16/03/2026

Governo vai apertar regras de mercado de carbono após fraude no Master

Governo vai apertar regras de mercado de carbono após fraude no Master

ristina Reis, secretária extraordinária de Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda. Foto Reprodução Gabriel Lontra/Estúdio 3 LADOS

 

  • Manobra de empresas ligadas a Vorcaro usou ativos ambientais sem lastro e irregulares para inflar valor
  • Cristina Reis, responsável por Mercado de Carbono na Fazenda, afirma que regulamentação deve oferecer clareza

 

O governo vai apertar as regras do mercado de carbono para coibir fraudes ambientais como as protagonizadas por empresas ligadas a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

 

Como revelou a Folha, empresas relacionadas ao ex-banqueiro inflaram seus patrimônios em R$ 45 bilhões. Para isso, emitiram créditos de estoques de carbono —ativo diferente do crédito— a partir de uma fazenda irregular na amazônia, sobreposta a terras da União, com lastro em metodologia não autorizada, em uma fraude contábil e fundiária.

 

Cristina Reis, secretária de Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, antecipa que o governo vai mapear todos os possíveis ativos ambientais e deixar claros seus conceitos e metodologias de mensuração, relato e verificação tanto para incentivar o surgimento de projetos como para deixar clara a diferença para casos irregulares, como o do Master.

 

"[Será] um aperto nas regras", diz ela ao C-Level Entrevista, videocast semanal da Folha.

 

"A suspeita de fraude que a Folha apresentou é muito grave e é um caso de polícia. O que nós estamos querendo fazer com os ativos ambientais é oferecer uma clareza regulatória. Quais são as possibilidades e quem regula o quê."

 

O objetivo futuro é tornar o Brasil um polo mundial de negociação de ativos verdes em fundos de investimento —não só, mas também com os créditos de carbono.

 

A sra. tem até o fim do ano para regulamentar o mercado de carbono e instituir seu órgão regulador. Como está esse processo?


Estamos no segundo tempo da primeira fase. Temos de colocar as normas infralegais principais para o mercado de carbono ter os seus pilares: quais gases de efeito estufa serão considerados? Quais setores serão obrigados a descarbonizar?

 

O órgão regulador será uma agência?


É uma possibilidade, mas há outras. O principal atributo que esse órgão deve ter, independentemente de ser agência ou não, é um corpo técnico altamente qualificado e grande. Nossas estimativas mostram com [um contingente de] mais de cem pessoas. E, para isso, seria adequado um concurso específico.

 

O pró [a favor] da agência reguladora é ter esse olhar público de eficiência, competitividade e justiça distributiva. O contra tem duas questões: capacidade fiscal e garantir que não haja nenhum tipo de captura política.

 

Quais seriam as alternativas?


Existe um modelo mais descentralizado de competências que a lei estabelece para que esse órgão gestor seja fragmentado em diferentes ministérios, por exemplo.

 

Há uma preferência do Ministério da Fazenda pelo órgão regulador?


A nossa preferência é que seja na Fazenda.

Fala-se na criação de fundos de investimento com esse crédito e mais outros ativos verdes. Quais seriam?


Já existe o Cbio [Crédito de Descarbonização], do RenovaBio. Existem as CRAs, que são as cotas de reserva ambiental. Tem ativos ambientais relacionados à energia. Tem um novo que está por vir, que é o Cgob [Certificado de rastreabilidade de biometano], relacionado a metano.

 

É possível imaginar um fundo de investimento com letras do Tesouro Nacional, mas que tenha ali um percentual de crédito de carbono, por exemplo. Para aquele investidor que, além de garantir o seu rendimento, também consegue promover uma contribuição para o meio ambiente.

 

A Folha revelou que duas empresas ligadas ao Master atingiram uma valorização de R$ 45 bilhões vendendo "créditos de estoque de carbono" com base em terras públicas federais. O caso mostra que existe uma área cinzenta na regulamentação desse segmento?


A suspeita de fraude que a Folha apresentou é muito grave e é um caso de polícia. Fez uma confusão entre estoque de carbono e crédito de carbono.

Isso foi colocado num balanço patrimonial de uma empresa, com aval de empresas de auditoria. Então, houve erros no processo. Tem a questão de o famigerado estoque de carbono ter sido originado em terra da União. A gente tem aí uma sucessão de fraudes.

O que estamos querendo fazer com os ativos ambientais é oferecer uma clareza regulatória. Quais são as possibilidades e quem regula o quê.

