07/08/2026

Memórias do agro: Quando orientar era tão importante quanto produzir

Memórias do agro: Quando orientar era tão importante quanto produzir

Por Rodrigo Simões

 

Muito antes da existência de cursos, consultorias e plataformas digitais, Otacílio Tomanik registrava, em relatórios datilografados e cuidadosamente encadernados, orientações destinadas à criação de cooperativas e análises detalhadas sobre a realidade econômica dos produtores paulistas. Quase nove décadas depois, esses documentos revelam que conhecimento, organização e cooperação já eram considerados instrumentos indispensáveis para transformar o campo.

 

Ainda hoje impressiona imaginar Otacílio Tomanik diante de uma máquina de escrever, organizando números, relatórios, observações técnicas e reflexões que, décadas mais tarde, permaneceriam preservados nos arquivos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O cuidado na redação, a precisão das informações e a qualidade dos registros transformaram esses documentos em um dos mais importantes patrimônios históricos do cooperativismo paulista.

 

Nesta etapa da série Memórias do Agro, dois capítulos chamam atenção pela atualidade de suas ideias. O primeiro recebe o título “Orientação Econômica para Constituição de Cooperativas”. Mais do que apresentar conceitos, Tomanik procura orientar aqueles que desejavam organizar uma sociedade cooperativa de forma sólida, sustentável e capaz de alcançar seus objetivos econômicos e sociais. Em suas palavras, havia uma preocupação permanente do Departamento de Assistência ao Cooperativismo em fornecer aos produtores os elementos necessários para que as cooperativas nascessem bem estruturadas, evitando improvisações que comprometessem sua continuidade.

 

Ao ler essas páginas, percebe-se que a preocupação não era apenas jurídica ou administrativa. Havia uma compreensão bastante moderna de que uma cooperativa somente prosperaria quando seus associados compartilhassem objetivos comuns, confiança mútua e compromisso coletivo. O cooperativismo surgia, portanto, como instrumento de desenvolvimento econômico, mas também como mecanismo de fortalecimento das comunidades rurais.

 

Na sequência do relatório, Tomanik desloca seu olhar para uma realidade bastante específica: a situação do mercado do camarão em Santos. O texto revela sensibilidade social ao descrever pescadores vivendo em condições extremamente difíceis, marcadas por baixos rendimentos, limitações econômicas e poucas oportunidades de organização. A análise demonstra que o problema não estava apenas na produção ou na pesca em si, mas principalmente na ausência de estruturas capazes de fortalecer esses trabalhadores diante das dificuldades do mercado.

 

O relatório registra investigações realizadas junto aos pescadores, entrevistas, levantamentos sobre produção, transporte, comercialização e condições de trabalho. Em determinado momento, Tomanik destaca que a constituição de uma cooperativa poderia representar muito mais do que uma simples associação formal: seria um caminho para ampliar o poder de negociação dos produtores, reduzir desigualdades e criar melhores condições de acesso aos mercados consumidores.

 

É interessante perceber como essas reflexões atravessaram o tempo. Hoje, embora a realidade da pesca e da agricultura paulista seja completamente diferente daquela observada na década de 1930, os princípios permanecem praticamente os mesmos. Cooperativas continuam sendo instrumentos fundamentais para agregar valor à produção, fortalecer pequenos produtores, ampliar mercados, facilitar acesso ao crédito, incorporar tecnologia e estimular o desenvolvimento regional.

 

O que mudou foram as ferramentas. O que permaneceu foi a essência.

 

Os documentos preservados por Otacílio Tomanik mostram que, muito antes das modernas políticas públicas voltadas ao fortalecimento do cooperativismo, já existia a convicção de que conhecimento técnico, boa gestão e organização coletiva eram elementos indispensáveis para transformar atividades econômicas isoladas em empreendimentos sustentáveis. Não por acaso, São Paulo tornou-se, ao longo das décadas, uma das maiores referencias nacionais em cooperativismo agropecuário.

 

Ao resgatar esses capítulos, Memórias do Agro revela que os relatórios produzidos por Tomanik não eram apenas documentos administrativos. Eram registros de uma visão de futuro. Escritos com rigor técnico, datilografados página por página e cuidadosamente encadernados, eles preservaram muito mais do que informações sobre uma época: conservaram a memória de homens que acreditavam na cooperação como instrumento de desenvolvimento, dignidade e prosperidade.

 

É justamente essa capacidade de dialogar com o presente que transforma o trabalho de Otacílio Tomanik em um patrimônio histórico da agricultura paulista. Quase noventa anos depois, suas páginas continuam lembrando que, antes de qualquer tecnologia, inovação ou política pública, sempre houve um elemento indispensável para o sucesso do cooperativismo: pessoas dispostas a construir soluções coletivas.

 

(Rodrigo Simões; Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 7/8/26)