Lula puxa briga com Trump – Editorial O Estado de S.Paulo
Aturdido com o fastio do eleitorado, Lula cruza o Atlântico para se acoelhar no ‘último refúgio dos canalhas’ – o patriotismo – e provocar Washington. Mas quem sairá escoriado é o Brasil.
O tour do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Europa e a crise diplomática fabricada com a polícia dos EUA, longe de serem episódios desconexos, são táticas de uma mesma estratégia: a instrumentalização da política externa a serviço da campanha eleitoral. O presidente fala ao mundo, mas seu alvo é o eleitor brasileiro.
Lula elevou reiteradamente o tom contra Donald Trump – disse que ele não é “imperador do mundo”, ridicularizou sua atuação internacional, antagonizou-o como uma ameaça à democracia. Não se trata de divergências legítimas e legitimamente conduzidas entre Estados, mas de um embate personalizado, empacotado em linguagem de palanque.
Nem líderes de potências rivais, como Xi Jinping, Vladimir Putin ou Kim Jong-un, adotam com tanta frequência e impudência essa retórica performática. Ao fazê-lo, o Brasil não afirma sua soberania – ao contrário, só a compromete.
O próprio Lula admitiu em entrevista que uma intervenção de Trump no Brasil lhe renderia dividendos. A parolagem patrioteira funciona como eixo de mobilização num cenário adverso. Mesmo raspando os cofres públicos, Lula não consegue resgatar sua popularidade. Diante disso, recorre a artifícios prosaicos da caixinha de ferramentas dos demagogos: incitar um antagonista externo e convertê-lo em ativo eleitoral.
O que se viu na Europa foi um teatro miniaturizado da diplomacia lulopetista: fóruns ideologicamente alinhados, platitudes humanitárias, conjurações de espantalhos (o “fascismo”, o “neoliberalismo”, os super-ricos), indignação seletiva e conivência com tiranias de esquerda e rigor com democracias à direita, além de conclamações a intervenções estatais, como nas redes sociais, sob pretextos vaporosos – a “soberania”, a “democracia”, as “crianças”.
A diplomacia, que deveria ser instrumento de Estado, é reduzida a megafone para a promoção pessoal de Lula.
O imbróglio em torno de Alexandre Ramagem, foragido nos EUA, revela o custo dessa retórica quando transborda para a prática. O ex-deputado bolsonarista foi detido pela imigração e, depois, liberado. Autoridades alegaram que Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da Polícia Federal responsável pela cooperação brasileira nos EUA, teria contornado canais formais da imigração e o descredenciaram.
O episódio é marcado por versões conflitantes e contornos ambíguos. Justamente por isso, o momento exigia prudência. O governo a mandou às favas.
Antes da apuração dos fatos, o presidente ameaçou retaliar, o Itamaraty chancelou a escalada e a Polícia Federal bloqueou as credenciais de um agente americano alegando “reciprocidade”. Mas reciprocidade pressupõe equivalência. Carvalho é acusado de ilicitudes; o agente americano não. A acusação pode até se provar injusta. Mas, sem comprovação, dissolve-se o alicerce técnico da reciprocidade. Resta a represália.
Um canal sensível de cooperação institucional foi subvertido em instrumento de embate político. Relações entre agências construídas ao longo de décadas foram sujeitadas à lógica da sinalização midiática. A técnica cede lugar à coreografia do confronto. O interesse nacional, que deveria nortear a política externa, é subordinado a cálculos marqueteiros.
O Brasil mantém com os EUA uma relação estratégica de mais de dois séculos, sustentada por interesses comerciais, institucionais e de segurança. Preservá-la – ainda mais diante de um presidente notoriamente volátil – exige mais do que “química”. É preciso discrição, consistência, senso de proporção, canais abertos e azeitados.
Em vez de resguardar o Brasil das turbulências externas, o presidente se apressa em crispá-las como combustível eleitoral. A “soberania” que Lula invoca não se traduz em estratégia, mas em slogan. A diplomacia é abastardada para servir à vanglória do demiurgo. Lula usa vitrines internacionais para comprar aplausos lá e votos aqui – e repassa a fatura à sociedade brasileira.
Em suas pantomimas pacifistas, Lula recriminou a guerra contra o Irã como “irresponsável” e “inconsequente”. Não é preciso entrar no mérito para notar que descrevia com precisão involuntária sua própria atuação: inconsequente e irresponsável é sua guerrilha contra Trump (Estadão, 28/4/26)

