Lula e o caos dos combustíveis – Por Paula Sousa
Presidente Lula da Silva. Foto reprodução Uol
Enquanto os preços da gasolina e do diesel disparam e o desabastecimento começa a dar sinais em diversas regiões, o Palácio do Planalto aciona seu mecanismo de defesa padrão: a transferência de culpa. Para quem observa a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos 30 anos, o roteiro é idêntico. O erro é sempre técnico ou fruto da "ganância alheia", nunca da gestão.
A lei da física que o governo ignora
Existe uma regra na economia que é tão implacável quanto a gravidade: a lei da oferta e da demanda. Não importa o que o político diga no palanque; se muita gente quer comprar a mesma quantidade de um produto, o preço sobe. É uma reação em cadeia.
Recentemente, o receio de que o conflito no Oriente Médio e a instabilidade na Petrobras fizessem o combustível sumir gerou uma corrida aos postos. Quando o consumidor, por medo, decide "encher o tanque hoje para não pagar caro amanhã", ele mesmo acaba acelerando a alta. Isso não é maldade do dono do posto; é o mercado reagindo à incerteza gerada pelo próprio governo.
Ignorar isso é tentar reviver o fantasma de Alberto Fernández na Argentina. Lula parece ter incorporado o discurso do ex-aliado portenho, sugerindo que a culpa da inflação é do "comerciante malvadão" ou do "intermediário explorador". É uma narrativa emocional feita para esconder uma incompetência técnica gritante.
O retorno dos impostos: O tiro no pé
Para entender por que o combustível pesa tanto hoje, precisamos olhar para o retrovisor. Em 2022, o governo anterior realizou cortes drásticos nos impostos federais e no ICMS para aliviar o bolso do brasileiro. O que Lula fez ao assumir? Em vez de manter a desoneração enquanto a economia se estabilizava, ele optou por "tacar imposto" novamente, aproveitando uma queda temporária no preço internacional para rechear os cofres da União.
Agora que o cenário externo apertou, o brasileiro ficou com o pior dos mundos: o petróleo caro lá fora e uma carga tributária pesadíssima aqui dentro. A isenção do PIS/COFINS, alardeada pelo governo como uma "bondade", é, na prática, uma "merrequinha" diante do montante que o Estado abocanha em cada litro vendido.
Fiscalização: O atalho para o desabastecimento
A resposta do governo à crise é o uso da força, não da lógica. Ao enviar o Procon, a Polícia Federal e o Ministério da Justiça para "fiscalizar preços abusivos", o governo cria um cenário perigoso.
O controle de preços e o tabelamento são as vias expressas para a falta de produto. Se o dono do posto é impedido de ajustar o preço conforme o custo de reposição, ele simplesmente para de comprar das distribuidoras para não quebrar. O resultado? Fila e bomba seca. Como diz o ditado: o combustível mais caro do mundo é aquele que não existe. Ter a opção de pagar caro e poder viajar é ruim, mas não ter combustível nenhum e ficar a pé é catastrófico.
A mídia tradicional já começou a registrar os sintomas dessa paralisia:
- Brasília: Postos enfrentaram falta de gasolina após corridas de motoristas receosos.
- Santa Catarina e Rio Grande do Sul: Relatos de cidades em emergência por crise de diesel e filas quilométricas.
- São Paulo: Distribuidoras já sinalizam gargalos no abastecimento.
- Pará: Fiscalização pesada em Belém após altas de 11% em uma única semana.
A "mágica" do etanol e o prejuízo no motor
Desesperado para baixar o preço na canetada, o governo ventila medidas "heterodoxas", como aumentar a mistura de etanol na gasolina. É uma medida puramente elitista. Quem tem carro flex moderno pode não sentir o impacto imediato, mas quem depende de motos ou carros mais antigos — geralmente a parcela mais pobre da população — verá seus motores serem corroídos pelo excesso de álcool, que não foi previsto no projeto original desses veículos. Lula não se importa se o motor do cidadão fundir daqui a seis meses; ele precisa de uma manchete favorável hoje.
30 anos de culpa alheia
O que vemos hoje é a síntese do "Lulismo": uma mistura de populismo econômico com perseguição a setores produtivos. Em 2021 e 2022, Lula e Fernando Haddad foram às redes sociais afirmar categoricamente que "o preço da gasolina é responsabilidade do Presidente da República". Agora, sentados na cadeira do poder, a responsabilidade magicamente se tornou do "conflito a 14.000 km de distância" ou dos "leilões da Petrobras".
O governo tenta ressuscitar teorias econômicas mofadas, como a ideia de que o valor das coisas vem do trabalho ou do custo, ignorando que o valor é subjetivo e depende da necessidade do mercado. É o erro crasso de quem parou no tempo e ainda acredita que fiscais do Sarney podem consertar a economia com um carimbo e uma ameaça de prisão.
Conclusão
O Brasil não sofre apenas com a alta do petróleo; sofre com uma liderança que se recusa a aceitar as leis básicas da economia. A tentativa de tabelar o frete, de perseguir donos de postos e de manipular a Petrobras para fins políticos é o caminho mais rápido para o buraco. Enquanto o governo continuar tratando o cidadão como "idiota", tentando vender narrativas emocionais no lugar de responsabilidade fiscal, o combustível continuará sendo o símbolo de uma gestão que sabe gastar, mas não sabe governar. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 20/3/2026)

