandão.

Em nota, o governador negou relação com Roberta Luchsinger e disse que “a agenda oficial do líder do governo estadual não depende da articulação de terceiros”.

Os quatro contratos da 3Structure com o governo do Maranhão, que somam R$ 5,8 milhões, foram assinados entre 23 de maio e 23 de dezembro de 2024.

O Estadão também revelou uma foto em que Roberta, Cleber e Lulinha aparecem em um momento de descontração com seus cônjuges em Barreirinhas (MA), cidade com um dos acessos ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, um dos principais destinos turísticos do Brasil.

Uma outra companhia representada por Roberta Luchsinger, a Duosystem, fechou, em 2025, contrato de R$ 12,4 milhões com a Secretaria de Saúde do Maranhão. Em nota, a empresa afirma que participou de processo de licitação regular com 12 concorrentes e que o contrato é absolutamente lícito.

Roberta Luchsinger também tentou viabilizar contratos junto ao Ministério da Saúde do governo Lula e junto à Dataprev. Mas eles não foram concretizados.

Na frente de negócios na Saúde, ela se associou a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e a Fábio Luís, segundo a PF.

O objetivo seria vender medicamentos à base de canabidiol, testes de diagnóstico para dengue e promover parcerias produtivas por meio da Iquego (Indústria Química do Estado de Goiás S.A.).

A PF descobriu que uma minuta de contrato para a venda de medicamentos com canabidiol ao Ministério da Saúde foi enviada por Roberta Luchsinger a Marco Aurélio Santa Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Para os investigadores, foi uma tentativa da lobista de pedir ajuda do assessor presidencial para conseguir firmar o contrato com o governo federal. O diálogo, porém, não mostra se houve encaminhamento dessa minuta para outra instância do governo.

Doutorando em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o criminalista Ludgero Liberato, do escritório Cheim Jorge Abelha Rodrigues, destaca que a configuração do crime de tráfico de influência não depende do recebimento de vantagem financeira.

“O crime de tráfico de influência é vender imagem de acesso à administração. Só o fato de solicitar vantagem dizendo que tem poder de influenciar funcionário público, mesmo que não tenha, é crime. Mesmo que vá entregar a influência prometida ou não. O crime ocorre quando um particular qualquer mercantiliza uma suposta vantagem que teria sobre funcionário público”, explicou.

Liberato ressaltou que uma circunstância de tráfico de influência pode se revelar, nas investigações, crimes de corrupção ativa ou passiva. Na hipótese de ficar demonstrado que um particular vendeu uma suposta vantagem para uma pessoa e essa vantagem também beneficiou um servidor público.

“O grande dilema dos órgãos de investigação é saber o que é efetivamente tráfico de influência, que é o que se cobra a pretexto de influir, e o que é esquema de corrupção ativa ou passiva, que é quando alguém faz a ponte entre quem oferece e quem dá a vantagem”, comentou.

Lulinha e Roberta Luchsinger são investigados em três inquéritos da Polícia Federal, que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeitas de tráfico de influência (Estadão, 1/9/26)