12/03/2026

Energia renovável aumenta consumo mundial de óleos vegetais

Energia renovável aumenta consumo mundial de óleos vegetais

Trabalhador colhe dendê para a produção de óleo de palma na província de Kalimantan Central, na Indonésia. Foto Ajeng Dinar Ulfiana Reuters

 

Por Mauro Zafalon

 

  • Evolução é maior em países que têm programa de mistura, como Indonésia e Brasil
  • Produção global e demanda, no entanto, estão equilibradas, segundo o Usda

 

 

Consumo humano e utilização em energia renovável imprimiram forte evolução à produção de óleos vegetais nos anos recentes. O consumo mundial na safra 2025/26 deverá atingir 229 milhões de toneladas, conforme dados do Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) desta terça-feira (10). É uma alta de 13% nos últimos quatro anos. Em tempos de guerra, como o atual, o produto passa a ser visto como uma saída para uma menor oferta de petróleo.

 

O crescimento maior do consumo ocorre em países que têm mandatos de mistura dos óleos vegetais a derivados fósseis. São os casos de Indonésia, Estados Unidos e Brasil. Os chineses são os principais consumidores mundiais e vão utilizar 41 milhões de toneladas dos diversos óleos vegetais neste ano, um aumento de 11% desde 2022.

 

Indonésia, que tem um programa forte de mistura de 35% de óleo de palma ao combustível, e que pretende elevar esse percentual para 40%, aumentou o consumo total de óleos vegetais em 26% no mesmo período.

 

O Brasil, com mistura de 15% de biodiesel ao diesel, e que pretende chegar a 20% até 2030, elevou o uso total de óleos vegetais em 39% desde 2022, segundo o Usda. Entidades ligadas ao agronegócio brasileiro querem um aumento da mistura para 17% ainda neste ano.

 

A alta nos Estados Unidos atingiu 16%, mas o país tem um programa que deverá acelerar esse consumo, principalmente o de óleo de soja. A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) tem um plano, que ainda está sendo discutido, de o país utilizar 21,2 bilhões de litros de biodiesel e diesel renovável no sistema de combustíveis. Se aprovado, o programa aumenta em 67% a mistura de biodiesel e diesel renovável, em relação ao patamar atual.

 

O Atlas de Biocombustível do Iica (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura) de 2025 mostra que a produção de biodiesel subiu 110% na última década, atingindo 71 bilhões de litros em 2024. Estados Unidos participaram com 26% dessa produção, vindo a seguir Indonésia (19%) e Brasil (13%).

 

Já são 45 países os que têm mandatos de mistura para redução de gases de efeito estufa. Óleo de palma, de soja e de canola são os principais componentes do biodiesel. Brasil, Estados Unidos e Argentina utilizam mais o óleo de soja; Indonésia, o de palma, e União Europeia, o de canola.

 

Os dados do Usda desta terça-feira mostraram que o óleo de palma lidera a produção mundial entre os óleos vegetais, somando 81 milhões de toneladas. A seguir vêm os de soja (71 milhões) e de canola (36 milhões). A demanda maior por óleos provoca uma expansão também na oferta de matérias-primas. Nas últimas quatro safras, a produção de soja aumentou 18%, e a de canola, 25%.

 

Indonésia, Malásia e Tailândia lideram a produção mundial de óleo de palma; China, Estados Unidos e Brasil, a de óleo de soja, e União Europeia e Canadá, a de óleo de canola e de colza.

 

A produção de óleos vegetais tem sido uma aliada do setor de proteínas, uma vez que gera farelo para a alimentação dos animais. Neste ano, as indústrias processadoras vão colocar 402 milhões de toneladas de farelo no mercado, 289 milhões vindos da soja.

 

A maior utilização do óleo na produção de energia renovável tem, no entanto, gerado uma pressão sobre o produto, o que respinga no consumidor. Os dados de fevereiro da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) apontaram os óleos vegetais como um dos fatores da reversão de tendência de queda da alimentação para alta nos preços médios mundiais. O maior uso dos óleos na energia renovável ajudou nessa pressão, segundo o organismo da ONU.

 

A competição entre alimentos e energia renovável deverá ser resolvida basicamente no aumento de produtividade, uma missão nada fácil em tempos de tantos desastres climáticos (Folha, 12/3/26)