 

A CVM é um órgão do Ministério da Fazenda. Depois da fraude, simplesmente se calou. Qual a resposta que a Secretaria de Carbono pode dar à sociedade sobre o que ocorreu?


Estamos convocando um grupo de trabalho de crédito de carbono em terras da União. A gente sabe que existe um problema de regularização fundiária muito grande no Brasil. [Queremos] que os contratos de concessão passem a prever a possibilidade de programas e projetos de crédito do carbono. Que seja colocada a distribuição de benefícios, considerando florestas, povos indígenas, quilombolas, agricultoras familiares etc.

 

Para além disso, esses contratos também podem remunerar a própria União. É nesse sentido a atuação da secretaria, para trazer uma comunicação clara de como se desenvolvem [esses projetos].

 

Não é uma resposta tímida do governo?


O Ministério da Fazenda não é polícia. Nosso trabalho é regulamentar algo completamente novo, algo que pode gerar um crescimento adicional do PIB até 2040 de 5%, que vai gerar emprego.

 

Queremos mostrar que todo esse trabalho está sendo desenvolvido com cuidado e seriedade. O que está no meu alcance é justamente, por exemplo, chamar esse grupo de trabalho de terras da União, fazer um guia de mapeamento de ativo ambiental.

[Esse grupo] vai refazer várias recomendações. [Vai elaborar] modelos de contrato de concessão prevendo desenvolvimento de projetos de crédito de carbono, que hoje não se prevê. [Esses modelos] passam a prever e põem condicionantes.

 

É um aperto nas regras?


Um aperto nas regras [...]. Apertar a regulação para os interesses públicos.

 

Tem a questão do mapeamento de ativos ambientais, do grupo de trabalho, da formação do órgão gestor. Estamos fazendo um trabalho inicial de comunicação e de letramento, para explicar para as pessoas o que é mercado de carbono.

 

Está na mesa a ideia de que a União tenha projetos próprios de crédito de carbono?


Nossa ideia é regularizar as concessões e procurar cada vez mais se certificar de que os domínios da União estejam resguardados e que os contratos de concessão relacionados a esses territórios estejam bem-feitos.

 

E, aí, que [os contratos] passem a contemplar a possibilidade de geração de crédito de carbono nesses territórios. Mais para a frente, a própria União desenvolver projetos e programas de crédito de carbono que possam gerar receita.

 

A União é proprietária de terras, de florestas, de praias, de mares, de ilhas. Então, tem um contingente, um sistema natural, que pode, sim, gerar crédito de carbono, e o Brasil pode se beneficiar disso e contribuir para o enfrentamento da crise climática como algo que contribua para o seu futuro, que gere emprego, oportunidade, que essas receitas sejam utilizadas para um fim social importante.

 

A pauta ambiental esfriou com o cenário internacional instável?


A guerra e a geopolítica do petróleo, a elevação dos preços, mostram a necessidade de ter alternativas de energia para que os países não fiquem reféns [da formas de geração tradicionais], tenham tecnologias próprias para o caminho da descarbonização e de um futuro com menos combustíveis fósseis.

 

Por outro lado, o que a gente vê também são países aumentando suas despesas para fins militares. Isso tira [dinheiro] de outras partes, inclusive da pauta ambiental e climática.

 

O agronegócio ficou de fora do mercado regulado. Quais os planos para o futuro, trazer o setor para o escopo da regulação?


Eles estão fora do mercado regulado do sistema brasileiro de comércio de emissões. Mas eles podem trabalhar para ofertar créditos de carbono no [mercado] voluntário, que inclusive sejam compensação para um mercado regulado.

A regulamentação vai trabalhar para atrair esse mercado para dentro?


Eu sempre achei que, afinal, o agro irá se arrepender de ter se excluído do sistema. Porque é uma oportunidade econômica e financeira. Se a regulação for bem feita, participativa, transparente, técnica e eficiente —e isso é muito difícil de alcançar—, a gente vai conseguir atrair os setores.

 

RAIO-X | Cristina Reis, 45


Economista, formou-se pela USP em 2003 e fez mestrado e doutorado pela UFRJ, respectivamente em 2008 e 2013. Professora da UFABC, foi cedida para o Ministério da Fazenda em 2023, onde atuou como subsecretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável antes de assumir o setor de Mercado de Carbono, em 2025; Folha, 14/3/26)