07/05/2026

Não existe uma instância capaz de controlar sozinha a crise política

Não existe uma instância capaz de controlar sozinha a crise política

Imagem aérea da Esplanada dos Ministérios com o Congresso Nacional ao fundo. Foto Wilton Junior Estadão

 

Por William Waack

O que não se sabe neste momento é quem e como vai ocupar o vácuo na política.

 

Uma grande dificuldade hoje no Brasil é identificar claramente onde está o centro do poder político. Ao longo dos últimos anos o Legislativo cresceu às custas do Executivo e o STF às custas dos outros dois. Uma característica relevante da crise hoje é o fato de que nenhum desses “centros” controla sozinho ou dita rumos de acontecimentos políticos.

 

O Legislativo é fracionado e de baixa representatividade. A ausência de partidos políticos dignos desse nome molda o Congresso como uma instância poderosa na distribuição de recursos (o que mais interessa às oligarquias regionais), mas incapaz de pensar o País em termos abrangentes. Ou seja, não existe uma “agenda” além das convergências de interesses em questões imediatas ou setoriais.

 

O Executivo perdeu força por uma sucessão de presidentes que não souberam fazer política, e quem supostamente sabia fazer muita política (Lula) não entendeu de saída as circunstâncias nas quais iniciou o terceiro mandato. Uma mistura de soberba e incapacidade de ler as mudanças mais amplas no mundo e na sociedade conduziu a graves equívocos políticos, dos quais a insistência na indicação de Messias para o STF foi apenas o exemplo mais recente.

 

Uma armadilha fiscal criada por ele mesmo tornou muito difícil a condução da economia, que não deu o salto esperado pois a “fórmula” já tinha ficado clara sob Dilma que não funcionaria. As “medidas econômicas” do governo hoje são apenas ferramentas de cunho político eleitoral, tratando de sintomas e não de causas (caso do endividamento das famílias). Sob um peso de juros sufocantes que em grande parte são responsabilidade da própria armadilha fiscal.

 

O STF tornou-se o supremo poder entre os poderes até a recente e inédita crise, cujos contornos são perigosíssimos pois não há convivência social possível sem um Judiciário que seja respeitado, tenha credibilidade e, portanto, legitimidade. O problema do ponto de vista político não é mais o “ativismo judicial” ou a “insegurança jurídica” trazida por zigue zague de decisões em diversas áreas.

 

É o fato de que o STF perdeu a condição de “árbitro” ou mesmo de instância moderadora (como se tentou em várias questões) para acomodar questões de fundo. Ganha contornos cada vez mais nítidos no horizonte da política o espectro de uma investigação e impeachment de integrante do Supremo, algo que poucos meses atrás era impensável. E como os centros de poder estão enfraquecidos e divididos, um grande “acordão” político tem fortes obstáculos para ser costurado.

 

Como se sabe fartamente, não existe vácuo em política. O que não se sabe neste momento é quem e como vai ocupá-lo (Estadão, 7/5/26)