25/03/2026

Guerra amplia atraso na comercialização de fertilizantes no Brasil

Guerra amplia atraso na comercialização de fertilizantes no Brasil

Atraso nas vendas de fertilizantes se dá em um cenário de preços de commodities em baixa e margens mais apertadas para o agricultor — Foto: Mosaic/Divulgação

 

Produtores já vinham adiando a compra em decorrência da relação de troca desfavorável entre grãos e o insumo, segundo fabricantes.

 

O ritmo de aquisição de fertilizantes pelos produtores no Brasil está mais lento neste ano em comparação com 2025, relatam empresas do setor e analistas. O atraso foi intensificado pelo conflito no Oriente Médio — região produtora de matérias-primas usadas na fabricação do insumo —, mas já ocorria desde antes, como reflexo da desvalorização das commodities agrícolas e do endividamento dos produtores.

 

Segundo a Mosaic, uma das principais produtoras mundiais de nutrientes concentrados de fosfato e potássio para a agricultura, a comercialização alcançou 30% nesta semana para culturas em geral. No ano passado, o percentual estava em 38%. O atraso se dá em um cenário de preços de commodities em baixa e margens mais apertadas para o agricultor, o que impacta a relação de troca.

 

“Isso faz com que o agricultor, num primeiro momento, pense em reduzir tecnologia. (...) Mas, em anos difíceis, o produtor tem de focar na gestão da sua fazenda, da porteira para dentro, otimizar seus custos, mas também olhar produtividade e rentabilidade”, disse ao Valor Eduardo Monteiro, executivo que comanda a Mosaic no Brasil, durante a Expodireto Cotrijal, feira, na segunda semana de março em Não-Me-Toque (RS).

 

Segundo ele, a relação de troca na soja está hoje em 26 sacas por tonelada de fertilizante. No ano passado, eram 24 sacas. No caso do milho, que também sofre desvalorização, são 61 sacas, enquanto que em 2025 eram necessárias 43.

 

“É claro que a decisão de compra explica um pouco do atraso, porque o agricultor tem a expectativa de que o preço do insumo caia ou que o preço da commodity agrícola suba”, observou Monteiro. O adiamento nas compras, acrescentou, pode gerar uma concentração maior da comercialização, e possível “estresse logístico.

 

O cenário de atraso nas compras pode até se intensificar. Isso porque o conflito no Oriente Médio elevou os preços dos fertilizantes nas últimas semanas, o que piora ainda mais a relação de troca. “Se o conflito for endereçado, talvez essa situação se equalize. Se não for, a tendência continua tão complexa quanto, ou se agrava um pouco mais”, acrescentou.

 

Uma das matérias-primas que tiveram alta foi o enxofre, insumo importante para a fabricação de fósforo e produzido por países do Oriente Médio. No início de 2025, custava US$ 120 a tonelada. Neste ano, antes mesmo do início da guerra, estava em US$ 550.

 

Na Yara Brasil, fabricante de origem norueguesa, o diagnóstico é semelhante. Segundo o vice-presidente de Marketing e Agronomia, Guilherme Schmitz, as compras para a safra 2026 de trigo estão em cerca de 40% — o normal para o período seria entre 50% e 60%. Já as aquisições para a próxima safra de soja estão em 35%, dez pontos percentuais abaixo da média para o período.

 

“No ano passado, ele [o mercado] já teve um ritmo mais lento, (o produtor) empurrou mais para a frente a tomada de decisões. Este ano [o cenário] está se repetindo, e até um pouco mais atrasado”, disse Schmitz em entrevista ao Valor.

 

Segundo ele, o mercado de fertilizantes costumava acompanhar o dos grãos. Quando as commodities subiam, a cotação dos insumos acompanhava; quando baixava, o fertilizante caía. “Hoje descolou, porque as matérias-primas para a formação de fertilizantes já não são mais guiadas pelo fertilizante em si. O enxofre, uma das matérias-primas para a produção de fosfatados, está sendo guiado por segmentos de refinamento de certos minerais, por exemplo”, disse.

 

Esse “descolamento” faz com que o agricultor tenha maior dificuldade de prever o melhor momento de compra, contribuindo para o atraso nas aquisições.

 

Schmitz acrescentou que os preços do enxofre já vinham subindo antes da guerra e passaram a subir mais com o conflito. Além disso, lembrou, a restrição das exportações de fosfatados pela China desde 2026 também pressionou a oferta.

 

A empresa enxerga riscos de desabastecimento no mercado. “Temos buscado mitigar ao máximo esse risco. Hoje 25% (da demanda da empresa por fertilizantes) vem da Europa, 25% é produção do Brasil e outros 50% nós compramos de fornecedores, numa rede bem robusta e segura”, acrescentou.

 

Alta nos preços

 

A alta dos fertilizantes foi generalizada desde o início da guerra. Segundo a consultoria StoneX, a ureia subiu 50% no período, e está cotada em US$ 725 a tonelada CFR (custo e frete). No caso do MAP (fosfato monoamônico), cotado hoje a US$ 845 a tonelada CFR, a alta foi de 14% desde o início da guerra. O cloreto de potássio (KCI) subiu 3%, para US$ 385 a tonelada CFR.

 

Renato Françoso, consultor de gerenciamento de risco de fertilizantes da StoneX, disse que a relação de troca deteriorada também pode levar o produtor a investir menos em fertilizantes. “Com esses preços mais altos, o produtor começa a fazer muita conta. Com relação de troca ruim, o custo dele por hectare também sobe”, acrescentou Françoso, lembrando que em 2022, com o início da guerra da Ucrânia, as entregas de fertilizantes no Brasil caíram de quase 46 milhões para 41 milhões de toneladas.

 

Em 2025, o volume ficou em 49 milhões de toneladas.

 

Para o presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, a tendência é de queda na demanda por fertilizantes este ano. “Quem puder fazer uma reanálise muito bem feita no seu solo vai ter que ele vai ter um ‘caixa’, uma poupança de fósforo, porque o produtor sempre vinha fazendo uma fertilidade bem boa do seu solo. Então, além de estar atrasado, acredito que vai haver uma diminuição do mercado", disse ao Valor.

 

Uma semana após o ataque dos EUA e de Israel ao Irã, a Aprosoja Brasil divulgou um comunicado em que orientava os produtores a terem cautela, de modo a não anteciparem compras de fertilizantes sem necessidade.

 

Na avaliação de Buffon, os preços podem se reacomodar. Assim, disse, não é o momento de “cair na pressão da logística”.

José Carlos Hausknecht, sócio da MB Agro, avalia que o ritmo mais lento de compras no mercado de fertilizantes deve se manter ao longo do ano, devido à piora na relação de troca para o produtor. “A nossa sorte é que só vamos plantar a safra de soja lá no segundo semestre, então ainda tem tempo para que esse mercado se normalize, se a guerra não se estender muito”, observou (Globo Rural, 24/3/26)