09/04/2026

Guerra no Oriente Médio pode causar choque no preço de alimentos no mundo

Guerra no Oriente Médio pode causar choque no preço de alimentos no mundo
  • Disparada de cotações de fertilizantes e combustíveis ameaça colheitas em diversos países
  • Até agora, mercados de commodities alimentares estão contidos, mas problemas se acumulam

 

Em 22 de março, o Nadab atravessou o estreito de Hormuz e entrou no mar da Arábia. Ele transportava uma carga preciosa: 20 mil toneladas de fertilizante de um porto iraniano, com destino ao Sudeste Asiático. Desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, Teerã permitiu que apenas seis navios carregados com o produto zarpassem do golfo, um quarto do que seria esperado para o período. O Nadab foi o último.

 

A guerra está preocupando os agricultores do mundo. Um terço das exportações marítimas de fertilizantes vem da região, e a maioria foi interrompida pelo bloqueio iraniano. A ureia, o fertilizante mais amplamente utilizado, está cerca de 70% mais cara que antes da guerra, enquanto a amônia, outro fertilizante nitrogenado, está 39% mais cara.

 

O cenário se mantém mesmo após o cessar-fogo de duas semanas acertado nesta terça-feira (7), que levou o Irã a permitir a passagem de navios pelo estreito de Hormuz. Mas o tráfego segue bem abaixo do normal.

 

Madeleine Overgaard, da provedora de dados Kpler, calcula que quase 1,9 milhão de toneladas de nutrientes para plantas estão presas a bordo de 41 navios que não conseguem deixar o golfo —o equivalente a 12% de todo o fertilizante exportado pelo estreito em 2024.

 

Fazer com que eles se movam é importante. Em partes do hemisfério norte, a temporada de plantio já começou. Na Índia, faltam menos de dois meses. "O momento é muito importante", diz Máximo Torero, economista-chefe da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, agência da ONU).

 

Alguns agricultores, como os produtores de trigo no Centro-Oeste americano, estão mudando para culturas que não precisam de tantos nutrientes, como a soja. Aqueles que não podem fazer isso usarão menos fertilizante, reduzindo a produtividade, ou não plantarão tanto.

 

Até agora, os mercados de commodities alimentares estão contidos. Em 2022, quando um gigante exportador de grãos (Rússia) invadiu outro (Ucrânia), o preço do trigo disparou 50%. Quando a guerra no Irã começou, o valor subiu apenas 4% e não se moveu muito desde então. Esse preço reflete o que já foi colhido: a safra do ano passado foi boa e, diferentemente de quatro anos atrás, não está presa por conflitos. Diferentemente da Ucrânia, o golfo não é um celeiro.

 

Mas os problemas vão se acumular. Os preços do trigo estão um quinto abaixo de onde estavam no início de 2022, antes da guerra da Ucrânia, dando aos agricultores menos margem para absorver o custo crescente de fertilizantes e combustíveis. Se as colheitas forem interrompidas no segundo semestre do ano, aumentos de preços virão em seguida.

 

Os países pobres são especialmente vulneráveis ao choque dos fertilizantes. Quênia, Madagascar, Moçambique e Zâmbia obtêm mais de um terço de seus fertilizantes nitrogenados do golfo. No sul da Ásia, pequenos agricultores usam grandes quantidades do produto para extrair o máximo de produção possível de suas modestas parcelas de terra. Grandes exportadores de alimentos como Índia e Tailândia obtêm cerca de 35% do produto do golfo. Bangladesh, que frequentemente precisa importar grãos da Índia, obtém mais da metade.

 

Como o fertilizante é volumoso, perecível e (geralmente) barato, a maioria dos agricultores o compra quando precisa, em vez de manter estoques. Isso deixou o mercado com poucos amortecedores —e causou uma corrida por suprimentos. Em 2 de abril, a Bloomberg informou que o governo da Índia estava em negociações com produtores na Rússia e na China, entre outros, para obter carregamentos.

 

Mas as fábricas da Rússia estão operando perto da capacidade máxima, em parte por causa de ataques de drones ucranianos às suas instalações, e o Kremlin suspendeu parcialmente as exportações. A China liberou algumas reservas para seus próprios agricultores e está restringindo as vendas ao exterior.

 

Produzir mais fertilizante internamente também é difícil. O gás natural, que normalmente representa mais de dois terços dos custos de produção de fertilizantes, está quase 70% mais caro do que em fevereiro. A maior fábrica da Eslováquia cortou sua produção de amônia em 15%.

 

As fábricas de fertilizantes da Índia, que normalmente compram muito gás em forma liquefeita do golfo, estão trabalhando com 70% do combustível que normalmente teriam. Em Bangladesh, igualmente dependente de importações de matéria-prima do Oriente Médio, quatro das cinco fábricas de fertilizantes fecharam.

 

A disponibilidade de hidrocarbonetos é outro problema além do aumento dos preços dos fertilizantes. Colheitadeiras e bombas d'água consomem muito diesel, cujo preço também aumentou acentuadamente. Nos EUA, os agricultores gastaram US$ 10 bilhões com diesel em 2024, cerca de 64% de seus gastos totais com combustível.

 

Os petroquímicos presos no Golfo também estão elevando o custo de sacolas plásticas, embalagens e filmes que os agricultores usam. O polietileno está com o preço mais alto desde 2022. Tudo isso preocupa a FAO.

 

Os preços dos alimentos são difíceis de prever. Mas as estimativas do Instituto Kiel são sombrias. Os pesquisadores calculam que os preços podem subir mais de 10% na Índia, Paquistão, Sri Lanka e Taiwan. Na Zâmbia, podem disparar 30%. O Programa Mundial de Alimentos, também da ONU, disse que uma guerra prolongada poderia aumentar o número de pessoas em fome aguda em 45 milhões, para 363 milhões (The Economist, 8/4/26)