Entidade de usineiros e três associações canavieiras transgridem o CONSECANA
A entidade de representação das usinas paulistas que transformam a cana-de-açúcar em açúcar, etanol, bioeletricidade e biometano, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Única) e três associações de fornecedores de cana das regiões de Piracicaba, Capivari e Araraquara, promovem na tarde desta 2ª feira (24) reunião que pode prejudicar e até implodir o Conselho dos Produtores de Cana de Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana).
A crise entre a UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e a ORPLANA (Organização das Entidades de Produtores de Cana) se concentra na revisão do Consecana-SP, um conselho que define a remuneração do ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) para os produtores de cana. As principais divergências incluem o valor defasado do ATR, a composição da diretoria do Consecana-SP e a forma como os ajustes acordados são aplicados.
O embate entre usinas e fornecedores de cana associados vem se arrastando há meses, quase duas safras completas e, em que pesem declarações públicas de que alguns usineiros ou a própria ÚNICA estariam na iminência de formalizar um acordo para colocar fim a crise, a reunião da tarde desta segunda-feira em Piracicaba pode aprofundar ainda mais as divergências e trazer profundo impacto na estabilidade da cadeia produtiva sucroenergética.
Reunião convocatória em Piracicaba

CONVITE
“A Associação dos Fornecedores de Cana de Capivari (ASSOCAP), a Associação dos Fornecedores de Cana de Araraquara (CANASOL), a Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba (AFOCAPI) e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), têm a honra de convidá-lo (a) para a cerimônia de Assinatura do Memorando de Entendimentos celebrado entre as entidades.
O referido instrumento define diretrizes comuns para a apuração, validação e divulgação do preço médio do kg do ATR e do valor da tonelada da cana-de-açúcar com ajustes aplicáveis aos produtores elegíveis. O acordo reafirma o compromisso das entidades signatárias com a segurança jurídica, a previsibilidade e a integridade das relações contratuais no setor sucroenergético.
A sua presença é especialmente importante para prestigiar este marco institucional, que consolida um esforço conjunto voltado à estabilidade metodológica e ao aprimoramento das relações entre produtores e unidades industriais.
Inscrições em https://forms.gle/
Data: 24 de Novembro de 2025
Horário: 14h
Local: Centro Canagro “José Coral”
Endereço: Av. Com. Luciano Guidotti, 197, Bairro Jardim Caxambu, Piracicaba
O estopim para o agravamento das divergências entre usineiros e fornecedores, foi a convocação de uma reunião (vide convite acima) pela Associação dos Fornecedores de Cana de Capivari, da Associação dos Fornecedores de Cana de Araraquara, da Associação dos Fornecedores de Araraquara e da Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba
A presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Capivari (Assocapi) é Maria Christina Pacheco. Ela também ocupa outros cargos no setor sucroenergético, como diretora da Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana) e membro do Consecana, que representa os produtores de cana.
O presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Araraquara (Canasol) é Luís Henrique Scabello de Oliveira, que foi reeleito para o triênio 2024/2027. Ele ocupa o cargo há vários anos e é reconhecido por sua atuação na entidade e em outras do agronegócio.
O presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba é José Coral que há décadas se destaca no cooperativismo paulista e atua como produtor de cana participando ativamente de todos os movimentos em defesa da cadeia produtiva sucroenergética.
Embora não tenha convocado uma assembleia entre seus associados para deliberar sobre o “Memorando de Entendimentos”, o presidente da Canasol Luís Henrique Scabello de Oliveira distribuiu a mensagem abaixo aos produtores de Araraquara:
“Informamos que teremos um ônibus saindo da CANASOL às 7h da manhã 24/11 - Segunda-feira, com destino à unidade de grãos da Coplacana, onde realizaremos uma visita técnica.
Logo após, seguiremos para o Centro CANAGRO “José Coral”, em Piracicaba, para participar da Cerimônia de Assinatura do Memorando de Entendimentos entre ASSOCAP, CANASOL, AFOCAPI e UNICA.
O Memorando define diretrizes comuns para a apuração, validação e divulgação do preço médio do kg do ATR e do valor da tonelada da cana-de-açúcar, reforçando o compromisso das entidades com segurança jurídica, previsibilidade e integridade no setor sucroenergético.
Sua presença é muito importante para prestigiar este marco institucional. Ao término do evento, retornaremos para a CANASOL.
Para quem quiser reservar lugar no ônibus falar com:
Tone - (16) 99779-6056
Larissa - (16)99716-6927
Data: 24 de novembro de 2025
Horário: 7 h
Local: Associação dos Fornecedores de Cana de Araraquara - Rua: 13 de Maio, 1406
Produtores de cana de Araraquara e Ribeirão Preto contestam evento em Piracicaba
Através das suas redes sociais, o advogado e produtor rural Paulo Junqueira, presidente do Sindicato e da Associação Rural de Ribeirão Preto e da Assovale – Associação Rural Vale do Rio Pardo, associada à Organização das Entidades de Produtores de Cana (Orplana) se manifestou estranhando a expressão “segurança jurídica” no convite para o evento da “Assinatura do Memorando de Entendimentos”.
Também estranhou a transferência do foro para São Paulo questionando se o memorando foi elaborado pela Unica. Questionou ainda se o Cepea contratado pelo Consecana irá realizar esses cálculos para uma das partes que está em discussão com a outra.

