24/03/2026

Guerra dá impulso limitado a preços da soja e vendas seguem retraídas

Guerra dá impulso limitado a preços da soja e vendas seguem retraídas

Vendas de soja estão em ritmo lento, principalmente, por causa dos prêmios negativos — Foto: Wenderson Araujo/CNA

 

Prêmios (diferenciais de exportação nos portos) estão negativos, o que desestimula negócios para exportação da oleaginosa.

 

A guerra no Oriente Médio, que levou à disparada do petróleo no mercado internacional e ajudou a soja a subir na bolsa de Chicago, teve efeito parcial para os preços do grão no mercado brasileiro. Nesse cenário, produtores seguem cautelosos nas negociações da safra 2025/26, que está em pico de colheita.

 

Desde 1º de março, um dia após Estados Unidos e Israel atacarem o Irã, o petróleo já subiu 54%. O movimento puxou a valorização do óleo de soja na bolsa de Chicago, com alta de 5,58% no período, que por sua vez fez a oleaginosa subir 0,49%, segundo o Valor Data.

 

Vlamir Brandalizze, consultor independente de mercado, observa que desde o conflito, a saca de soja subiu até R$ 3 nos portos brasileiros. O indicador Cepea/Esalq, base Paranaguá avançou 3% na parcial do mês até a última sexta (20/3).

 

Na avaliação de Brandalizze, essa movimentação pode ser considerada tímida, já que os prêmios no porto — diferença entre o preço do produto físico em determinada praça e a cotação em Chicago — ficaram até US$ 0,50 negativos nas últimas semanas.

 

O cenário é ainda mais desfavorável para a cotação da soja no interior, pois, além da pressão de oferta por causa da colheita, a disparada do petróleo elevou o preço do diesel, um componente que até então não estava no radar dos sojicultores. Em Rondonópolis (MT), por exemplo, a saca de soja atualmente é em R$ 104, ou R$ 4 abaixo do valor registrado no início do mês de março pela T&F Consultoria Agroeconômica.

 

“O diesel comeu uma fatia dessa alta que poderia ir para soja, já que ele resultou em aumento nos valores do frete para os produtores. No meio de tudo isso também tivemos o impasse entre algumas tradings, que suspenderam as vendas para a China.

 

Isso tirou muitos compradores do mercado. Com mais percepção de oferta, o preço tende mesmo a cair”, disse Brandalizze.

Sem uma conjuntura de preços favoráveis, a comercialização da safra que está sendo colhida segue atrasada, em 44% da produção esperada, abaixo dos 52% registrados nessa mesma época do ano passado, acrescentou o consultor.

 

“Na média dos últimos anos, a comercialização gira em torno de 5 milhões de toneladas por semana, mas como este ano o ritmo está bem lento, as vendas atingiram no máximo 1,5 milhão de toneladas”, afirmou Brandalizze.

 

Ale Delara, sócio da Pine Agronegócios, também calcula um atraso significativo nas vendas de soja do Brasil na safra 2025/26, com 45% já comercializado este ano e 55% em igual época em 2025. Segundo ele, o ritmo mais lento também é responsável pela diferença entre os preços no Brasil e no exterior.

 

“Mesmo com a colheita de soja acontecendo, não há compradores no mercado. Além disso, a despeito da guerra, o dólar segue em baixa, e os prêmios negativos, contribuindo para a formação atual de preços no Brasil. Em suma, apenas o valor em Chicago é que subiu. Os demais componentes de formação de preço da soja no mercado interno ainda seguem negativos para as cotações”, disse Delara.

 

 

O analista da Pine observa que independentemente da tendência atual para o mercado da soja, o produtor seguirá cada vez mais pressionado para fechar negócios.

 

“O produtor deve segurar ao máximo sua soja esperando um melhor preço para fechar negócios. Mas se essa melhora não acontecer, ele deve voltar ao mercado mesmo assim, pois terá muitas despesas para pagar em abril”, disse (Globo Rural, 23/3/26)