Não há recorde de receita que chegue – Editorial Folha de S.Paulo
- Arrecadação de impostos atinge maior patamar já registrado, mas gastança manterá Orçamento desiquilibrado
- Algumas medidas de Lula para elevar tributos foram corretas ao eliminar privilégios; outras, como a alta do IOF, afetam os mais pobres.
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpriu seu objetivo de elevar sensivelmente a arrecadação tributária. Em 2025, ingressaram nos cofres federais R$ 2,887 trilhões, maior montante já registrado, com alta de 3,65% acima da inflação ante o ano anterior.
Desde o início deste mandato presidencial, o aumento real acumulado de uma carga já excessiva para um país de renda média é de portentosos 13,5% —e isso na comparação com um resultado excepcional em 2022, inflado pela alta dos preços do petróleo.
O impulso veio de medidas adotadas sobretudo nos últimos dois anos, como a reoneração gradual da folha de pagamentos, o aumento do IOF em junho de 2025 —a receita do imposto saltou 20,5%, para R$ 86,5 bilhões— e os efeitos continuados da tributação de fundos exclusivos e offshores a partir do ano passado.
A contribuição previdenciária mostrou ganho de 4,5%, beneficiada pelo crescimento da massa salarial, enquanto PIS e Cofins avançaram 5,5%, apesar da estagnação nas vendas de bens.
Parte do resultado também reflete a expansão da economia, mas esse motor já está mais fraco. A produção industrial recuou, e os juros altos, necessários para conter a inflação, começaram a frear o crédito e a demanda, cuja perspectiva é de desaceleração também neste 2026.
As contas federais do ano passado reafirmam o que deveria ser uma obviedade desde o início: a estratégia petista de tentar equilibrar o Orçamento apenas com mais receitas, sem conter a alta galopante de gastos, está fadada a um fracasso capaz de pôr em risco a estabilidade econômica.
Mesmo com o recorde de arrecadação, o Tesouro Nacional fechou o ano com um déficit estimado entre R$ 60 bilhões e R$ 70 bilhões —sem contar encargos com juros na casa dos R$ 870 bilhões no âmbito federal.
Os resultados podem estar dentro das metas oficiais fixadas, porque o governo Lula muda as metas e cria exceções aos limites orçamentários a todo momento. Não chegam perto, entretanto, do necessário para deter a escalada da dívida pública, hoje em torno de 80% do Produto Interno Bruto e com alta contínua projetada nos próximos anos.
Algumas medidas adotadas para elevar a arrecadação, se tomadas isoladamente, foram corretas ao eliminar privilégios de estratos mais ricos; outras, como o aumento do IOF, são prejudiciais ao mais pobres. Mais importante, o equívoco está em pretender ampliar a carga como um todo, que já consome um terço do PIB, em vez de concentrar esforços na melhora de sua distribuição.
Cúmplice de Lula na gastança irresponsável, o Congresso Nacional aprovou boa parte dos projetos de aumentos de impostos, mas há limites políticos e econômicos à oneração contínua dos contribuintes. O próximo governo, qualquer que seja, terá de reconhecer tardiamente que, com a atual política perdulária, não haverá recorde de receita que chegue (Folha, 23/1/26)

