Hora da verdade – Por Luiz Felipe D’Ávila
Foto Reprodução Redes Sociais
Ou elegemos governantes decentes e competentes, que terão coragem de livrar o País da imundície, ou vamos sepultar de vez o pouco que nos resta de democracia e liberdade.
A crise é o momento no qual os corajosos despontam, os covardes se escondem e os demagogos revelam a sua verve autoritária. O Brasil enfrenta a mais grave crise institucional desde a redemocratização em 1985. 20 anos de populismo degeneraram a Presidência da República, o Congresso e o Judiciário.
Lula 3 é o retrato da Presidência que perdeu autoridade, protagonismo e capacidade de liderar o País.
Sua liderança medíocre está espelhada na roubalheira do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), no escândalo do Banco Master, nas derrotas no Congresso, na desastrosa situação fiscal do País e no seu cacoete populista de manter a chama da polarização acesa, como se 20 anos de governos petistas não tivessem nenhuma culpa pela desgraça econômica, política e social na qual o País se encontra. Não é à toa que o pêndulo decisório se moveu do Poder Executivo para os Poderes Legislativo e Judiciário.
O Congresso transformou-se num conluio de oportunistas, cuja preocupação central é manter-se no cargo e distribuir dinheiro público por meio de emendas para irrigar redutos eleitorais, comprar apoio político e financiar projetos paroquiais. As reformas urgentes de que o Brasil precisa para sair da armadilha do baixo crescimento, da ineficiência do Estado e da caótica insegurança que reina no País continuam adormecidas no Legislativo.
No Senado, o presidente Davi Alcolumbre mantém na gaveta há mais de três anos o projeto de lei para acabar com os vergonhosos “penduricalhos” e supersalários que violam o teto constitucional. Na Câmara, a pressa do presidente Hugo Motta para votar a redução da jornada de trabalho revela como o populismo legislativo faz mal ao Brasil.
O projeto de lei que vende a ilusão de que as pessoas vão trabalhar menos e continuar ganhando a mesma coisa vai destruir empregos, jogar milhares de pessoas na informalidade e comprometer a situação periclitante das finanças públicas dos Estados e municípios. Para completar a farra populista com o nosso dinheiro, o Congresso liberou o uso de emendas para financiar a distribuição de dinheiro e benesses para prefeituras às vésperas da eleição.
Trata-se de uma clara violação da Lei Eleitoral que configura abuso de poder econômico em época de eleição.
Nesta Disney de populistas em que se transformou o Brasil, caberia ao Poder Judiciário agir como o adulto no País e zelar pelo cumprimento da lei e da Constituição. Mas eis que o Poder Judiciário se tornou o epicentro da crise institucional. Os ministros da Corte seguiram o exemplo de Luís XIV, o rei francês que se autodefiniu “o Estado sou eu”. Assim como Luís XIV, os membros da Suprema Corte passaram a decidir o destino da Nação por meio de decisões monocráticas.
A Constituição vem sendo tratada como se fosse uma partitura musical que pode ser interpretada livremente, de acordo com as convicções pessoais e a leitura particular de cada ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto o povo tem de conviver com a insegurança jurídica, a impunidade e o desvirtuamento do cumprimento da Constituição, o STF vive no berço esplêndido do Versalhes brasileiro – o Tayayá do privilégio, do nepotismo e da arbitrariedade.
Ingressar na Suprema Corte garante casos milionários para familiares dos ministros, acesso ilimitado a benesses – como “penduricalhos”, jatinhos e convescotes internacionais cinco estrelas – e uma caneta poderosa que se tornou o condão mágico do arbítrio.
O populismo e a arbitrariedade são duas pragas que atacam o nervo central da democracia, destruindo a crença nos valores que sustentam uma sociedade livre. Montesquieu dizia que a sobrevivência da República e da liberdade depende da existência de uma elite pautada pelo senso de dever e de virtude.
Mas quando nos deparamos com o comportamento imoral, vulgar e depravado que une a elite política, econômica e social em festas e bacanais organizadas por gente como Epstein e Vorcaro, a liberdade e a democracia estão em risco. Dessas saturnálias surge a cumplicidade da devassidão que dá origem aos esquemas fraudulentos, conluios de corrupção e à garantia de favores políticos e econômicos.
Essa esculhambação só vai acabar quando o eleitor despertar do seu sonambulismo e eleger governantes decentes. Eleger populistas irresponsáveis que dilapidaram a democracia e a economia nos últimos 20 anos e esperar resultados diferentes é sinal de demência cívica.
Eleger membros da bancada dos sem-vergonhas envolvidos nos esquemas de Vorcaro, no roubo do INSS e em outras falcatruas e esperar que terão coragem e espírito público para aprovar as reformas duras e impopulares de que o Brasil precisa é devaneio de cidadão incauto.
Chegou a hora da verdade. Ou elegemos governantes decentes e competentes, que terão coragem de livrar o País da imundície da corrupção, dos esquemas perversos do clientelismo e das gangues do corporativismo privado e público que capturaram o Estado, ou vamos acabar de sepultar o pouco que nos resta de democracia e liberdade. O futuro do Brasil depende das nossas atitudes e escolhas em 2026 (Estadão, 27/5/26)

