23/02/2026

Entre o palanque e a passarela – Por Rodrigo Simões

Entre o palanque e a passarela – Por Rodrigo Simões

Quando política e espetáculo se misturam sem o devido senso de prioridade, o resultado costuma ser indigesto. A recente aproximação do governo federal com o universo do Carnaval, especialmente sob forte apoio institucional e financeiro, levanta questionamentos legítimos sobre prioridades, estratégia e bom senso político.

 

Palanque fora de época

 

Em meio a desafios fiscais e sociais relevantes, insistir em vincular recursos públicos e imagem institucional a um espetáculo carnavalesco soa, no mínimo, desconectado da realidade de milhões de brasileiros. A política exige hierarquia de prioridades — e o Brasil vive momento que pede sobriedade.

 

O presidente na avenida

 

A presença de Lula no desfile teve forte carga simbólica. O problema não é participar de manifestações culturais — elas fazem parte da identidade nacional —, mas o contexto e a narrativa construída. Em ano politicamente sensível, cada gesto comunica. E nem sempre comunica bem.

 

Influência e exposição

 

Nos bastidores, comenta-se que a articulação do episódio teve forte influência da primeira-dama. A exposição excessiva e, por vezes, pouco protocolar, acaba colocando o presidente em situação desconfortável. Em política, forma e conteúdo caminham juntos — e ambos importam.

 

Estética e estratégia

 

O conjunto da obra revelou certo descompasso entre estratégia política e percepção pública. O espetáculo, que poderia ser apenas cultural, ganhou contornos ideológicos e gerou ruído desnecessário. Em comunicação institucional, exageros costumam custar caro.

 

A escola e o limite

 

A participação da escola envolvida trouxe elementos que dividiram opiniões. Parte do público enxergou excessos e uma linha narrativa que afrontou valores tradicionais de muitas famílias brasileiras. Carnaval é expressão artística — mas também é vitrine pública. E vitrine exige responsabilidade.

 

O efeito reverso

 

O resultado final — inclusive o rebaixamento da escola — acabou simbolizando um desgaste político maior do que qualquer ganho momentâneo. Quando a estratégia gera mais rejeição do que apoio, talvez seja hora de recalibrar.

 

O cálculo político

 

Curiosamente, episódios como este acabam fortalecendo adversários. A insistência em decisões de forte carga simbólica, sem medir impacto social e eleitoral, transforma aliados em potenciais cabos eleitorais involuntários da oposição.

 

Conclusão

 

Governar exige senso de oportunidade, prudência e leitura correta do ambiente político. Quando espetáculo e gestão se confundem, o risco é transformar cultura em controvérsia — e estratégia em desgaste.

No tabuleiro eleitoral, muitas vezes o erro de um lado se converte automaticamente em vantagem para o outro.

 

(Rodrigo Simões, Jornalista • Administrador de Empresas, Pós-graduado em Gerente de Cidades – FAAP, 2× Vereador por Ribeirão Preto • Presidente da Câmara (2017), Ex-Presidente da FUNTEC, Colunista – Brasil Agro, Apresentador do Podcast Clube do Povo; 23/2/26)