Guerra: Brasil vai enfrentará dificuldades para comprar fertilizantes
Foto Reprodução Blog Click Petróleo e Gás
- Países não têm reservas estratégicas, como as do petróleo, e Brasil é muito dependente do mercado internacional
- Decisão da China de restringir exportações pode impactar envio de 40 milhões de toneladas
A restrição às exportações de fertilizantes imposta pela China é crucial para o Brasil. No ano passado, o país assumiu a liderança na oferta do produto para o mercado brasileiro, desbancando a tradicional Rússia. Mas as dificuldades vão além desses países.
O país asiático decidiu limitar as exportações do insumo essencial ao agronegócio para proteger seu mercado interno, o que amplia a pressão sobre os mercados internacionais, que já lidam com a escassez do produto devido à guerra do Irã.
Os brasileiros foram buscar 12 milhões de toneladas no país asiático, 38% a mais do que em 2024, segundo dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior). Os russos, líderes no fornecimento até 2024, colocaram 11,1 milhões de toneladas no mercado brasileiro em 2025.
O Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de adubos no ano passado, gastando US$ 15,5 bilhões. O consumo total foi de 49,1 milhões de toneladas, segundo a Anda (Associação Nacional para a Difusão de Adubos). A produção nacional se limita a 7,2 milhões de toneladas.
Avalia-se muito o estrago que a menor oferta de petróleo, devido à guerra, pode causar nos preços e na economia mundial, mas relega-se a importância dos fertilizantes. Os países, estrategicamente, têm reservas de petróleo para esses períodos de redução de oferta internacional, mas não têm de fertilizantes. Pelo menos 49% da produção de alimentos no mundo depende de adubos. A ausência desse produto provoca redução de plantio ou de produtividade.
O Brasil, altamente dependente do mercado internacional de fertilizantes, vai encontrar dificuldades na compra desse insumo em todos os principais fornecedores. A Índia, grande consumidora, pisou no acelerador em algumas fábricas que dependem do gás do Catar. A Europa já estava em ritmo menor de produção, devido à menor oferta de gás dos russos. Os Estados Unidos estão levantando barreiras até do Marrocos, buscando novos países de onde podem importar.
Os americanos, em pleno período de plantio, estão em um momento crucial na necessidade desse insumo. Boa parte da demanda americana já foi acertada pelos produtores, mas como fica a entrega, devido a esse estrangulamento dos transportes provocado pela guerra no Oriente Médio?
Os produtores brasileiros, em período de colheita de soja e de plantio de milho da safrinha, já começavam a planejar as compras para a safra de soja do segundo semestre. Por ora, não têm noção dos preços que vão pagar e, pior, o quanto de produto vão ter.
O estrangulamento do fornecimento de fertilizantes e, em algumas regiões, da produção, já respinga sobre a agricultura e, na sequência, recairá sobre os consumidores, com alta dos preços dos alimentos e da inflação. Uma cesta de produtos acompanhada pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) já indica uma reversão de tendência. Os preços voltaram a subir, mesmo antes do início da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã.
Pelo menos 10% da ureia comercializada no mundo é produzida no Oriente Médio e 30% dos fertilizantes passam pela região em conflito. Negociada a US$ 450 em fevereiro, a tonelada do produto está em US$ 690 em alguns dos principais portos do mundo.
O Brasil, além de depender muito dos fertilizantes externos, iniciou o ano com atraso nas compras, que aumentam ano a ano. No primeiro bimestre do ano passado, os países do Oriente Médio forneceram 624 mil toneladas do insumo ao mercado brasileiro, 12% do total importado pelo país no período.
Em janeiro e fevereiro deste ano, as compras brasileiras se limitaram a 462 mil toneladas na região, 8,8% do que o país importou. O volume é o menor em 11 anos para o primeiro bimestre e representa uma queda de 34% em relação à média do mesmo período dos últimos cinco anos, segundo dados da Secex.
Se, ao contrário do que imaginavam Donald Trump e Benjamin Netanyahu, a guerra for longa, a desestruturação do sistema de fornecimento de fertilizantes vai ser crucial para os produtores brasileiros. Além de pagar preços elevados, o país vai ter dificuldades para comprar esse insumo devido à concorrência internacional (Folha, 20/3/26)

