23/09/2026

Lula mistura papéis de estadista e candidato na ONU – Editorial Folha

Lula mistura papéis de estadista e candidato na ONU – Editorial Folha

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York (EUA). Foto Kylie Cooper/Reuters

 

  • Na Assembleia Geral, petista acerta ao apontar crise do multilateralismo, mas se alonga em temas domésticos
  • Não se trata de preocupação implausível; a poucos dias da eleição, porém, não se materializou o temor de uma interferência direta dos EUA

 

Ao longo da história, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas serviu tanto como palco para reflexões sobre a geopolítica quanto para demonstrações de líderes periféricos dando recados domésticos sob holofotes globais.

 

Em sua intervenção na abertura da 81ª edição do evento, nesta terça (22), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) almejou um amálgama dos dois papéis. Mas o candidato à reeleição suplantou o projeto de estadista do mandatário.

 

O púlpito da ONU serviu a assuntos variados e privativos do eleitor brasileiro, incluindo até o prometido fim da escala de trabalho 6x1, algo digno de estranheza —ainda que não comparável à merecida pelas alucinações proferidas por Jair Bolsonaro (PL) durante suas passagens por lá.

 

Sem recusar integralmente o apoio do Itamaraty, Lula começou bem sua fala. Fez um correto diagnóstico da derrocada do sistema multilateral, que seria evidenciada pelo de fato relevante orador seguinte, Donald Trump.

 

O discurso escorregou ao tentar negar a máxima de Carl von Clausewitz, segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios. Alguém com conhecimento do vernáculo alemão poderia lembrar Lula de que a "Politik" do general prussiano ia além de objetivos imediatistas.

 

Queixou-se de um mundo em guerra, o que está longe de ser exagero, mas sem apresentar mais que platitudes sobre o tema. No mais, fustigou Israel, o embargo a Cuba e outras ações associadas a Trump.

 

O republicano nunca foi nominado, talvez para não piorar uma relação já esgarçada. Mas sua obra estava lá para ser criticada: guerra tarifária, militarismo, inteligência artificial desabrida e a retomada da doutrina segundo a qual o Hemisfério Ocidental é área de influência exclusiva de Washington.

 

Trump não lhe deu ouvidos, tanto que o Brasil nem sequer foi citado no discurso do americano.

 

Na seara da disputa com Flávio Bolsonaro (PL), Lula deteve-se sobre o tema da segurança. Além de elencar itens como o Pix ou a lei trabalhista, foi mais diretamente ao ponto ao rejeitar ingerência "interna ou externa" no pleito deste ano. A referência, novamente implícita, era a Trump e sua relação com o bolsonarismo.

 

O petista usou o trunfo da soberania —"o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Não se trata de preocupação implausível, dada a Estratégia de Segurança Nacional e o ímpeto intervencionista de Trump —além de ser uma estocada no bolsonarismo devotado ao republicano.

 

Todavia as vantagens desse discurso não são tão visíveis agora como no tarifaço de 2025. A ofensiva da Casa Branca contra o crime organizado, por populista que seja, avança sobre um tema delicado para a campanha petista.

 

A poucos dias da eleição, não se materializou, até aqui, o temor de uma interferência externa direta —como o próprio Lula atestou na conversa com o senador esquerdista Bernie Sanders (Folha, 23/9/26)