A íntegra dos questionamentos de Paulo Junqueira é esta:
“No início do mês de setembro a Orplana decidiu, praticamente por unanimidade, apresentar uma proposta de consenso para ser entregue à Unica. Aqui não há litígio, para que não haja nenhuma confusão. O produtor de cana depende da agroindústria que também depende do fornecedor de cana. Precisamos que haja consenso o quanto antes. Esta proposta foi encaminhada e até hoje está sendo aguardada uma resposta formal da Unica e isso não ocorreu ainda”.
Ontem (17), fui surpreendido por um documento que não continha assinatura, é apócrifo, informando que há três associações membros da Orplana que seriam Assocap, Canasol e Afocap e que estarão promovendo um encontro para este próximo dia 24 para eventual acordo e acerto com a Unica. Quero salientar, por óbvio, que essas associações podem fazer aquilo que elas acharem por bem, por prudência”.
Mas, isso não tem absolutamente validade alguma no âmbito do Consecana e tampouco em relação a contratos que cada um dos seus associados tiveram diretamente com as usinas. Portanto, esta iniciativa, se verdadeira, não procede. Não concordo que qualquer associação faça este tipo de acordo ou de acerto diretamente com a Única, fora do Consecana, mesmo porque todos os fornecedores têm seus contratos fundamentados no Consecana.”
E a validade de qualquer acordo do Consecana só existe e obrigatoriamente tem que passar pela Orplana que é proprietária de 50% do Consecana. Hoje (18) a Orplana emitiu uma nota e peço que todos os produtores de Araraquara, Capivari e Piracicaba se informem junto às suas associações e também entrem em contato com a Orplana para saberem em que circunstâncias vai sair este acordo.”
Nós, Assovale, defendemos que o acordo entre a Orplana e a Unica seja a única forma para assegurar segurança jurídica entre os fornecedores de cana e a agroindústria”.
Produtores de Araraquara contestam a Canasol

Para o vice-presidente do Sindicato Rural de Araraquara e também secretário Municipal de Agricultura do município, João Henrique de Souza Freitas, a convocação de produtores de cana da região para participar do evento de hoje (24) em Piracicaba é ilegal e ilegítima. “O presidente Luís Henrique Scabello de Oliveira, da Canasol, não convocou nenhuma assembleia para deliberar sobre a assinatura do “Memorando de Entendimentos” que será celebrado com a Unica”.
Também questionou a iniciativa de apenas três associações assinarem o referido documento com a Unica: “Estranhamente de 35 associações apenas três formam esta dissidência que contraria todo um trabalho sério que vem sendo desenvolvido ao largo de vários anos em defesa dos interesses de todos os produtores de cana-de-açúcar não apenas do Estado de São Paulo mas também de outros Estados da federação”.
João Henrique também evoca a crise entre produtores de laranja da região de Araraquara e a denúncia de cartel da Cutrale no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que já se arrasta há anos. “Este movimento das três associações dissidentes com a Unica pode remeter a denúncias de tentativa de formação de cartel dos usineiros. Afinal a quem interessa o enfraquecimento da Orplana e por que tanta demora em formalizar e implementar os acordos entres nós produtores e os usineiros?” questiona.
IA: Divergências entre fornecedores de cana e usineiros
As principais divergências entre fornecedores de cana-de-açúcar e usineiros no Brasil giram em torno da precificação da matéria-prima (cana), da partilha do valor gerado (Açúcar Total Recuperável - ATR), e das assimetrias contratuais e de poder.
Principais Áreas de Divergência
Precificação e Remuneração
• Valor do ATR: A principal fonte de conflito é a definição do valor a ser pago pela tonelada de cana, que é baseada no Açúcar Total Recuperável (ATR), um indicador da quantidade de açúcar e etanol que pode ser extraída da matéria-prima. Os fornecedores buscam uma remuneração que considerem justa e que reflita o valor real dos produtos finais (açúcar e etanol), enquanto as usinas buscam otimizar seus custos operacionais.
• Remuneração do Bagaço: Há discussões recorrentes sobre a remuneração do bagaço da cana, que pode ser utilizado para cogeração de energia elétrica (bioeletricidade) e outros subprodutos, gerando receita adicional para as usinas que, nem sempre, é partilhada de forma transparente com os fornecedores.
Contratos e Governança
• Assimetria de Poder: Frequentemente, existe um desequilíbrio de forças entre as grandes usinas (indústrias) e os fornecedores de cana (produtores rurais), o que pode levar a contratos com termos mais favoráveis às usinas. As associações de fornecedores, como a Orplana, buscam fortalecer a posição do produtor nas negociações.
• Transparência e Medição: A forma como a qualidade da cana (teor de ATR) é medida pode ser um ponto de desconfiança. Mecanismos conjuntos de medição e gestão visam evitar problemas de mensuração e garantir maior harmonia na relação comercial.
• Revisão de Parâmetros: A metodologia de cálculo do Consecana-SP (Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo), que serve de referência para a maioria dos contratos no país, passa por revisões periódicas. Essas revisões geram intensas discussões entre as partes, pois envolvem ajustes técnicos e econômicos que impactam diretamente a receita de ambos.
Fatores de Mercado e Crises
• Volatilidade de Preços: O setor é afetado pela flutuação dos preços do açúcar no mercado internacional e do etanol no mercado interno, que é influenciado pela política de preços da gasolina. Essas variações de mercado geram incertezas e pressionam a rentabilidade de ambos, intensificando as disputas sobre a partilha dos resultados.
• Custos de Produção: O aumento dos custos de produção (insumos, mão de obra, logística) também é um fator de tensão, pois as partes divergem sobre como esses custos devem ser absorvidos ou partilhados ao longo da cadeia produtiva.
As entidades representativas, como a UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) e a Orplana (Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil), negociam continuamente para buscar um equilíbrio nessas relações e garantir a sustentabilidade de toda a cadeia produtiva (Da Redação, 24/11/25)

